ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

 

Fernando Venâncio: «Cantavas? Pois dança agora!» (parte I)

Leiam isto de mestre Venâncio e depois vão ao Aspirina B, ao texto intitulado «Aviso (amigo) para Virginal George» (31/01). A lata destes tipos tem intuitos impenetráveis.

1.
«Muito se salvaria se, uma vez por outra, arranjássemos uns nomes. Veja-se este caso. O crítico Manuel Frias Martins faz, numa Colóquio/Letras de 1991, a recensão dum livro de Maria de Fátima Marinho. É uma recensão arguta, onde é lamentado que a autora não vá ao fundo das suas intuições. Segundo Frias Martins, ela sucumbiu "ao peso das lamentáveis circunstâncias sociais que rodeiam actualmente o trabalho intelectual em Portugal". Isto, que já é críptico, não é ainda tudo. Sugere-se que, se Fátima Marinho se controlou, foi por assim se julgar "livre dos mimos com que a ignorância de trapaceiros diversos costuma brindar os ensaios críticos". Ora bem, a graça estava exactamente em dizer quem eles são. (...)» («O rumor público», pp. 21-25)

2.
«Sejamos claros desde já. O mundo da nossa crítica literária é grandemente como tu, há um mês, aqui o descreveste. Não devia haver, pois, razão de festas. Mas tu pensas que sim, que a há. A tua visão da actividade crítica é, tiradas umas tantas chatices, pacífica, harmoniosa, e quase se acreditaria podermos entrar por ela no melhor dos mundos. Lamento ter de trazer-te hoje alguma desilusão.
Esta discussão que vimos tendo (digo-o para algum leitor que só agora tenha ligado) nasceu de uma perplexidade minha, decerto ingénua, mas que não podia iludir. Achei eu que, quando se esperava ver críticas ou queixas acompanharem-se dos nomes dos prevaricadores, era quando mais se os silenciava. Estes casos, deveras frequentes, só podiam fundar-se numa de duas coisas: ou um pressuposto snob (do género: "as pessoas que interessa sabem de quem se trata") ou o receio de ver-se excluído de um qualquer fraternal grémio. (...)
As coisas são, portanto, mais graves do que eu supunha. Os nossos ensaístas literários andam com bem fundamentados receios. E isso por causa não só (como eu julgava) dos "trapaceiros" que nos jornais fazem crítica do ensaísmo, mas igualmente dos "trapaceiros" que nas universidades decidem do futuro profissional dos indivíduos. (...) Se já havia razão para serem citados nomes, isso agora tornava-se imperioso. (...)
O que estranhei foi isto: que, sendo a tua linguagem violenta (...) cuides, ainda assim, de manter-te invulnerável. Escreves, primeiro, com arrojo (...). Mas logo recuas. (...)
Dos bonzos universitários parece-me, a julgar pelo que contas, não dever esperar-se salvação apreciável. Não são, em geral, más pessoas, mas o poder estraga muito. Vai um só passo da guarda da ortodoxia ao exercício da prepotência, e esse exercício ter-se-á institucionalizado mais vezes que o recomendável. Percebo finalmente porque é que a juvenil crítica universitária, ao transbordar nos jornais, mantém, ainda aí, mil cuidados para não perturbar os consensos. (...)
Não, a salvação estaria num portentoso, num vasto e colectivo Não serviremos. Nenhum académico permitiria, a partir de hoje, que o seu trabalho, ou o de um colega, se dobrasse a pressões que não fossem as da liberdade intelectual.» ("Bichos à Solta", resposta a Manuel Frias Martins, pp. 37-42)

