ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

domingo, janeiro 29, 2006

 

Continuação

A crítica literária (jornalística) e os princípios elementares que a devem nortear. É esta a questão. Tudo o resto é poeira lançada para os olhos. A crítica assenta em gostos e em valores muitos deles pessoais e subjectivos, mas deve também proceder em função de regras e de métodos. A crítica como a entendo e como a aprendi deve ser intelectualmente honesta e basear-se numa objectividade mínima, a possível, a que conseguimos, apesar de tudo, controlar: não escrever sobre livros de amigos no mesmo local onde uns e outros trabalham. É esta uma regra tão básica que sobre ela nem sequer deveria ser necessário falar. O contrário perverte tudo, perverte a essência do acto crítico no espaço público. Todos sabemos que o meio é pequeno e as pessoas se conhecem todas. Tal não impede, ainda assim, o respeito por essa regra. Quando se escreve sobre um amigo, por muito que se negue a pés juntos, há sempre algo que fica em dívida. Ou a suspeita disso, pelo menos. Como se costuma dizer sobre a mulher de César, à crítica não basta ser séria, é preciso também que o pareça.
Tivesse eu poder para decidir os livros que seriam criticados e jamais me colocaria na posição de escrever sobre o livro de um amigo e, principalmente, de um colega. Tal como se eu fosse objecto de uma crítica feita por um amigo tudo faria para disso o demover. Para essas coisas, felizmente, existem os blogues, muito mais pessoais, onde ninguém está a ocupar um bem que é reduzido e onde não se está a ganhar dinheiro, a ser pago para cumprir as normas da profissão. Na imprensa, julgo, o espaço que é concedido a autores, livros e editoras deve, tanto quanto possível, remeter para o mérito, ou seja, o crítico pegou naquele livro por todas as razões menos porque conhece o autor ou dele é amigo e colega. Na imprensa o espaço é, de facto, escasso. Principalmente se pensarmos na quantidade de livros que nos dias de hoje todos os meses são publicados. Escrever num jornal não é apenas um direito, um troféu para exibir. Implica deveres para com quem gasta dinheiro na compra do jornal. Deveres de um mínimo de decência, não andar para ali a enganá-lo gritando-lhe livros que deve comprar e ler por razões dúbias (a maior parte das pessoas nem sabe que aquele livro é de um amigo de quem assina a prosa e, provavelmente, não sabe que o autor do livro também escreve nesse mesmo jornal que ele tem na mão; o trabalho das toupeiras é esse, actuar na sombra, às escondidas dos leitores menos informados).
Pessoalmente, detestaria ler num jornal uma opinião sobre um livro meu escrita por aquela pessoa com quem bebo copos, vou a jantares e que até está ali mesmo em frente na secretária da redacção onde ambos trabalhamos. Isso, só de imaginar, é horripilante. Que tipo de pessoa seria eu caso fosse conivente com tal situação? Que tipo de orgulho teria pelo meu trabalho? Eu quero que o meu trabalho seja avaliado por si próprio. Só isso me ajudará no que fiz bem e no que fiz mal. Um tipo que bate palmas só porque é meu amigo não me está a ajudar. Prefiro que digam mal daquilo que faço de forma activa, ou seja, com inteligência, obrigando-me pensar, prefiro isso a que digam bem passivamente, por reflexo de amizade. Que raio de crítica é essa? Não é crítica, é apenas publicidade e divulgação. Que os editores queiram promover os seus colaboradores para dar prestígio ao próprio jornal, sim senhor, mas então reservem espaço para fazer publicidade aos seus trabalhadores, não o misturem no espaço da crítica. Não aldrabem. Sejam sérios.



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?