ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

 

Palavras finais


De toda esta confusão registo o seguinte:

a) José Mário Silva disse que ele é um alvo errado mas que, genericamente, a situação que eu referi é prática frequente nos jornais e nas revistas. Mas ele, José Mário Silva, que pelos vistos conhece casos concretos, não se quer colocar na posição de os criticar.

b) Tenham importância ou não, sejam muito ou pouco lidas, sejam bem ou mal feitas, as páginas de cultura na imprensa exercem um poder. Se um livro não é reconhecido, comentado e integrado (repetido esta última palavra: integrado) numa comunidade, esse livro é esquecido. Não existe. Daí que a função do crítico ou do jornalista cultural seja decisiva: fazer entrar um livro no mundo social, ceder-lhe passagem. Ao escrever sobre ele, um crítico está a dar-lhe vida, mesmo que o faça de forma rebuscada e retórica.

c) José Mário Silva defende que o conteúdo do seu texto sobre o livro do Nuno Costa Santos não é um elogio. Em primeiro lugar, dizer que estamos perante «quase poemas», perante um «quase poeta», «capaz de versos completos» é não dizer nada. Em segundo lugar, «um lirismo por vezes ingénuo»: na minha opinião de leitor de poesia, a ingenuidade pode ser uma grande qualidade num poeta. E havia que clarificar o que se entende por ingenuidade, coisa que JMS não faz: o termo tanto pode significar «inexperiência» como «bondade», «franqueza», «inocência», «inteireza» ou «sinceridade». Finalmente, «escrita arriscada e desigual, no fio da navalha» é, de novo, muito vago. Porque escrever no fio da navalha, arriscando e expondo-se naquilo que se diz parecem-me atributos de alguns grandes escritores.

d) Se o livro de Nuno Costa Santos não merecia mais, se não é um livro maior que o autor, ou seja, se não é uma obra de arte fora de série e que está muito para além de todas as considerações fúteis ligadas a «favores» e a «gentilezas corporativas», como justificar, então, que uma autora como Eduarda Dionísio tenha sido remetida, na mesma página, para um canto tão exíguo? A Eduarda Dionísio não é uma «quase escritora», capaz de «quase livros». É uma mulher com obra importante publicada no domíno do romance e do ensaio, em particular sobre as questões da cultura portuguesa. Muito devo aos livros de Eduarda Dionísio, sugeriram-me caminhos quando estava a fazer o mestrado. Repare-se: a Eduarda Dionísio tem sido uma autora praticamente ignorada pelas páginas da imprensa. O mesmo se aplica à nota brevíssima sobre a tradução de Moby Dick, feita por Alfredo Margarido (juntamente com outro tradutor que não sei agora identificar). Alfredo Margarido, também ele esquecido e ignorado pelas páginas culturais, é um autor de primeira ordem de grandeza e que, pelo que tem produzido (uma olhadela à bibliografia, extensa, de Alfredo Margarido deixa qualquer pessoa em sentido), merece muito mais do que uma mera chamada de atenção. Além disso, traduções de Moby Dick não as há assim tantas e com a qualidade desta (lembro a tradução, miserável, incluída numa colecção de livros do jornal Público). Pergunto: que critérios justificam que um «quase poeta», capaz de «quase poemas», mereça uma relevância muito superior a Eduarda Dionísio ou a Alfredo Margarido?

e) A maior parte das pessoas defende - porque o país é pequeno - que um jornalista de cultura pode escrever sobre um amigo íntimo que é, simultaneamente, colega de trabalho sem prejuízo da imparcialidade e do nível de exigência crítica. É um caminho que nos separa.



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