ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

segunda-feira, setembro 13, 2004

 

Vamos jogar a uma coisa (IX)

Eu, no entretanto, pensarei naqueles que estão sentados ao pé de ti. Devo confessar que não estou plenamente à vontade com estes personagens: tenta-me a ideia de utilizá-los, mas escapam perigosamente ao meu controlo. É para mim muito claro, por outro lado, que esta carta, ao mesmo tempo que apresenta o aspecto delicioso de um objecto de prazer puro, apresenta um outro, ligeiramente angustiante, originado nas ideias de um maníaco do controlo. Se tudo correu bem, se respeitaste os tempos indicados, estás a ler esta página hoje, Sábado 20 de Julho, pelas 16.15, e o comboio acaba de retomar a marcha após a paragem em Poitiers. Eu escrevi esta carta em fim de Maio, antes de partir para a Rússia. Pedi ao «Le Monde» que fixasse a data de publicação com muita antecedência: eles não conseguiam perceber porque motivo isso era tão importante para mim, por isso expliquei-lhes, como a ti, que era uma história ambientada no futuro e que, para que pudesse antecipar o futuro, precisava de uma data de publicação certa. Era a verdade. Não sabia ainda o que faríamos no mês de Agosto, mas já estava decidido que a partir de metade de Julho estaria com os meus filhos em casa dos meus pais na Ilha do Rei, e que tu te juntarias a nós na segunda semana. Os contos do «Le Monde» saem ao Sábado, logo terias de apanhar o comboio neste mesmo Sábado, e decisivamente não antes das 14, para que o jornal estivesse já nos quiosques. Tive o cuidado de te reservar o bilhete com grande antecedência confiando no facto que, e considerando o período de férias, terias dificuldade em mudá-lo depois. Como bom maníaco obsessivo, pode dizer-se que tentei garantir o máximo de probabilidade. Mas isto não me impede de saber, como bem sabem todos os obsessivos, que no outro prato da balança está o acaso, o imprevisto, tudo aquilo que pode mandar às malvas os planos melhor arquitectados. Ou seja, o horror em estado puro.
Escrever esta carta trouxe-me um prazer imenso, mas também angústias ferozes – estas, devo admiti-lo, mais não fizeram que atear aquele. Via um segmento de tempo compreendido entre dois pontos: de um lado, o ponto inicial: entreguei o texto ao «Le Monde», já não posso modificá-lo nem arrepender-me, o comboio partiu já; do outro lado, o ponto segundo: estou na estação terminal, tu leste, vens ao meu encontro no cais da estação, tens as cuecas húmidas, vens sobressaltada pelo desejo e pela gratidão, correu tudo exactamente como eu sonhei. Entre o ponto primeiro, fim de Maio, e o ponto segundo, 20 de Julho de 2002 pelas 17.45, tudo pode acontecer, e, acredita-me, não há nada em que eu não tenha pensado, do mais inócuo contratempo à irremediável catástrofe. Que os comboios estejam em greve, ou a distribuição dos jornais. Que tu percas o comboio, ou que o comboio descarrile. Que tu não me ames mais, que eu te não ame mais, que nós não estejamos já juntos, que esta surpresa inocente e ligeira se transforme em qualquer coisa de triste ou, pior ainda, embaraçante.
Seria necessário estar-se emancipado de todo o género de pensamento mágico para planificar o próprio prazer a este ponto sem recear desafiar os deuses. Experimenta imaginar: tu és deus, e um mortal vem dizer-te, por intermédio do «Le Monde» (que tu recebes com eterna antecedência): repara no seguinte, hoje quinta-feira 23 de Maio eu decidi que Sábado 20 de Julho no comboio das 14.45 para La Rochelle a mulher que eu amo se masturbará seguindo as minhas instruções e gozará entre Niort e Surgires. Tu, como reagirias? Pensarias que este gajo se está a esticar. É um tipo simpático, mas maluco. Dir-te-ias que merecia uma liçãozinha. Não o raio que se abate sobre o temerário, não o abutre que lhe devora o fígado, mas uma pequena liçãozinha. Que tipo de lição? Eu acho que no teu lugar – sigo supondo que tu és deus – procuraria montá-la como um filme de Lubitsch, no qual o espectador recebe sempre aquilo que quer, mas nunca no momento em que o deseja. E para dar a este guião demasiadamente bem arquitectado a reviravolta que ilude e ao mesmo tempo satisfaz as expectativas, creio que Lubitsch usaria exactamente o teu vizinho, ou a tua vizinha do lado. Consegues imaginá-la, uma surda-muda graciosa, tipo Emmanuelle Laborit, que há já dez minutos olha furtivamente os lábios da mulher sentada no comboio a seu lado a recitar, de olhos fechados, em êxtase, «quero a tua pila dentro da minha cona»? Como diria o meu amigo Jacques Fieschi, «estou a ver a cena», e para concluir a escolha é grande, desde o momento de perturbação ligeiro e jovial entre raparigas, à la Michel Deville, a um registo mais decididamente porno: és demasiado jovem para ter visto Emmanuelle; a cena inicial no avião, aos dezasseis anos, fez-me delirar como um louco. Dito isto, no entanto, se a ideia é dar-me uma lição fazendo fugir o teu orgasmo ao meu controlo e desviá-lo para um beneficiário imprevisto, a surda-muda graciosa deveria ceder o lugar a um gracioso surdo-mudo, hipótese que, como bem podes imaginar, me entusiasma muito menos. Andemos para a frente, visto que tenho em mente uma situação completamente diferente.
Encontrar-se num local público frente a um desconhecido que lê um livro é uma coisa que pode acontecer na vida de um escritor, mas não é assim tão frequente. Não se pode contar com isso. Em compensação, um bom número de passageiros no comboio lê o «Le Monde», isso é certo. Façamos o cálculo: a França tem 60 milhões de habitantes e o «Le Monde» tira 600.000 exemplares, logo os seus leitores representam 1% da população. Mas no TGV Paris-La Rochelle, numa tarde de Sábado de Julho, a percentagem deve ser bastante mais elevada, seria tentado a multiplicar por dez. Logo, pouco mais ou menos, 10%, a maior parte dos quais, considerando que hoje não têm pressa, darão pelo menos uma vista de olhos, por curiosidade, ao conto que vem com o jornal. Eu não queria parecer presunçoso, mas na minha opinião a probabilidade de que quem dê uma olhadela por curiosidade o leia até ao fim é próxima dos 100%, pela simples razão de que quando se fala de sexo todos lêem mesmo até ao fim, não há nada a fazer. O mesmo é dizer que cerca de 10% dos teus companheiros de viagem lê, leu ou lerá estas instruções durante as três horas que passarão juntos no comboio. A probabilidade, por conseguinte, é bastante mais alta se comparada com a hipótese de teres uma surda-muda sentada ao teu lado. Existe uma possibilidade em dez (estou seguramente a exagerar, mas não assim tanto) que a pessoa sentada ao teu lado esteja, neste momento, a ler a mesma coisa que tu. E se não for aquela mesmo ao teu lado, será uma outro um pouco mais longe.
Wow.
Rui



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