ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sábado, fevereiro 04, 2006

 

O Correio da Lena

João Pedro:


Já me tinham avisado sobre o seu país. O José Rodrigues dos Santos é que põe o historiador Noronha a mamar-me o leite, mas eu é que sou a debochada. Já anda para aí um pé-de-vento. Porque a malta do blog é toda muita moderna, mas basta andar carvalhada pelo ar para se corarem faces de efebos e púdicas que só gostam de eufemismo nos lábios. Adiante.
Fechemos então a polémica do momento. Não tendo preparação intelectual para meter demasiado a colher (reservo o gesto para outros Carnavais), fico-me pela experiência do swing de casais, que contém duas palavrinhas-base que muito serviriam à massa crítica do regime: mistério e desconhecimento. Não sei se se lembra: aqui há uns tempos uns bacanos armaram uma cilada a meio mundo literato. Mandaram para prestigiadas editoras textos do VS Naipaul e outro monstro sagrado cujo nome me escapa. Só que a prosa não ia assinada com as doutas letras. Anunciavam-se como caloiros à procura de oportunidade. Resultado? Ó mil vezes foda-se! As editoras recusaram, assegurando que os livros não valiam um chavo. Quando a farsa se deslindou, encaralhamento total. Pois. É exemplo para emoldurar e enfiar na parede, ao lado do poster assinado do Bergman ou da mamalhuda suja de óleo a afagar o mecânico. Conforme os casos.
É o maior pesadelo do crítico. Ter de REALMENTE avaliar um texto, sem referências prévias, sem informação, às escuras. O caralho, portanto. E assim aterramos no swing, desde que seja coisa séria, à Kubrick do Eyes Wide Shut. A malta entra, fica em pelota e depois recebe umas capas pretas e umas máscaras. Todas absolutamente iguais. Depois anda por ali, em corredores esconsos que desaguam em salões grandes, de lustre no tecto e veludo no sofá, onde se geme e grita e gane, e onde um já intenso travo a alho e cebola nos confirma: aqui não se brinca. Coloca-se então o dilema. Quem é quem. E se um gajo com quem até antipatizo, por me rosnar, malcriado, no elevador do prédio, me dá um fodão de três em pipa? E pensar que se eu soubesse que era ele quem lá vinha, me teria afastado. E aquele em quem deposito tantas esperanças, um moreno dengoso com quem me rocei no yoga, me afasta a capa com mão trapalhona e, em vez de me levar à loucura com minete de arromba, fica para ali especado, hesitante (Mordo? Beijo? Lambo? Mordo? Beijo? Lambo?). Soubesse eu adivinhá-lo no meio da maralha contorcida e teria corrido para o seu tronco de ébano. Já viu, João? Os riscos que correria essa gente se não tem mais que o juízo do momento... Meu Deus, que riscos. E, no entanto, eis-nos perante a única verdadeira democracia, o único crivo fiável dessa cabra a que chamam objectividade, prima dessa virginal seriedade que todo, mas todo o crítico, quando interrogado, garante possuir desde a noite dos tempos.
Não me lixem (repare que não digo “não me fodam”). É espantoso ver a conta em que se tem a maioria dos escrevinhadores de juízo final, incapazes de admitirem que estão encharcados em informação, pré-informação, impressões meramente visuais (Mas este gajo tem patilhas? Onde é que já se viu um escritor de patilhas? Espera lá que já te fodo…). E ainda relatos que lhes chegaram aos ouvidos, suspeitas de que fulano é amigo de sicrano, mais a editora onde publicam, mais o nome que já têm ou não têm na praça (Foda-se, este gajo é um consagrado, deixa-me cá lamber-lhe o cu….Foda-se, que já não há cu para este que tem a mania que é intocável, agora é que vais levar nas orelhas, dinossauro de merda).
Queria vê-los, João Pedro. Queria vê-los pelos salões, às aranhas. É preciso tomates para fechar os olhos e abrir as pernas. Não interessa quem és ou de onde vens. Se sabes realmente montar, hás-de fazer-me um mar de corrimento.
Exercício para crítica: livrinhos sem capa e assinatura. Olari.
Ai o livro era seu, sr. Naipaul? Eu vi logo. Só disse que era uma merda porque estava a reinar consigo.

Sua, Lena



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?