ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, abril 06, 2006

 

Blogues e audiências

Na revista Sábado de hoje, José Pacheco Pereira analisa um estudo da Marktest sobre a leitura de blogues (questão também debatida por David Justino, no Quarta República) e coloca-lhe «sérias reservas» porque a recolha da amostra assentou em premissas erradas. Por exemplo, privilegiou as consultas de blogues feitas a partir de casa. Ora, qualquer bloguer sabe que os picos de audiência se verificam durante a semana e no horário de trabalho (com incidência nas horas de almoço, entre as 12h e 30m e as 14h, e no final da tarde, presumo que antes do regresso a casa). Aos sábados e aos domingos, sabe-se também, as audiências descem vertiginosamente. Logo, tudo indica que um estudo baseado num «painel de lares» será incapaz de captar e caracterizar a realidade.
Questões de métodos como estas são longamente discutidas em qualquer curso de sociologia que se preze. Durante alguns anos, na Faculdade, fui assistente da Professora Margarida Marques (hoje a maior especialista portuguesa em questões de imigração) numa cadeira de Teoria e Métodos para as Ciências Sociais. Um dos exemplos discutidos nas aulas sobre como não construir uma amostra era o seguinte: a revista Digest, na década de 1920, fez diversas sondagens para as diferentes eleições presidenciais americanas desse período. O inquérito foi feito por telefone e os nomes da amostra foram obtidos através da lista telefónica e das listas de registo automóvel. O que queria dizer que quem não tivesse telefone ou automóvel estava, à partida, excluído da amostra: apenas as classes médias e as classes altas (nessa altura, como calculam, nem todos tinham telefone em casa ou possuíam automóvel) é que foram abrangidas pelas sondagens. O método de recolha da amostra carecia, pois, de validade. Dito de outro modo, procedeu-se a extrapolações para uma população que não estava representada na amostra.
Outro exemplo referia-se a uma sondagem sobre «interesse pela política» e tinha como população-alvo os agriculturos franceses. O estudo chegou à conclusão que os agricultores franceses eram apolíticos e que pouco ou nada se interessavam por política: quando confrontados com a pergunta «A política interessa-lhe?», os agricultores, na sua maioria, respondiam «Não» ou «Nada». Simultaneamente, verificou-se que a participação eleitoral dos agricultores era altíssima. Havia, portanto, uma contradição entre os resultados da sondagem e os posteriores resultados eleitorais. Até que se percebeu que o problema residia na forma como os agricultores tinham interpretado a pergunta, que na verdade era vaga e imprecisa, o que explica o erro de interpretação. Julgavam eles que «interessar-se por política» significava «aderir a um partido», ideia que era veementemente rejeitada pelos agricultores franceses.
Pormenores como estes fazem toda a diferença e exigem dos técnicos uma atenção rigorosa de forma a assegurar a fidedignidade e a validade das medidas. Foi isso, aparentemente, que faltou ao estudo da Marktest. E, a ser assim, continuarei a guiar-me pelo «velho» site meter.



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?