ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sexta-feira, setembro 03, 2004

 

Vamos jogar a uma coisa (IV)

Agora gostaria que fizesses um esforço de concentração. Um esforço sem esforço, por assim dizer, pois pedir-te-ei muitos outros, estamos apenas a começar e é melhor ir pé ante pé para não estragar o crescendo. Deves muito simplesmente tentar visualizar-te. O ambiente ao teu redor, antes de mais, do qual me escapam não poucas variáveis: se estás ou não estás sentada no sentido de marcha, à janela ou na coxia, em poltrona normal ou central - logo numa posição central ou não - são claramente pormenores importantes. Em seguida, visualiza-te a ti mesma, sentada, estas folhas abertas entre as mãos. Queres que te descreva, para ajudar? Na verdade, não, não creio que seja necessário, até porque não sou particularmente bom a descrever e depois porque tenho em mente fazer excitar, não apenas a ti, mas a toda e qualquer mulher que leia estas páginas, pelo que uma descrição demasiado precisa prejudicaria a identificação. Mesmo o dizer apenas alta, loura, pescoço longo, cintura fina e ancas macias seria já dizer demais; logo, não direi nada do género. Serei também vago no que toca à tua roupa. Naturalmente, terás preferido um vestido estival, daqueles que deixam os braços e as pernas descobertos, mas não me permito dar-te qualquer indicação a propósito e pode bem suceder que tenhas posto umas calças, pois são mais práticas em viagem; logo se vê. Independentemente do número de camadas de roupa que tenhas sobreposto (mas nesta estação não é irrazoável pensar em apenas uma), a única coisa certa é que por baixo estás nua. Lembro-me de um romance no qual o narrador toma consciência maravilhado que em todos os momentos as mulheres estão nuas debaixo da roupa. Partilhei, ainda partilho desta maravilha. Gostaria que pensasses um pouco nisso.
Ora bem, segundo exercício: tomares consciência de que estás nua debaixo do vestido. Distinguir, primeiro, as zonas da pele que não estão em contacto com tecido, mas directamente com o ar: rosto, pescoço e mãos, e uma certa extensão de braços e pernas; ponto segundo, as zonas cobertas por tecido, e aqui abre-se todo um leque de cambiantes: aquelas em que o tecido adere – roupa interior, calças justas – e aquelas em que mantém uma certa distância – camisa larga, saia comprida. Resta um terceiro ponto que queria abordar por último e que diz respeito às zonas de pele em contacto com outras zonas de pele; por exemplo, por debaixo da saia, as coxas cruzadas uma sobre a outra, o alto da barriga da perna contra o lado do joelho. Fecha os olhos e procede ao inventário de todos os pontos de contacto da tua pele com o ar, com o tecido, com a pele ou com um outro material – os antebraços sobre os braços do assento, o tornozelo de encontro ao plástico do assento da frente. Passa em revista tudo aquilo que toca a tua pele. Examina em detalhe tudo aquilo que percorre a tua superfície.
Um quarto de hora.
Rui



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