ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quarta-feira, maio 04, 2005

 



Também colaborou na Seara Nova...
Com dois textos, um deles chamava-se “A Lição”, quando foi da candidatura do Humberto Delgado. Mandei o artigo ao Câmara Reys, que disse: “é escusado mandar compor o texto porque a censura corta tudo”. Mas houve alguém, já não me lembro quem, que disse: “mande! Pode ser que passe”. Resultado: foi todo cortado. Nessa altura o ministro da Presidência era o Marcello Caetano e eu trabalhava na Inspecção dos Espectáculos. Só para chatear fui para casa, preparar um texto a reclamar do corte. Tinha que se fazer um requerimento em papel selado, o máximo eram 4 páginas. Citava textos do Marcello, do Torcato de Sousa Soares (professor de Direito em Coimbra), do Herculano e do Oliveira Martins. Na minha exposição defendia que, como autor do artigo, o meu ponto de vista era igual ao dos citados. Demorei semanas a fazer a exposição, fui à Biblioteca... Entreguei ou enviei para a Presidência do Conselho, já não sei. E aguardei. Daí a tempos escreveram para a Seara Nova a permitir a publicação. Veio a aceitação mas ainda demorou. Já era um artigo cauteloso. Mas saindo na Seara Nova (que ficava na rua da Rosa, nº 23, onde nasceu o Camilo Castelo Branco), já depois das eleições, tinha menos força, era mais inócuo, menos agressivo. O que o Marcello gostou foi que o tivesse citado a ele. A intenção do artigo era mostrar que a censura não era tão cega quanto isso. O Câmara Reys é que ficou com uma grande cachola. O Câmara Reys foi meu professor no liceu Camões. Era um gajo espantoso... e um grande mineteiro. Dava aulas de literatura espantosas.

O seu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?
Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

[Batem à porta do quarto, entra um homem]

Visita: “Boa tarde”
Pacheco: “Quem é?”
Visita: “Pacheco?”
Pacheco: “Quem fala?”
Visita: “Aqui é o Armindo”
Pacheco: “É o…?”
Visita: “O Armindo”
Pacheco: “Quem é o Armindo?”
Armindo: “Já não te lembras de mim, pá?”
Pacheco: “O Armindo?”
Armindo: “Estivémos preso no Limoeiro”
Pacheco: “Eu sei lá quem é o Armindo, pá…”
Armindo: “Como é que não sabes…? já não te lembras…?”
Pacheco: “Não, filho, não estive preso contigo, nem com a tua avó...”
Armindo: “Também, com esta escuridão… [no quarto do Pacheco]… eu era um miúdo”
Pacheco: “Olha, vai dar uma volta…”
Armindo: “Vou…?”
Pacheco: “Vai dar uma volta e vem cá amanhã… que estamos a gravar… tu está a ficar aqui gravado, podes ser preso outra vez…”
Armindo: “Está bem pronto, O.K. Agora que estive a dizer que estive preso e tudo… isso é uma reportagem?”
Pacheco: “É, é… é uma reportagem… mas não é da televisão…”
Armindo: “É da TSF?”
Pacheco: “Vem cá amanhã filho e não sejas preso hoje,
Armindo: “Não, eu aliás já me deixei disso”
Pacheco: “Aguenta-te cá fora, vem cá amanhã, mais cedo, que a esta hora já estou a dormir, se não fosse este maluco já estava a dormir…
Armindo: “Como me disseram-me que andavas aqui nas tascas, aqui de roda, de vez em quando…”
Pacheco: “Vai dar uma volta…”
Armindo: “Tchau, adeus… isso fica para a reportagem?
Pacheco: “Fica…”

Pacheco para o entrevistador: “Não sei quem é, nem tenho óculos… Sei lá quem é esse gajo… Quem será este cabrão, nem vi a cara dele… Armindo? Puta que o pariu. Se ele esteve no Limoeiro deve ser um grande fodido, ainda me rouba… Eu estive no Limoeiro com milhares de gajos, porra, olha o que faltava agora era aparecer-me aqui a tropa toda, milhares de gajos... eu estive lá 3 vezes, imagina o que não era… o director do Limoeiro, um gajo chamado Castelo Branco, quando eu estive lá da terceira vez ele era o director, era muito novo, muito inexperiente, depois ficou pior... este jornal, o 24h, anda a publicar umas coisas sobre o terrorismo de direita, de esquerda, agora é sobre os FP’s 25 de Abril... ora este gajo morava na Lapa, mesmo ao pé de onde eu morava, mesmo ao fim da Rua Buenos Aires… e acho que já tinha prendido muita gente das FP e ele deu ordem para haver um rigor especial nas prisões… os presos condenaram-no à morte… o gajo tinha dois seguranças mas um dia estava em casa, mandou os seguranças embora, estava à espera de uns amigos para jantar, como os amigos gostavam de um determinado queijo, o estúpido foi à rua comprar o queijo para os amigos, estavam dois gajos na rua a vigiar, deram-lhe um tiro na cabeça e despacharam-no… ficou como o queijo, todo furado de chumbo...”

Como é que era no Limoeiro?
O Limoeiro era uma prisão de passagem, para quem estava à espera de julgamento, não era para os que estavam a cumprir pena. Isso era em Monsanto e assim... Lá dentro havia estratos sociais, a Sala dos Menores, a Sala dos Bacanos, os que tinham conhecimentos fora da prisão... como eu... da segunda vez que lá estive o Artur Ramos telefonou ao pai, que era Director-Geral da Penitenciária... e depois havia a Sala Comum, para onde iam todos... ah, e a Sala dos Primários, para aqueles que lá estavam pela primeira vez... De repente havia confusão... jogos a dinheiro... havia um fiscal, que era um preso nomeado... dava prestígio mas também era perigoso... tinha de ser um tipo forte. Dava prestígio e dinheiro, porque tinha um negócio de laranjadas, sandes, etc. Depois havia a oficina, alguns presos trabalhavam lá, uma enfermaria... tinha lá um enfermeiro perigosíssimo, vendia penicilina misturada com água, em frascos de vidro... deve ter morto alguns... o refeitório, com mesas corridas, aí umas 10, havia o chefe de mesa, que eram quem distribuía a comida, conforme as amizades e os acordos... Havia muita discussão por causa da comida...



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?