ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

 

Pesos Pluma (para ler depressa)

Soa o gongo para o início do combate. O pugilista do PS começa logo ao ataque desferindo uma potente série de socos cruzados: “o dr. Santana Lopes tentou aproveitar uma onda de boatos contra mim...” Santana, por seu turno, joga em deslocações constantes, evitando o corpo-a-corpo: “quando a verdade é verdade ela impõe-se a todos os boatos”. Sócrates lança depois um gancho em looping: “Não venha com essa desculpa, você confunde tudo...” Santana resiste com esquivas milimétricas e responde com um jab de direita: “em Abril de 1996, em período de governação do PS, Portugal atingiu os níveis máximos de desemprego”. Sócrates dobra os joelhos, vai ao tapete mas vence a contagem de protecção do árbitro. Determinado, o pugilista do PS desfere um murro no fígado, uma obra-prima do género: “Não peçam a um socialista para virar a cara para o lado quando existe pobreza em Portugal...”. Santana vai à lona e apresenta um ligeiro corte no sobrolho direito. Já recuperado, ágil como uma serpente, dirige-se ao adversário de punhos fechados e lança uma sequência de uppercuts: “as pensões mínimas vão ser equiparadas ao salário mínimo, O Estado vai poupar 150 milhões de euros, o défice vai ser controlado.” Encurralado num canto, com a vista turvada, embaciada de lágrimas, Sócrates atira uma “bomba” de esquerda que quase arruma ali a contenda: “Eu vou criar 150 mil empregos e vou aumentar os salários dos funcionários públicos...” “E eu não vou aumentar os impostos”, contra-ataca o pugilista do PPD/PSD, encurtando os espaços e desferindo uma direita rectilínea.
Um argumento demagógico pode ser tão demolidor como um gancho esquerdo de Lennox Lewis e uma falsa promessa tão arrasadora como uma direita rápida de Evander Holyfield. A verdade é que o debate não foi assim. Isso eram outros tempos. Acabaram-se os pesos pesados na política portuguesa.

O político em campanha eleitoral é, por excelência, um gritador. Como o missionário no púlpito, o político distingue-se pelo vozeirão e pelo dedo indicador a mover-se como um cutelo.

As fúrias verbais do capitão Haddock são compêndios de insultos. Deixo aqui alguns, que os líderes políticos poderão sempre utilizar: rizópodos, ectoplasmas, coleópteros, equinodermes, protozoários, colocíntidas, zigomicetes, zapotecas, ornitorrincos, macrocéfalos, anacolutos, hidrocarbonetos, vendedores de tapetes, tocadores de gaita-de-foles, escolopendras, espécie de iconoclastas míopes, fanfarrões de orquestra, saltimbancos amestrados, lagartos desmontáveis, espécie de logaritmos, astronautas de água doce, espécie de selvagens interplanetários, ratos neurasténicos, autodidactas preparados com molho tártaro...


João Pedro



<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?