ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

sábado, abril 29, 2006

 

Marta Hugon



Na 5ª feira, 27 de Abril, a noite de jazz no Maxime foi contagiante. A voz serena e límpida de Marta Hugon , mais intoxicante que o álcool em cima da mesa, revelou-se uma agradável surpresa. Conheci a Marta na Faculdade, numa roda de amigos do curso de Literatura (não me ocorre agora a designação correcta). Desde então, perdi-lhe o rasto, já lá vão seguramente mais de dez anos. Até que, na véspera do concerto, a Inês Hugon (editora da Tinta-da-China, com quem partilho um gosto imoderado pelos livros da Patricia Highsmith), me revelou a irmã, que me conhecia, que se lembrava de mim, e que ia cantar no Maxime.
No palco, a Marta cantou músicas do reportório clássico americano, como The Tender Trap (que dá título ao CD), Too Young to Go Steady ou I feel so Smoochie. A acompanhar, um trio de músicos fora de série. O piano fluente e empolgante de Filipe Melo, o contrabaixo de Bernardo Moreira (que ressoava na caixa torácica), a bateria ágil e magnética de André Sousa Machado. Quanto à Marta, só me ocorre uma banalidade: encantadora. Toda ela transmitia competência, a facilidade na pronúncia do inglês, a entoação vocal, natural como quem pensa em voz alta, a capacidade de tirar partido das coisas que diz. A tristeza vital em I Wish I Knew. O sentimento de proximidade em I Concentrate on You. A mágoa de uma alma não compreendida em In Love In Vain. A interpretação dos instintos amorosos em That Old Black Magic. O humano, demasiado humano, na fragilidade das emoções fortes em Old Devil Moon. A expansiva intimidade, irónica e divertida, em Too Close For Comfort.
Letras e ritmos que ora apaziguam a alma, ora reacendem o fogo. Ouvir a Marta Hugon, garanto-vos, é como um vírus mortífero que nos entra na corrente sanguínea e nos impressiona o coração: «you're actin' kind of smug/Until your heart just goes whap!» (The Tender Trap)

quinta-feira, abril 27, 2006

 

Mais actualizações

O blogue da Alice
O blogue da Sarah
O blogue da Francisca

quarta-feira, abril 26, 2006

 

Actualização da lista de blogues

À lista do final da página, acrescentei os blogues:

Catálogo Blog , do Diogo Freitas da Costa, bom e constante amigo.

Fuga para a Vitória , onde encontro antigos colegas da FCSH, em particular o Celso Martins e o Rui Lopes. Mas também o Daniel Melo, companheiro num projecto de investigação sobre práticas de leitura.

Garedelest , criação do André Belo, com quem partilhei casa em Londres, quando julgava que era possível, para mim, fazer o mestrado em Inglaterra.

Homem-a-Dias , cronista que leio regularmente na revista Sábado.

A Invenção de Morel , do José Mário Silva. Para quê fingir? Eu vou lá e leio...

A Origem das Espécies , do Francisco José Viegas. Mas alguém consegue não gostar do FJViegas?

Quarta República , do David Justino, meu antigo professor e dos bons. Aquelas aulas sobre os nacionalismos ao som de ópera são inesquecíveis.

terça-feira, abril 25, 2006

 

