ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quarta-feira, maio 04, 2005

 



O que é, para si, um libertino?
As pessoas não percebem nada do que é o libertino. O termo ficou, na linguagem vulgar, associado a coisas disparatadas, como sinónimo de devassidão. Ora libertino não é apenas um devasso. Não é apenas aquele tipo que gosta de ir para a cama com homens, com mulheres, com todos ao mesmo tempo... O libertino é um tipo livre, que está contra todas as tiranias. O Sade, por exemplo... aquilo que o Sade conta está quase tudo dentro da imaginação dele... Repara: o gajo esteve quarenta e tal anos prisioneiro em masmorras e hospícios, e à ordem de quatro regimes: a realeza absoluta, a realeza constitucional, a Revolução e o Império, o que mostra bem como o libertino é o maior inimigo de todos os sistemas e como estes o odeiam, o temem. Porque os sistemas são a ordem e o conforto, ao passo que o libertino é a aventura, é o descontrolo. O Sade está aí. O Sade está entre nós. Mais: o Sade está em todos, dentro de nós. Mas o libertino também é o ateu radical. É aquele que faz da sua vida amorosa um espectáculo, um espectáculo através das palavras, do discurso. Conheci muita gente devassa, mas libertinos muito poucos. Agora, aquela coisa da crueldade como fonte de prazer sexual aí já tenho as minhas resistências, já tenho as minhas repugnâncias. Pessoalmente, do ponto de vista do comportamento sexual, prefiro o Valmont, das Ligações Perigosas, do Laclos. Ou seja, o Sade é exemplar mas não é um bom exemplo.

A casa em Massamá, para onde foi viver em Setembro de 1970, era conhecida na vizinhança como uma casa de má fama...
A casa em Massamá era um disparate... às vezes era uma balbúrdia do caneco... a tal política de porta aberta em Portugal não dá… em Portugal não dá… quer dizer, não dá, os negros, por exemplo, têm isso, em casa moram 4, de repente vêm mais 5, ficam, ajeitam-se, vêm mais 10, ajeitam-se... são muito solidários e não se importam de ficar a dormir no meio do chão… em Massamá era assim, dormiam no meio do chão, de qualquer maneira... A gente não tem a vida na mão, de repente, depois de mortos, não precisamos de nada. Nem dinheiro, nem vestes, nem nada... Agora, às vezes o Chico Bretz avisava: “olhem que o Pacheco é mau de assoar”. Porque de repente eu não lhes abria a porta ou punha-os na rua… Se me chateavam era limpinho, bom, adiante…

Foi quando morava em Massamá que saíram os Exercícios de Estilo, um dos seus livros mais importantes...
Saiu agora, há uns anos [1998], a 3ª edição dos Exercícios. A capa é horrorosa, o gajo arranjou um postal com o lago das Caldas... esta capa é uma capa para os supermercados... as outras não tinham o mesmo impacto desta. Esta edição nem revi. É uma edição póstuma. Mas tem uma vantagem em relação à 1ª edição, que é ter separado estes textos... [aponta para o índice]. O primeiro texto era “O Homem que Calculava”, que era um gajo que não quer empregos e não sei que mais... ora se é um gajo que não quer empregos acaba a pedir esmola e, por isso, a primeira parte acaba com “peço uma esmola”, de “O que é o Neo-Abjeccionismo”. Isto é que eram os exercícios de estilos. Eles acharam pouco e eu então arranjei 4 fragmentos mesmo assim, como estavam, que são textos que não estão acabados... Esta 3ª edição leva depois aqui para o fim com a tralha toda que eu consegui juntar, “Um conto por um conto”, “O Veado”… esses vinham nos Textos de Guerrilha

[Bate à porta um velho para informar que o almoço é empadão]

Pacheco: “Este gajo irrita-me. Quando estou a dormir na cadeira ele grita: BOM DIA. Ele não diz bom dia, ele atira o bom dia como quem atira uma pedra.



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