3.
«As coisas estão longe de ser simples. Se Álvaro Guerra fornece pistas cómodas, João de Melo torna um tanto mais aturadas as buscas. Guerra cita, mas não identifica, uma recensão a um livro seu. O seu veículo tinha sido o Expresso, Fátima Maldonado a crítica. Ora, das duas uma: ou Guerra supõe este semanário um entretenimento universal, ou aqui faltou alguma frontalidade. Melo facilita ainda menos, mas leitores atentos, e lidos em suplementos hebdomadários, dirão: é o mesmo lobby. Pura leviandade. João de Melo, é certo, acabava de ser contundido no reputado semanário, mas a capacidade de reacção do JL também não é infinita. Coincidência, portanto. Não, conclamam os entendidos, exactamente, não é coincidência. As coisas estão, pois, piores do que se julgava.
Houve um momento, há uns tempos, em que cri compreender tudo. O Independente dedicava o melhor das suas folhas à relação circunstanciada das "capelinhas" da cultura. Li avidamente. Havia ligações insuspeitadas, exclusões sintomáticas, agentes duplos. Deitei-me ao trabalho: desenhei gráficos, tracei genealogias, e acabei compondo o organigrama do país cultural. Foi curto o meu sossego. Quinze dias à justa, e Miguel Esteves Cardoso dava o dito por não dito e prometia ser essa a última gaffe do seu jornal. Enternecidos, os cavernosos centros de opinião curvaram as espaldas e reentraram no negrume.
Mas o caso do Expresso é outro: tornou-se geral a fama sectária da sua redacção literária. Será ela, também, merecida? Lavrará fogo onde tanto asseveram ver fumo? Talvez. Mas, então, muito bem enganaram eles todos até hoje, da luminosa Inês à denodada Clara, do severo Guerreiro à perspícua Fátima, ao sólido Honório, ao virtuoso Belard, que guardo para o fim por ser o único meu conhecido. Nunca calhou falarmos em conspirações. Mais perdi.
Mas os grupos de pressão existem e andam activos. Sou do tempo em que se fazia de Carlos de Oliveira o maior romancista vivo (foi sem dúvida um romancista capaz) e para poeta máximo se elegia José Gomes Ferreira (um poeta com interesse, o que não é pouco). Foi sempre missão dos bastidores promover e despromover indivíduos para lá do bom senso. Assim, fala-se hoje de Cesariny, ou de Herberto, como do novo maior poeta vivo (e os dois são, por fulgurações, poetas assinaláveis), enquanto de todo se ignora um, digamos, Joaquim Pessoa, poeta com qualidades, em nada inferior a uma mão-cheia de vates sigilosos, jovens e monótonos. Trata-se de pura medida de auto-afirmação de grupos. Tão precária sentem estes a sua subsistência, que admitem apenas dois modos de relacionamento: a canonização e a excomunhão. Os lobbies são associações de fracos.
Por isso é tão desconfortável ouvir alguém queixar-se deles, sobretudo quando o faz a medo e em código. Foi o que fez Álvaro Guerra (...). Com tais mãos de veludo, apenas se consegue que os clãs, nas suas espeluncas, passem a beber também à nossa saúde. Sobretudo seja claro. (...) ou uma pessoa diz preto-no-branco os nomes todos, ou fará bem em ver se o intempestivo crítico não tinha algumas razões. (...)
Porque o problema é esse. Boa parte dos nossos ficcionistas dorme, há dezena e meia de anos, numa cama de equívocos. A culpa só em parte é deles, evidentemente. Eles fazem o que podem, não é preguiça o seu mal. Maior culpa assiste a quem alimentou neles tão longas ilusões ou lhes permitiu que as acalentassem. Os críticos de mão mais segura - Óscar Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa, David Mourão-Ferreira - foram incansáveis no estudo de meritórios autores, e nisso fizeram obra que não irá ser fácil igualar. Mas deixaram à geração seguinte a amável ocupação de denunciar os atropelos. Mantiveram as mãos limpas, o que lhes favorece a aura, e permitiram, por omissão, que se desenvolvesse uma literatura intratável, a atravancar um já exíguo espaço. (...)» («Lobbies e Moralidade», pp. 135-140).

A VOSSA ATENÇÃO, EM PARTICULAR, PARA ESTE ÚLTIMO EXCERTO

4.
«Não porque a traficância seja estranha nele [Eduardo Prado Coelho], mas porque nos habituámos a vê-lo traficar com outro brilho. (...)
Numa mesa-redonda em que recentemente interveio, Eduardo Prado Coelho informou quantos o ouviam de que se havia dedicado à crítica literária (e outras, supõe-se) "pour faire des amis". E de que, a voltar a fazê-la, seria exactamente "pour faire des nouveaux amis". A crítica, explicou ele, inscreve-se no terreno da "complicité". Nesse exacto momento, os dois críticos literários estrangeiros que o ladeavam entreolharam-se, incrédulos. Para nós, a novidade não era grande.
De modo que é assim. Enquanto este leviano e irresponsável crítico adeja por cúmplices salões, ficam para os verdadeiros críticos as tarefas ingratas, aquelas onde as mãos se sujam, onde a solidão, a dúvida e o desalento irão servir de único prémio. Indiferentes a fazerem ou não amigos, esses críticos ponderam da qualidade de autores já conhecidos, e vão farejá-la onde ela possa esconder-se ainda. Fazem decerto amigos, mas os inimigos nunca serão menos. (...) Mas eles sabem que a crítica não é para cumplicidades, e sim para viseira aberta. Alérgicos à crítica fofa e açucarada, estão prontos a dizer duas ou três verdades duras. (...)
Enquanto isso, o poder literário está firme nas mãos dos que andam pela vida "fazendo amigos". Mundo cão, este? Nem por isso. O poder, os autênticos críticos não o querem. Francamente, não saberiam que fazer com ele. Seria sempre uma perda de tempo, já bastando as noitadas, e a atenção a dar aos amigos, que eles preferem ir fazendo de modos mais naturais. Desejos, eles têm este: o dum mínimo de respeito por uma actividade espinhosa. (...)
(...) nós seremos sempre imprevisíveis, e sobretudo muito difíceis de contentar.» ("A Provação dos Novos", pp. 187-190)

Excertos do livro de Fernando Venâncio, Maquinações e Bons Sentimentos, Porto, Campo das Letras, 2002.



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