Criticar a crítica

No Mil Folhas do pretérito sábado (22/04/06, p. 16), João Bonifácio (JB) escreveu um texto - «Escrever pelo prazer da escrita» - comentando o Não É Fácil Dizer Bem, deste vosso súbdito, o Primeira Pessoa, do Pedro Mexia, e o Pobre e Mal Agradecido, do Rui Tavares. Ver-me assim anexado a tão bons e talentosos escribas lisonjeia-me. Digo-o sem ponta de ironia. Por mais de uma vez manifestei, sem reservas, a minha admiração pelo Pedro Mexia (em especial nesta vertente de cronista, onde continuo a encontrar alguns dos melhores textos que hoje se publicam nos jornais) e pelo Rui Tavares (basta ler o texto que escrevi sobre o Pequeno Livro do Grande Terramoto para perceber o entusiasmo).
Sobre o meu livro tece JB algumas afirmações que gostaria de aqui rebater. Que fique claro de início que não é o amor-próprio ferido a motivar-me as palavras. O pensamento, entre outras coisas, progride pela crítica, pela negação, pela recusa (saber recusar é tão necessário como o seu contrário). Além do mais, o direito de serem tão severos para comigo como eu fui para com os outros é irrefragável. Tal não me inibe, porém, de criticar essa mesma crítica, principalmente quando é leviana, negligente, desleixada, facciosa e estéril. O texto de JB, aliás, exibe alguns dos sintomas que caracterizam o quietismo da crítica jornalística: ausência de critérios seguros para avaliar as obras, incapacidade (e impossiblidade, é certo, por restrições de espaço) de se demorar nos livros, opacidade dos conceitos e superficialidade da argumentação. Analisemos, passo a passo, os juízos de JB.

«O estilo de JPG é, então, anotar repetições, advérbios de modo usados em excesso, e aquilo que considera literatura emproada. O método é quase sempre esse, e isso é manifestamente pouco - esse é o primeiro problema de JPG: na ânsia de se mostrar implacável denota fraca capacidade de observação das narrativas e da construção das personagens. Quase sempre que se refere a um livro JPG atém-se exclusivamente na linguagem, como se esta fosse um fim em si mesmo. A este propósito o texto sobre Rui Nunes («A musa», p. 21) é esclarecedor.»

Reduzir 27 textos, onde se misturam opiniões várias sobre:

1) entrevistas (a António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, Javier Marías);
2) crónicas (por ex: «Os Cabelos Arrepiam-se», «O Bebé Prado Coelho» ou «EPC»);
3) cenas de sexo na literatura (José Rodrigues dos Santos vs. Henry Miller);
4) um programa de televisão («O Eixo do Mal»);
5) certas práticas jornalísticas (por ex: «Eduardo Prado Coelho: O Escolho do Olhar», «A Coutada Literária do Expresso», «António Costa Pinto, o Incessante»);
6) determinadas estratégias editoriais («Editores e Crítica Literária»),
7) etc,

reduzir, repito, 27 textos a um princípio único de explicação - análise da linguagem - é um monismo inaceitável e intelectualmente desonesto.

Anotar advérbios de modo, sim, faço-o, mas apenas no texto sobre Miguel Sousa Tavares (e esse é um aspecto menor do texto).

Anotar repetições, sim, é verdade, mas apenas nos textos sobre Rui Nunes, Miguel Sousa Tavares e, em parte, Eduardo Prado Coelho («O Escolho do Olhar»).

Gostava de saber onde é que JB se apoia para enunciar tão retumbante afirmação.

Nos textos sobre Luiz Pacheco?
Na crítica a António Alçada Baptista?
No texto sobre José Eduardo Agualusa (e o que estava aí em causa, por via das dúvidas, não era criticar o romance mas sim uma prática: a repetição ipsis verbis de nacos de prosa de uns para outros livros)?
Na crónica sobre Miguel Esteves Cardoso?
Na análise do livro de memórias de Maria Filomena Mónica?
No elogio ao Pequeno Livro do Grande Terramoto, do Rui Tavares, ou ao romance Alma, de Manuel Alegre?
E, sobre este último, será que João Bonifácio confundiu o texto sobre Rafael («Manuel Alegre, o Caçador de Citações»), uma brincadeira suscitada por uma célebre entrevista de José Sócrates ao Expresso, com a crítica ao livro do deputado e candidato a Presidente da República?

Em todos esses casos, pela própria natureza das críticas (daí ter evitado o termo «críticas literárias» no subtítulo no livro, Não É Fácil Dizer Bem: Críticas, Obsessões e Outras Ficções), não era minha intenção fazer a «observação das narrativas e avaliar a construção das personagens», até porque a ficção é apenas um entre os vários géneros em que me detenho:

a) entrevistas (quatro capítulos, sobre António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares e Javier Marías);
b) crónicas (ex: «O Mundo do Pacheco);
c) correspondência (ex: «Estardalhaço e Amnésias: Cartas ao Léu, de Luiz Pacheco);
d) um programa de televisão (acima referido);
e) crítica da crítica (ex: «Eduardo Prado Coelho: O Escolho do Olhar», «A Coutada Literária do Expresso», «António Costa Pinto, o Incessante»).

