ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, setembro 09, 2004

 

Vamos jogar a uma coisa (VII)

Agora tens direito a um pouco de contacto. Segurando as folhas com a mão esquerda, apoia a mão direita sobre a anca esquerda. O antebraço, que imagino nu, repousa portanto sobre a tua barriga, à altura do umbigo. Partindo da anca, faz deslizar a mão até àquela pequena duna que se forma em todas as mulheres logo acima da saia ou das calças, acariciando com a palma da mão e os dedos a carne aqui tão macia e elástica. É tépido, doce, repousante, demoremo-nos aqui como num acampamento base. Demora-te por um momento antes de retomar a escalada em direcção às costelas e à parte inferior do soutien. A situação, nesta fase, varia ligeiramente conforme exista um segundo estrato de vestuário – uma camisa aberta sobre uma t-shirt, um casaco ligeiro – que te permita operar relativamente a coberto dos olhares dos outros ou que avances a descoberto. Em qualquer caso, podes sempre aproximar a mão que segura as folhas e com o cotovelo encobrir a outra mão, que agora apalpa decididamente o seio esquerdo. Aqui estás à vontade. Toma o tempo que quiseres, o que for necessário para fazer, no limite da decência, tudo aquilo que tinhas vontade de fazer há bocado, quando o contacto te estava proibido. Não esquecer, no entanto, que o nosso presente objectivo não é o mamilo mas o de dentro da axila, aquele para o qual os teus dedos se dirigem. Ali deve existir forçosamente um acesso à pele desnuda, pela abertura do vestido ou da t-shirt, e se por acaso tens vestida uma camisa de mangas compridas nada mais resta do que passar pelo decote, que imagino profundo. Qualquer que seja a estrada que escolheste, por cima ou por baixo, estás a tocar directamente a pele pela primeira vez desde o início desta carta. Afasta ligeiramente o braço esquerdo, para fazê-lo com naturalidade basta que apoies o cotovelo no braço do assento. Com a ponta dos dedos alisa a junção do braço do assento, depois começa a explorar a cava da axila. Tarde de Julho, num comboio que imagino bastante cheio, muito me surpreenderia se não apanhasses qualquer gota de suor. Gostaria que dentro de poucos minutos – mas não tenhas pressa, por favor – as levasses ao nariz, pelo cheiro, depois aos lábios, para que as proves. É uma coisa que me põe doido: sem entrar nos excessos aos quais Henrique IV deve a sua glória, eu não adoro a pele lavada demasiado de fresco, e também tu gostas sentir o cheiro da pila, da cona e das axilas. As tuas não são depiladas, e também isto me enlouquece. Não é que seja uma norma geral, não é um dogma, vou antes caso a caso, mas no teu caso não há a mínima dúvida, poderia passar horas, e de facto passo horas nessa espuma ligeira de pelos louros. Cuja dita preferência, como tu acertadamente defendes, pertence a um âmbito de preferências eróticas segundo as quais tendo a colocar-me mais do lado das fotos do pobre Jean-François Jonvelle que do lado de Helmut Newton: rapariga em cuequinhas que se massaja o seio com creme hidratante sorrindo-te ao espelho da casa-de-banho em vez de saltos altos agulha carantonha desdenhosa e coleira de cão. Mas não há só disto na paixão pelos pêlos sob o braço, existe também, como dizer?, uma espécie de efeito de metonímia, como quando se diz vela para dizer barco: a impressão que tu andas por aí com duas conas suplementares, duas pequenas conas que a boa educação autoriza a mostrar em público ainda que façam irresistivelmente pensar, ou pelo menos a mim fazem irresistivelmente pensar, naquilo que está entre as tuas pernas. Em princípio, desaprovo este tipo de raciocínio. Em frente a uma cona, eu tendo a pensar apenas naquela cona, em frente a uma axila, naquela axila, e não lançar-me em associações segundo o princípio que tudo tem que ver com tudo num sistema de ecos e correspondências inefáveis que conduz inexoravelmente ao romantismo, do romantismo ao bovarismo, e daí à negação total da realidade. Eu sou pela realidade, nada mais que a realidade, e por ocupar-me de uma coisa de cada vez. Como aquele guru indiano que, numa outra das minhas histórias preferidas, repete incansavelmente aos seus discípulos (leia-se com o sotaque de Peter Sellers em Hollywood Party): «When you eat, eat. When you read, read. When you walk, walk. When you make love, make love», e por aí fora. Excepto o dia que os discípulos, enquanto se recolhem para meditar, o encontram sentado a tomar o pequeno-almoço e a ler o jornal. Aos discípulos incrédulos, ele responde: «Where is the problem? When you eat and read, you eat and read.» Valho-me deste exemplo, em contraste nítido com as minhas posições filosóficas, para me conceder pensar na tua cona enquanto te acaricio e te faço acariciar as axilas, e todavia pensa-lo também tu, para não falar do teu vizinho que já há cinco minutos te olha pelo canto do olho enquanto lambes os dedos.
Não, para já prefiro não falar disso.
Rui



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