ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, agosto 17, 2006

 

Grass, no aniversário de Caetano

Tenho seguido, sem especial zelo nem verdadeiro interesse, o que se tem escrito sobre a confissão autobiográfica de Grass. Que pertenceu voluntariamente às Waffen SS, durante quatro meses, sem ter disparado um único tiro. Pelos vistos já era pacifista nessa altura, eu acho que lhe fica bem, apesar de me parecer improvável. Mas, de facto, no fim da Guerra já os pretorianos do regime tinham caído em desgraça pela sua crescente ineficácia em combate (mesmo se foram os voluntários franceses da Divisão Charlemagne que defenderam o bunker de Hitler em Berlim), o suposto exclusivismo rácico ariano tinha ido às malvas com pretextos cada vez mais sensacionais por força de alistamentos (pouco voluntários, aliás) cada vez maiores, e, aspecto que talvez alguns não saibam, as Waffen SS eram forças de combate, não as SS que estavam nos campos de concentração.
O episódio, em si mesmo, não é nada de novo. Uma descarada manobra de promoção editorial (como se prova pelo «adiantamento» da data de saída da autobiografia) feita à custa da mesma moralina que fez a fama literária de Grass (prémio Nobel incluído), como os seus leitores salientam (por exemplo em A Terceira Noite). Chamar consciência moral a quem nunca fez mais do que generalizações vazias e grotescas sobre história sempre foi rídiculo, como o é agora. Hoje, como sempre, os méritos do escritor valem se, e apenas se, não incomodarem as opções (inertes, na sua maioria) do público. Assim, ontem, Grass era um grande escritor porque dizia o género de inanidades sobre consciência histórica (anti-ocidental, desde logo) que o pacifismo de esquerda gostava de reproduzir sem se importar de, com isso, depreciar sem critério um povo e uma nação capitais na história e consciência europeias. Hoje, Grass, o homem, não mais será ouvido porque disse a verdade a respeito da sua vida - crime mortal, como ele bem sabia este tempo todo.
A literatura, essa, sempre foi pretexto, está visto (para algumas achas para esta fogueira esquecida, ver aqui e aqui). Sem discordar muito do que Eduardo Pitta escreve, eu gostaria de aproveitar o centenário de hoje para lembrar duas coisas:
1) Foram os mesmos alemães que fizeram a guerra e o extermínio de judeus que fizeram a União Europeia que hoje nos é tão indispensável. Exactamente os mesmos, apenas um pouco mais velhos e muito mais experientes do que eram quando andavam a destruir a Europa em nome do III Reich. E se críticas à justiça e à memória alemãs havia a fazer (e havia, há sempre), mais valia terem lido a Arendt de Eichmann in Jerusalem (há uma tradução portuguesa recente, julgo que na Tenacitas). A diferença é que onde Grass é vazio e retórico, Arendt é analítica e séria. E isso permite ver as continuidades mas também as diferenças. São as segundas que fazem dos humanos uma espécie singular.
2) Quem tanto se excita com Grass podia aproveitar o centenário de Marcello Caetano para notar como são também os portugueses que não se revoltaram durante décadas, que foram para África matar os locais, que estiveram na PIDE, etc, etc., durante muito mais tempo do que durou o nazismo, que, hoje, são democratas, europeus, moderados e hospitaleiros. Afinal, hoje, até o mesmo Pulido Valente (que não muda a não ser em mudar de cada vez que precisa escrever nova bombarda) que há duas semanas falava de Marcello como um moderado liberal em tudo diverso de Salazar, que nos conta, como se tivesse estado lá, a chacina que o moderado Caetano tentou perpetrar no Carmo a 25 de Abril de 1974 (está no «ensaio» no Público). Os portugueses mudaram? Se não mudaram, comecemos pela condenação colectiva definitiva que nos falta e deixemos a dos alemães. Se mudaram, admitamos que os alemães fizeram o mesmo. Que todos os povos o fazem, desde que não optem pelo isolamento.
Mas no país onde a evolução de Freitas é apreciada pela Esquerda, a de Grass não. Parece que aos 17 anos se deve ter uma consciência política especialmente afinada. No fundo, a hipocrisia é a mesma, e resume-se não só ao ódio à liberdade (como escreve Pedro Mexia) mas ainda ao ódio à mudança. A Direita, unidade mítica, disfarça-a com o amor à tradição (quase sempre inventada). A Esquerda, sempre «única» por excomugar as vozes dissonantes, não tem esse recurso e necessita da ética da convicção, sempre pronta a mudar de sinal. Eu, weberiano, constato a falta de ética da responsabilidade de uns e outros. Mas continua, é bom para o negócio...
CL



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