Perante esta salganhada de géneros, deveria eu fazer «observação das narrativas e da construção das personagens»?

E ainda que assim fosse, a afirmação não é exacta, porquanto nos textos sobre António Mega Ferreira, Possidónio Cachapa, Inês Pedrosa, António Alçada Baptista ou Miguel Sousa Tavares essa análise está feita.

Depois, considerar o texto sobre Rui Nunes - «A Musa Parada de Rui Nunes» - como paradigmático dessa suposta preocupação com a expressão linguística é de bradar aos céus.

Saberá JB que a característica maior de Rui Nunes é precisamente o trabalho sobre a linguagem? Que Rui Nunes se concentra nos mecanismos estilísticos para potencializar (até à exaustão) os assuntos que privilegia? E a crítica deve passar, ligeira, por cima disso, concentrando-se nesses dois critérios?

A constatação das repetições da escrita de Rui Nunes é que me permitiu, aliás, chegar ao núcleo dos seus temas, que inclusivamente aponto no meu texto: doença, degradação/decomposição do corpo humano, marginalização social, solidão, morte, descrença absoluta num Criador, temas esses que podem ser sintetizados, como fiz (recorrendo a Julia Kristeva), na ideia da «literatura da abjecção».

Não se concorda com a análise, consideram-se outros os temas? Certo, mas aí entramos noutra discussão, que JB não fez, ou porque não podia, ou porque não quis, ou porque lhe faltavam os recursos críticos.

«(Podia agora referir que JPG tem uma escrita "proto-celineana" descabida, e que abusa de expressões como "Por Zeus!", excede-se nas interjeições e é bastas vezes escusadamente exclamativo. Recuso-me a apontar as repetições gramaticais - não tenho paciência.)»

Neste parágrafo, JB diminui-se a si próprio. Em primeiro lugar, qualificar como escrita «proto-celineana» todo o livro é, uma vez mais, desonesto. O único texto onde tal epíteto se aplica é no último - «A Comédia Terminou» - ainda por cima um texto que incluo, não por acaso, sublinhe-se, na parte das Ficções (JB poderia ter referido também o Álvaro de Campos da Ode Marítima, onde claramente me inspirei).

Reparem, estamos a falar de três páginas (3!) num total de 255. Teria sido muito mais lógico referir o Luiz Pacheco (apenas para as críticas e só em algumas delas), porque aí sim (nunca o escondi) é possível encontrar - modéstia à parte - algumas parecenças de estilo e de atitude.

De qualquer forma, JB tinha a obrigação de explicar/justificar/fundamentar o porquê de considerar «descabida» a escrita «proto-celineana». JB não tem paciência para apontar as repetições gramaticais? Não tem paciência!? É esse o seu dever, é para isso que lhe pagam, para ter paciência!!! (percebe agora as exclamações?)

«Há, no entanto, um outro problema com a escrita de JPG: um registo de tal modo destrutivo ou é sustentado em algo mais que a mera aritmética de "bengalas" literárias ou tem de saber fazer uso do seu potencial de humor - o que neste caso se torna impossível à conta do lastro moralista que o torna por vezes mais desagradável que incómodo. (No final do livro, JPG entrega-se à ficção, mas a bem da sua reputação esqueçamos esses pequenos devaneios.)»

