ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sexta-feira, abril 22, 2005

 

Reportagem da Feira da Ladra





Romper da manhã, Feira da Ladra. Na última terça-feira fui à feira vender tralha, coisas do arco da velha que tinha para aqui a ocupar espaço e que não interessam nem ao menino Jesus, livralhada, presentes para esquecer que me foram oferecidos no Natal, enfim, bugigangas. Montei escritório junto ao gradeamento do jardim de Santa Clara, mesmo em frente à esplanada do café Panteão e ao Tribunal Militar. Instalei-me ao lado do João Vinagre, um dos vendedores mais batidos da Feira e, simultaneamente, empreiteiro da construção civil. Tratei de puxar conversa, o que não foi muito difícil. Ainda não tinha acabado a primeira frase e já ele tinha desatado a falar. Levantou-se pouco depois da cadeira, branca e de plástico como as das esplanadas, dirigiu-se à carrinha estacionada em frente, enfiou a mão no bolso de dentro do casaco e deu-me um cartão. Quando não está na feira remodela apartamentos, repara telhados, afaga soalhos, aplica flutuantes, faz envernizamentos, tectos falsos, estuques, pinturas, vidros duplos, divisórias, resguardos para banheiras e polibans, conserta estores, marquises, etc. Faz orçamentos grátis e pode-se pagar em prestações. É possível que já tenham ouvido falar dele: o Vinagre é um daqueles jeitosos que invade as nossas caixas de correio com papéis de publicidade. E é também uma das pessoas mais conhecidas da Feira da Ladra. Aliás, o Vinagre é a própria Feira da Ladra. Se eu fosse o José Gil ou o Eduardo Lourenço, diria que a Feira da Ladra é o nosso país em ponto pequeno, é um Portugal em miniatura. Está lá a Igreja, o exército, o tribunal, o hospital, a Casa Pia e, claro, a quinquilharia típica das casas portuguesas.
Se forem à Feira perguntem pelo Vinagre ou, então, pelo “otário da Feira da Ladra”. Assim mesmo, palavra de honra. O próprio Vinagre já não liga ao insulto, já não se importa, já tanto lhe faz. A história tem muito anos, remonta aos primórdios da década de 80. Ouçamo-lo, de cigarro entalado entre dois dedos: “nas obras, às vezes, apanham-se coisas que uma pessoa nem sabe o que é que tem nas mãos. Por exemplo, o lixo deixado para trás pelos antigos donos das casas que estou a remodelar. É aí que vou buscar muita coisa que depois vendo na feira: papéis velhos, brinquedos partidos, bibelôs, ferramentas e objectos de cozinha enferrujados, etc. Numa dessas casas encontrei, entre outras coisas, não sei bem se era o canhoto de um cheque, se uma cédula, uma apólice, sei lá, não quero saber e, se querem saber, tenho raiva de quem sabe, bom, era uma espécie de papel moeda que circulava na Índia. Sei é que vendi o papel por cem paus, julgando eu que estava a fazer um dinheirão. Mais tarde, num leilão, o gajo vendeu aquilo por 17 mil contos. A história até veio no jornal, na primeira página, em letras grandes: «Otário da Feira da Ladra». A partir daí nunca mais tive sossego. No princípio ainda respondia, chateava-me, chegava a vias de facto, agora não. Já tenho feito bons negócios, nada que se pareça, lá está, com os 17 mil contos do outro, mas têm compensado um pouco, como o disco de vinil dos Beatles, aquele disco todo branco [o White Album], tinha era um número de prensagem baixo, vendi-o aqui vai para dois anos. Sabem por quanto? Quinze mil euros... três mil contos, na moeda antiga. E singles? Dos Queen, por exemplo, já tenho vendido por 400 e 500 contos. Há vinis a render muito dinheiro, muitos milhares de contos. O vinil é do que se procura mais na Feira. De resto, na Feira, agora só se encontra é lixo, só se vende é lixo, não há nada que preste [teve um estremecimento de cólera, beliscou a asa do nariz e alargou o olhar pelo Largo do Mercado de Santa Clara]. Sabes onde é que ainda encontras coisas boas, coisas de valor?, em Algés, aos domingos. Hoje em dia o que é bom vende-se em Algés. Em Algés encontras as mesmas pessoas que na Feira da Ladra só que mais bem vestidas. Isto aqui é só fachada. Estão lá os mesmos gajos mas com outra personalidade. Eu só queria era que a Câmara Municipal voltasse outra vez a subsidiar obras, recuperações de prédios antigos, com o RECRIA. Há aí muito velhote a morrer e os herdeiros, quando não são conhecedores do que é bom, deixam muita coisa de valor pelo caminho. Eu às vezes deito os bancos do carro e ando aos contentores das obras, nas madrugadas de terça e de sábado. O problema é que a Câmara agora parou com o RECRIA. Sabes quem é que também tem a culpa? As lojas dos 300 e as lojas dos chineses...”
