ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

segunda-feira, junho 19, 2006

 

A crítica não morreu, mudou de função (I)



O fotografado, ao lado, é Ovídio, que foi desterrado para Constança e aí morreu. Hoje, é um dos clássicos que estão na moda em Portugal (nos suplementos literários). «Moda», não «favor da crítica». Por definição, um clássico já passou o crivo da crítica. E, para o que aqui importa, o que nos últimos dois anos, sensivelmente, se tem verificado em Portugal é a moda de edições de clássicos. A moda é estranha à crítica pelo menos por prescindir de argumentação conceptual, o que no caso dos clássicos é tanto mais infeliz quanto eles a exigem, caso contrário tornam-se ininteligíveis. E, assim, não espantou ver Pacheco Pereira a falar da Ilíada e da Odisseia como «boa Imprensa» para a guerra (do Iraque)… A moda, no caso dos clássicos da Literatura, é agenciada por Cotovia, Relógio d’Água, Assírio&Alvim e poucos mais. Edições boas, sobretudo no aspecto, bem disponibilizadas aos jornalistas, sem complicações de aparatos críticos (claro!) e com publicitação explícita e encapotada em barda. Entretanto, casas como a Imprensa Nacional ou a Gulbenkian (e mesmo a Vega, quando editou a Política de Aristóteles) publicam com regularidade edições de clássicos muito mais rigorosas e completas, suprindo buracos negros da nossa cultura (as Obras Completas de Aristóteles não são apenas de interesse filosófico ou, sequer, científico) e são ignoradas. Não trabalham para criar e explorar a moda, trabalham (demasiado discretamente, pelo menos para jornalistas preguiçosos que vivem das modas) em função de um ideia de cultura que podemos classificar de clássica ou de moderna (nenhum paradoxo nisto) mas em caso algum de moda.
Para dar um exemplo menos distante: há um par de anos foi publicada uma edição luxuosa de A Poesia da ‘Presença’, antologia de Adolfo Casais Monteiro. Quem quiser que compare a recepção que teve com a que tem a edição das Obras Completas de Casais pela Imprensa Nacional. E quem souber que veja como as coisas que se escreveram a respeito da antologia e de Casais exibem bem a ignorância de quem as escreve – natural, não havendo quem leia as obras completas. A menos que a minha proximidade da edição da INCM me torne suspeito (mas de quê? De saber ler?), só não vê quem não quer que é de moda e não de crítica que se trata aqui, tal como no caso dos clássicos, tal como em quase tudo.
O assunto não me é estranho nem indiferente, quanto mais não seja por eu ter sido o autor do único estudo sintético que conheço sobre a crítica, «discurso crítico», moderno e sua existência em Portugal (Portugal Extemporâneo, 2 vols., INCM, 2005). Como já previa, na Introdução ao volume 2, o tema não era estudado por ser conveniente não o fazer. Preferível, como escrevo também nesse volume (cpt. 21), é o registo «Inês é morta!», fatal e vácuo mesmo quando praticado por quem tem mais estudos, como Eduardo Lourenço. Ou, agora, por Augusto M. Seabra.
Amanhã volto ao tema.
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