No que toca às «bengalas literárias», não vale a pena chover no molhado. Quanto ao moralismo, a história é outra, já que JB não explica o sentido que dá à palavra. O conceito tem dezenas de significados, quer em termos linguísticos (basta consultar o dicionário) quer em termos da história da filosofia, onde o «moralismo» surge como um dos grandes ramos da reflexão filosófica. Se JB considera moralismo comportar-me na vida de acordo com determinados princípios, com base nos quais me arrogo o direito de criticar certos comportamentos; se JB vê no moralismo uma disposição de espírito para escrever com vigor sobre atitudes que revelam falta de profissionalismo, então sim, sou moralista. É desagradável? Tanto melhor. Porque essa moral não me prende a nenhuma «camisa de deveres» nem me impede de ter uma opinião livre. Além disso, note JB que «demasiado fácil, o desprezo do moralismo corre o risco, quando não justificado, de ser um simples álibi para quem elude as verdadeiras exigências da moralidade» (Dicionário de Filosofia, dir. de Lucien Jerphagnon, edições 70). Ou, utilizando um velho ensinamento dos bancos do liceu, «nenhum ser humano é filósofo sem o saber, mas todo o ser humano é moralista sem o saber».

A fechar o parágrafo, JB introduz um parêntesis paternalista que tresanda a fanfarronada: «no final do livro, JPG entrega-se à ficção, mas a bem da sua reputação esqueçamos esses pequenos devaneios».

Assim, sem qualquer fundamentação, sem um pensamento, sem uma ideia, sem amplitude ou alcance intelectual. Ora, isto não é aceitável numa crítica (é contra esta falta de ousadia, este medíocre temperamento crítico, esta forma apressada de avaliar os textos, entre outras coisas, que o estilo «proto-celineano» ainda hoje faz todo sentido).

Ou pura e simplesmente tinha ignorado as «ficções» (como aliás fez com as «obsessões», a parte central do livro) ou então escusava de mutilar o raciocínio, ficando-se pela referência, mui duvidosa, à minha «reputação».

Nas minhas críticas, com todas as suas limitações, há uma coisa que não me pode ser assacado: não justificar as afirmações que faço. Poder-se-á concordar ou discordar, mas as justificações, essas, apresento-as.

O que mais me penaliza, nas observações de João Bonifácio, não é a eterna história do incompreendido. Nem tão-pouco a falta de educação científica, onde se aprende a fundamentar as afirmações. Não, o que verdadeiramente me penaliza é ter chegado à conclusão que a única coisa que o meu livro despertou foi a preguiça do cérebro de João Bonifácio.

João Pedro George

sexta-feira, abril 21, 2006

 

A Polémica de Ontem





Título maior do Público, a letras vermelhas, e hoje já não existe a não ser nas interiores do caderno Local Lisboa. Pouco importa que a votação de ontem não garantisse nada aos funcionários, que Carrilho estivesse na Assembleia, contactável pelo Público, ou que seja só mais um caso da sanha do director do jornal contra o inapto político que Carrilho é.
O que importa, mas nem a coincidência com o caso das ‘faltas’ na Assembleia parece interessar, é o facto de a representação política ser impraticável quando deputados e autarcas (‘e’, não ‘ou’) acumulam cargos políticos e profissionais que se sabotam mutuamente. Ao que parece não ocorre que, mais do que os livros de pontos assim ou a acumulação de cargos desde que sem duplicação de vencimentos assado, a representatividade só é defensável e sustentável sem acumulações de cargos, pelo menos de cargos políticos.
Talvez seja mesmo a única solução, já que nem coordenar horários as nossas instituições são capazes. Como o país.

Carlos Leone

quarta-feira, abril 19, 2006

 

A Cultura das Polémicas

«Estive fora, do outro lado do rio Atlântico, durante Fevereiro e Março, mas ainda assim suponho não ter perdido nenhuma das polémicas que a vida da cultura nacional já engendrou este ano. A do Teatro Nacional, a do CCB/Berardo, a de um nome registado que não ouso grafar com João Pedro George e, agora, a da saída de Benard da Costa da Cinemateca. Vamos, se não me esqueci de nenhuma, na média de uma por mês.
As polémicas são sempre estéreis, muito barulho e depois fica tudo igual. Destas que notei, três são questões de opções do poder político governativo e só a que envolve João Pedro George é reveladora de algo intrínseco à sociedade civil, ao levantar o problema da liberdade de expressão. Que me lembre, este tipo de pressão só veio a público com esta nitidez quando António Guerreiro foi perseguido por um abaixo-assinado de ilustres democratas que queriam que Balsemão o despedisse do Expresso por causa de uma crítica a um livro. Mas, pela minha experiência, pela do João Pedro George e por outras, é o tipo de pressão que acontece diariamente, bem mais significativa que as outras, limitadas pelos poucos recursos que o Estado (o Governo, sobretudo) permite que a tutela da Cultura disponha.
Ora, isto sugere uma alternativa: ou o ministério da Cultura não tem razão de ser, por faltar uma cultura que ele tutele, ou só vale a pena falar do ministério e não da cultura, pois isso é que interessa dada a falta de actividade cultural independente. Em qualquer caso, tal como o caso com Guerreiro, é do que não se fala que importaria falar. Critérios editoriais, decerto.»

