ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

segunda-feira, julho 26, 2004

 

A minha vida sem os críticos

Muito se escreveu e disse sobre o encerramento do S. Jorge... Críticas daqui e dali, choros, discursos nostálgicos, panfletos sobre ser aquele o melhor cinema de Lisboa e por aí adiante. Até aqui, tudo bem.  O problema é que, uma vez reaberto, lá fui eu, certo de que me depararia com essa multidão de amantes do sítio... Resultado? Bom, haverá jogos do Desportivo de Mafamude com mais espectadores. Não uma vez nem duas, mas dez, quinze, vinte, aquelas que já lá fui entretanto. Vi filmes com mais um espectador, outros com mais oito ou nove.

Por mim, tanto melhor. Gosto pouco do marulhar das plateias e persigo o sonho de ter uma projecção só para mim. Mas estas contradições chateiam.

Adiante. A semana passada voltei à sala grande para ver uma dessas pequenas pérolas que podem muito bem passar despercebidas a uma quantidade de gente e, como o filme deve estar a sair de cartaz dentro de dois dias, pareceu-me bem alertar agora, enquanto ainda posso ser útil a alguém.
Chama-se "A Minha Vida Sem Mim", é realizado por Isabel Coixet e produzido pela El Deseo, de Pedro Almodóvar. Não tem grandes vedetas, mas tem esse espantoso Mark Ruffalo, secundário num elenco que não o envergonha. E tem também Maria de Medeiros, numa cabeleireira de fora deste mundo, fanática adepta de Milli Vanilli (se estiver mal escrito, até fico orgulhoso...).
No essencial, é a história de uma jovem de 23 anos que, ao descobrir ter apenas mais 2 a 3 meses de vida, projecta e persegue o que tem a fazer antes da morte. Da sua lista, constam, por um lado, dormir com outros homens, dado que não conheceu outro que não o marido e, por outro, por amar esse marido e as filhas, encontrar-lhe uma boa mulher e uma boa mãe. É território perigoso, portanto, passível de descambar em choradeira ou ridículo, mas segura-se muitíssimo bem. Com sentido de humor, inteligência e, sobretudo, muita delicadeza. Tudo aglutinado no modo frágil e belo como a protagonista canta o eterno "God Only Knows".
A generalidade da crítica desancou-o. Mas também foi grande parte da crítica que berrou cobras e lagartos pelo encerramento do S. Jorge. E também foi a crítica aquela franja que Dustin Hoffman tão bem tratou numa magnífica entrevista a Júlio Isidro (Sim, ao Júlio Isidro. Porquê?), mais ou menos assim: "Se a minha filha chegasse a casa e dissesse: 'Pai, sou lésbica.' Eu dizia: 'Tudo bem. Vamos conversar sobre isso.' Se o meu filho se abeirasse de mim e dissesse: 'Pai, sou homossexual e quero ir viver com o meu namorado.' Eu responderia: 'Ok. Se é isso que tu desejas...' Agora, se algum dos meus filhos chegasse a casa e me dissesse: 'Pai, eu quero ser crítico.' Aí é que eu responderia: 'Nããããooooo!!!! Por acaso, perdeste a cabeça, foi? Vai já pr'ó teu quarto!!"
Alexandre



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