ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, setembro 21, 2006

 

Desculpas devidas

Sou ateu. Nada de especial, vivo sem Deus e sei como se construiram as sociedades modernas. Não sou agnóstico, por saber que uma questão de fé não se reduz a outra de conhecimento. Não precisei de mandamentos de um ser («Ser») omni-tudo-e-mais-alguma-coisa para me portar decentemente. Sou um ateu «normalizado», sem grandes esperanças na falta de futuro da ilusão.
Mais uma vez, a exigência de desculpas (desta vez de islamitas a católicos) deixa-me perplexo com o esquecimento dos ateus. Todos os dias, não há fanático ignorante da sua própria religião que não perore sobre a «crise de valores», «o relativismo», «a decadência de costumes», e muitas outras coisas ainda muito piores, atribuindo-as a «uma época que não escuta Deus» e outras pérolas do género com que encobre estar a falar para os seus (não praticantes), muito mais do que para ateus pacíficos e civilizados que vivem tranquilamente uns com os outros e, até, com crentes preconceituosos, violentos e antipáticos que nos insultam sem nos conhecerem de lado nenhum. Daí a perplexidade com o esquecimento: quando é que os «crentes» se vão lembrar de nos pedir («exigir» é ameaça, nem conta para nada) desculpa por todos os insultos, calúnias e ameaças que todos os dia nos fazem?
Afinal, nenhuma doutrina política, filosófica, etc., tem no currículo tantas mortes, perseguições, crimes de todo o género como qualquer uma das grandes «religiões» (irónica designação, a não ser no que de sarcástico mas infelizmente real ela comporta). Como ateu, não preciso das desculpas deles para nada, bastava-me que deixassem de aumentar o seu longo currículo de barbaridades. Mas estranho que tanta gente fale das desculpas necessárias do Papa ao Islão (para me cingir a este caso) enquanto não há quem se lembre dos mais constantemente atacados, sem qualquer justificação. Os ateus. Será por não andarmos por aí a falar em público do nosso Absoluto para justificar massacres? De qualquer modo, por mais que ameacem, ou sejam cúmplices com os que ameaçam (quando convém), não tenciono converter-me. Pela razão e pela ética, passo bem como estou. E não ofende quem quer...
CL
PS - A única troca de ideias interessante que vi sobre a polémica em curso é entre Luís Mourão e Rui Bebiano. Mourão interessa-se pelas ideias dos textos, menosprezando o efeito mediado das suas interpretações, como bom teórico literário (e mau político). Bebiano interessa-se mais pela dimensão política do que pela literal, como bom historiador (e polemista irénico). É um desentendimento incurável, mas amigável. Benigno, como é possível entre não-crentes.



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?