ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sexta-feira, setembro 24, 2004

 

Vamos jogar a uma coisa (XIV)

Novembro 2003.
Nos meses de Julho a Agosto, em cada sábado, o «Le Monde» oferece, no número de fim-de-semana, um conto de 16 páginas aos seus leitores. No Verão de 2002, propuseram-me escrever um, sobre o tema vaguíssimo da viagem, e eu, divertindo-me muito, escrevi as páginas que acabaram de ler. Pareceu-me divertido colocar o mais respeitado dos quotidianos franceses ao serviço da minha pequena fantasia erótica. Ao escrever estas páginas, não me lembro de ter experimentado sequer o mínimo sentimento de inquietude: pareceu-me uma ideia irresistível, e sobretudo perfeitamente inocente.
Nos dias seguintes à publicação, recebi um pouco mais de mil e-mails. Quase todos os meus correspondentes me faziam as mesmas duas perguntas: se era tudo uma invenção ou existia uma mulher de facto que apanhava um comboio verdadeiro no qual fazia realmente aquilo que eu lhe pedia que fizesse? No segundo caso, e assumindo que ela havia apanhado o comboio, o que é que tinha mesmo acontecido?
Antes de mais, sim, escrevi de facto esta história para a jovem senhora com quem vivia na altura, e organizei tudo meticulosamente de modo a que ela a lesse nas condições que havia previsto. Ela não suspeitava de nada: devia juntar-se a mim em férias no Sábado, 20 de Julho; eu tinha-lhe comprado o bilhete de comboio e tinha-lhe dito ao telefone que não se esquecesse de comprar o «Le Monde» para a viagem na manhã do dia da partida. Era para mim uma delícia o pensar em estar à sua espera, ali, no cais.
Naturalmente, como sempre sucede quando se planifica uma coisa ao mais ínfimo pormenor, passei um tempo infinito a imaginar os mil e um grãos de areia que poderiam emperrar a minha máquina performativa. E, como acontece invariavelmente, não sucedeu nada aquilo que havia imaginado, sucedeu algo bem diferente.
Lamento ter de vos desiludir, mas não vos direi o quê. Não vos direi o quê porque tenho intenção de o contar um dia em pormenor, e esse dia ainda não chegou. Direi apenas que se desencadeou uma crise entre a destinatária desta história e o seu autor, que a crise nada tinha que ver com a história mas que por uma espantosa coincidência espoletou na noite anterior à sua publicação, e que se veio a concluir, meses mais tarde, com uma separação tristíssima para ambos.
(Falo de uma coincidência espantosa e é assim mesmo, deste modo racional, que me esforço por considerá-la. Mas é verdadeiramente um esforço enorme: é muito difícil, quando uma coincidência nos assombra a este ponto, não ceder à tentação do pensamento mágico. Não dizer de mim para mim que os deuses que ousei desafiar quiseram dar-me uma pequena lição: a ver se assim aprendes a brincar ao demiurgo).
Mas, em suma, no fim, não: ela, ao comboio, não chegou a apanhá-lo. Telefonou-me na véspera à noite para dizer que o não faria, que não poderia fazê-lo. Assim sendo, apanhei-o eu. Voltei a Paris e fiz eu o trajecto que deveria ser o dela. Ocupei o lugar que ela havia deixado livre, olhei para os vizinhos que teriam sido os seus, fui, até, ao bar, à hora prevista, para ver o que estava a acontecer. Para dizer a verdade, nada de especial. Um dos meus interlocutores fez-me notar, justamente, que o comboio não tinha sido bem escolhido: no Paris-La Rochelle de um sábado à tarde de Julho estão apenas famílias, inúmeras, numerosas e burguesas; toda uma outra inspiração me teria servido o Paris-Marselha de sexta-feira à noite, o ambiente teria sido decisivamente mais quente. É verdade, mas se os contos do «Le Monde» saem ao sábado, o que é que eu posso fazer?
Rui




<< Home


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Arquivo

Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004   Novembro 2004   Dezembro 2004   Janeiro 2005   Fevereiro 2005   Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Fevereiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Agosto 2006   Setembro 2006   Outubro 2006   Novembro 2006   Dezembro 2006   Janeiro 2007   Fevereiro 2007   Março 2007  

Outros Blogues

Abrupto
Alice Geirinhas
Álvaro Cunhal (Biografia)
AspirinaB
Babugem
Blasfémia (A)
Bombyx-Mori
Casmurro
Os Canhões de Navarone
Diogo Freitas da Costa
Da Literatura
Espectro (O)
Espuma dos Dias (A)
Estado Civil
Fuga para a Vitória
Garedelest
Homem-a-Dias
Estudos Sobre o Comunismo
Glória Fácil...
Memória Inventada (A)
Meu Inferno Privado
Morel, A Invenção de
Não Sei Brincar
Origem das Espécies
Portugal dos Pequeninos
Periférica
Prazeres Minúsculos
Quarta República
Rui Tavares
Saudades de Antero
Vidro Duplo











Powered by Blogger

This page is powered by Blogger. Isn't yours?