Enquanto o Vinagre continuava o monólogo, entrecortado pelo som do rádio, sintonizado na Seixal FM, eu ia olhando e inspeccionando o que ele tinha para vender. Livros vários, uns mais conhecidos, outros de que nunca ouvi falar, obras com títulos exóticos e anacrónicos, com as páginas amareladas, casca de ovo, cheirando a um pó muito velho: O Astro, de Janet Clair, o romance que serviu de base à telenovela com o mesmo nome; Ela quis viver os seus sonhos, de Luciana Peverelli; Os filhos da droga, da Christiane F. (13 anos, drogada, prostituta...); Bastardos ao Sol, do Urbano Tavares Rodrigues. Coisas tão bizarras como os Acórdãos do Tribunal da Relação de Luanda ou o Projecto de Convenção destinada a evitar as duplas tributações (edição dos cadernos de ciência e técnica fiscal). Isto para não falar do boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, do dicionário de Inglês Comercial ou dos imprescindíveis Aspectos da Produtividade na Videira e Botânica Criptogâmica. Na verdade, se quisermos perceber os hábitos de leitura dos portugueses na década de 70 e de 80, se quisermos conhecer os livros que formaram gerações de portugueses, portugueses que viveram a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a Guerra Fria, conhecer profundamente os portugueses que hoje mandam no país, basta percorrer a Feira da Ladra. Académicos, especialistas em Antropologia, em História, em Sociologia, investigadores das Ciências Sociais, das Ciências Humanas, abandonem os gabinetes, renunciem ao conforto dos centros de investigação, larguem os livros, desamparem as bibliotecas, vão à Feira da Ladra. Está lá tudo. Os livros do Pitigrilli, do Eric Ambler, do Evan Hunter, do Edgar Wallace, os livros de guerra do Sven Hassel, os romances de Stefan Zweig e do Alexandre Dumas, os policiais de Jack Higgins e, de uma forma geral, as mais variadas edições do Círculo de Leitores ou das Selecções do Reader’s Digest. Há os clássicos do marxismo, que inundaram a década de 70, logo a seguir ao 25 de Abril: Que são as Classes e a Luta de Classes?, de A. Ermakova e V. Rátnikov, das edições Progresso, ou O Materialismo Histórico, de A. Spirkine e O. Yakhot, edição da Estúdios Cor (colecção Breviários de Cultura), isto para não referir as inesgotáveis e infatigáveis edições da Seara Nova (Porque se Revoltam os Estudantes é apenas um exemplo), as obras completas do Lénine ou a História da U. R.S. S., do camarada Louis Aragon.
Agora, como antes, os leitores portugueses sentem um grande fascínio pelos “Grandes Livros”, como O Grande Livro do Gato ou As Grandes Evasões do Passado; pelas enciclopédias, como a Enciclopédia da Vida Sexual ou O Mundo em que Vivemos; pelos fenómenos do desconhecido, como os Grandes Mistérios, A Maldição dos Faraós, O Mistério das Bermudas ainda de Pé ou Mistérios OVNI: O Que Lhe Andam a Esconder. Os leitores portugueses do que gostam mesmo é de livros com os Recordes da Natureza, livros que ensinem Como Interpretar Os Seus Sonhos ou A Linguagem do Corpo: gestos e posturas que revelam a sua personalidade. Mas como não é só de literatura que vive um homem, o João Vinagre não vende apenas livros, vende também exemplares da revista Xis, aquela distribuída aos sábados com o Público, vende postais de cinema, daqueles que qualquer bípede pode adquirir, de borla, nos cinemas do Dr. Paulo Branco, como o Monumental ou o King, vende teclados de computador, vende o word perfect para DOS, vende calculadoras, borrachas usadas, afias, bombas para encher os pneus das bicicletas, bonecos dos ovos de chocolate kinder surpresa e da PEZ, roupa em segunda mão, discos vinil, como Tonight I’m Yours, de Rod Stewart, o Hotel California, dos Eagles, ou singles dos Salada de Frutas, maçanetas, molhos de cabides a 50 cêntimos cada, carregadores e capas de telemóvel, cassetes de vídeo caseiras, com filmes gravados da TV (reparei em Cocktail, com Tom Cruise), maços de meias (sem defeito, 100% algodão), uma TV antiga, mais defunta que o Camões. “Mas trabalha com uma granda pinta e o resto é música”, disse-me o João Vinagre. Depois, limpou os lábios com as costas da mão esquerda e começou a atacar uma sandes de carne assada.



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