ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quarta-feira, março 09, 2005

 

O pequeno pais

Por muito que o negligencie, a cada vez que saio da capital torno a aprender a lição: Lisboa e o resto do País são coisas diferentes. A cidade dos guindastes e dos andaimes, dos grandes outdoors, dos edifícios novos, das distâncias que custam a fazer a pé, que nos faz sentir em dia de sorte se encontramos, à primeira, um lugar de estacionamento, não tem relação com o resto de Portugal.
Lisboa é a Europa, o sonho do progresso, o provincianismo que, dia a dia, aprende a ser cosmopolita; é o espaço suficientemente grande para albergar de tudo, do bom e do mau; para oferecer opções e esgotar-nos de cansaço num dia qualquer. Portugal não. Portugal é o pequeno país por excelência, o breve rectângulo que se perde no planisfério, o antigo, o simples, o pobre, o rural, de vilarejo, mas verdadeiro.
É claro que não poderia viver noutro lugar que não Lisboa. Onde há cinema todos os dias, a todas as horas; onde não é necessário guardar rações de combate para os feriados porque há restaurantes abertos; onde se pode beber copos nas madrugadas de domingo e comer bifes às três da manhã; onde chegam os jornais todos e se conhecem estrangeiros e vêm artistas de toda a parte e há direito de escolha; onde se pode sair e desaparecer, sem esbarrar na família ou nos colegas. Mas uma ida a Portugal, de vez em quando, lembra-nos da importância das pequenas distâncias, do ter tempo, do céu efectivamente estrelado, das lareiras, do caminhar pelas ruas, da festa de freguesia, da paisagem diante dos olhos, quando podemos admirar tudo quanto ficará muito depois das nossas vitórias e fracassos.
Lisboa é, assim, uma espécie de filho yuppie, novo-rico, desempoeirado. Só é preciso que se lembre, de vez em quando, que veio de gente humilde que ainda prepara a filha para o casamento e cancela a festa porque morreu o velho da aldeia.
Alexandre



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?