Carlos Leone

segunda-feira, abril 10, 2006

 

A Arte da Pontuação

Colocar uma vírgula antes ou depois de uma palavra pode ser uma questão de vida ou de morte. Em Perdón Imposible, José Antonio Millán relata-nos um episódio em que o imperador Carlos V, na iminência de assinar uma sentença de morte que dizia «Perdão impossível, cumprir a condenação», viu-se acometido por um ataque de magnanimidade e, antes de rubricar, resolveu corrigir a frase: «Perdão, impossível cumprir a condenação». Bastou mudar uma vírgula e salvou-se, assim, a vida de um homem.

quinta-feira, abril 06, 2006

 

Blogues e audiências

Na revista Sábado de hoje, José Pacheco Pereira analisa um estudo da Marktest sobre a leitura de blogues (questão também debatida por David Justino, no Quarta República) e coloca-lhe «sérias reservas» porque a recolha da amostra assentou em premissas erradas. Por exemplo, privilegiou as consultas de blogues feitas a partir de casa. Ora, qualquer bloguer sabe que os picos de audiência se verificam durante a semana e no horário de trabalho (com incidência nas horas de almoço, entre as 12h e 30m e as 14h, e no final da tarde, presumo que antes do regresso a casa). Aos sábados e aos domingos, sabe-se também, as audiências descem vertiginosamente. Logo, tudo indica que um estudo baseado num «painel de lares» será incapaz de captar e caracterizar a realidade.
Questões de métodos como estas são longamente discutidas em qualquer curso de sociologia que se preze. Durante alguns anos, na Faculdade, fui assistente da Professora Margarida Marques (hoje a maior especialista portuguesa em questões de imigração) numa cadeira de Teoria e Métodos para as Ciências Sociais. Um dos exemplos discutidos nas aulas sobre como não construir uma amostra era o seguinte: a revista Digest, na década de 1920, fez diversas sondagens para as diferentes eleições presidenciais americanas desse período. O inquérito foi feito por telefone e os nomes da amostra foram obtidos através da lista telefónica e das listas de registo automóvel. O que queria dizer que quem não tivesse telefone ou automóvel estava, à partida, excluído da amostra: apenas as classes médias e as classes altas (nessa altura, como calculam, nem todos tinham telefone em casa ou possuíam automóvel) é que foram abrangidas pelas sondagens. O método de recolha da amostra carecia, pois, de validade. Dito de outro modo, procedeu-se a extrapolações para uma população que não estava representada na amostra.
Outro exemplo referia-se a uma sondagem sobre «interesse pela política» e tinha como população-alvo os agriculturos franceses. O estudo chegou à conclusão que os agricultores franceses eram apolíticos e que pouco ou nada se interessavam por política: quando confrontados com a pergunta «A política interessa-lhe?», os agricultores, na sua maioria, respondiam «Não» ou «Nada». Simultaneamente, verificou-se que a participação eleitoral dos agricultores era altíssima. Havia, portanto, uma contradição entre os resultados da sondagem e os posteriores resultados eleitorais. Até que se percebeu que o problema residia na forma como os agricultores tinham interpretado a pergunta, que na verdade era vaga e imprecisa, o que explica o erro de interpretação. Julgavam eles que «interessar-se por política» significava «aderir a um partido», ideia que era veementemente rejeitada pelos agricultores franceses.
Pormenores como estes fazem toda a diferença e exigem dos técnicos uma atenção rigorosa de forma a assegurar a fidedignidade e a validade das medidas. Foi isso, aparentemente, que faltou ao estudo da Marktest. E, a ser assim, continuarei a guiar-me pelo «velho» site meter.

