ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sábado, agosto 19, 2006

 

Polémicas cruzadas

No Manchas, Luis Mourão pede-me explicações sobre o meu post de há dois dias:
«Meu caro Carlos Leone: se ao lado da Arendt de Eichmann em Jerusalém colocar o Grass de O tambor, acha que poderá manter a distinção entre um Grass “vazio e retórico” e uma Arendt “analítica e séria”?» O ponto do meu post não era esse, mas não me custa responder e depois voltar ao meu tema (entretanto bem explorado também no Da Literatura, Abrupto, Fuga para a Vitória e O Amigo do Povo, pelo menos).
E a minha resposta é que não ponho as obras de Grass (romancista) e Arendt (filósofa) lado a lado, não me parece que sejam comparáveis. O que fiz foi comparar as declarações públicas de Grass, suposta autoridade moral, com uma reportagem para o «grande público» (ao menos maior do que o público específico de Filosofia). Isto é, comparei duas intervenções públicas.
Outra coisa: parece mais ou menos consensual que Grass continua a ser o grande escritor que até agora era. Mas o silêncio que caiu sobre as suas tiradas parece-me estranho. Se querem recusar a Grass a autoridade de as pronunciar, percebo (é a mesma lógica da atitude de Grass durante décadas...). Mas o que não vejo é ninguém manter as mesmas tiradas grandiloquentes e tremendas e essas deviam poder manter-se. Acho que quem gostava do civismo dele devia agora assumir como suas, sem recorrer ao facto de terem a marca de origem de Grass (agora desqualificado), essas lições de moral tão edificantes.
E com isto retorno ao meu ponto. O meu post era sobre o ódio à mudança que este caso (como tantos outros) revela. Daí a relação com o centenário de Marcelo, transformado pelas TV's em historieta de Verão. Permito-me estranhar tanta indignação com os alemães e tanto desinteresse face às nossas realidades. Mas como já disse acima (e já ontem deixei comentado no A Terceira Noite) ainda bem que houve nos blogs quem não se satisfizesse com a «evocação» de Caetano.
Note que não me importo de escrever sobre Grass, embora não me motive muito. Em rigor, as suas observações no Manchas dizem muito do que eu diria sobre o tema do ponto de vista literário (aquele que deveria ser determinante, afinal). Espero que esta explicação tenha deixado mais claro o que me levou a escrever esse meu post. Há uns dias tive de discutir o que era fascismo quando tinha escrito sobre liberalismo e a nossa falta dele, agora sobre Grass quando escrevia sobre Caetano e o ódio à mudança... Enfim, deve ser dificuldade minha em explicar-me, obrigado por me ter chamado a atenção.
CL



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?