 

«Assassinato em Harvard?»

Carlos Leone é doutor em História das Ideias pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Publicou recentemente, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (colecção «temas portugueses»), a tese de doutoramento: Portugal Extemporâneo: História das Ideias do Discurso Crítico Português no século XX (2 volumes). Outros livros, do mesmo autor: Dez Críticas (1999) e O Essencial sobre Estrangeirados no Século XX (INCM, 2005). Carlos Leone (que em tempos teve a gentileza de criticar a minha tese de mestrado) enviou-me agora mesmo um texto que merece leitura atenta e poderá suscitar uma reflexão mais alargada. Ei-lo:

«O editorial do Público de 3/3/06 tem vários aspectos que merecem nota, desde logo o seu título. O "assassinato" do reitor de Harvard Lawrence Summers é descrito como resultante do fundamentalismo politicamente correcto de alguns professores, o que é tanto mais excessivo quanto o afastamento de Summers não se deveu a nenhuma Faculdade em particular mas à Harvard Corporation, que gere a Universidade.
E neste caso, que nos EUA chegou mesmo a merecer a cobertura noticiosa da TV (órgão por excelência dos assassinatos e afins, logo criadora de uma imagem muito distorcida da pacata Nova Inglaterra), em todas as notícias surgidas na rádio, TV, jornais generalistas, Internet, publicações académicas, ninguém questionou as "inúmeras qualidades" de Lawence Summers. Pelo contrário, foi sempre lembrada a sua nomeação consensual há poucos anos e as altas esperanças que acompanharam a sua entrada em funções. Sucede que também se forneceu a informação que explica os "inimigos" que criou. E, com isso, evita-se a demonização do politicamente correcto (sempre olhado com uma desconfiança geral, dentro e fora da Universidade) e compreende-se melhor o apoio dos alunos (dos "undergraduate", sobretudo) a uma liderança essencialmente carismática. O caso é que o afastamento não se deveu a não querer enfrentar um voto de desconfiança de uma das faculdades (já era o segundo e não apenas de uma), deveu-se sim aos principais investidores da Universidade, que o haviam seleccionado, concluírem que tinha sido na sua qualidade de gestor que Summers falhara. Não foi uma batalha da boa ciência do gestor exemplar contra o relativismo P.C. que se travou, antes sim uma decisão estratégica por parte dos corpos gerentes da instituição, que o próprio Summers compreendeu e para a qual contribuiu, estando o processo ainda em curso, pois o sucessor está apenas a assegurar transitoriamente o lugar até se encontrar alguém com o perfil certo. E apesar de todos verem que será difícil, a contestação ao afastamento tem sido quase nula. Vale pena acompanhar o caso, até para se apreciar as diferenças agora que o processo de Bolonha conhece em Portugal todas as vicissitudes que não surpreendem ninguém. Aqui procura-se não o culpado do assassinato que nunca aconteceu, mas alguém com o perfil que Summers tinha mas não conseguiu fazer valer. Consagrado, mas com idade para ocupar o cargo por tempo suficiente para proceder às transformações que a Universidade precisa. E, ao contrário do que o editorial sugere, não há em Harvard ou nas universidades americanas nenhuma ortodoxia politicamente correcta (ou outra), há sim uma prática consolidada de diversidade e autonomia entre as Faculdades, que Summers tentou remodelar centralisticamente. Não que isso seja visto aqui como um pecado, como em Portugal há quem goste de fazer crer; a questão está em que o fez de modo conflituoso e arbitrário não só nas declarações (eufemisticamente aludidas no editorial) mas também nos actos. Por isso, a própria equipa directiva de Summers se desagregou. Casos mais particulares, como o que o editorial refere, o do professor e activista (public intellectual) Cornel West, foram vários e todos resultaram em perdas escusadas para Harvard. Ora, não é preciso ser admirador da obra e do activismo de West nem pertencer à Harvard Corporation para perceber que tudo isto resulta num prejuízo para a instituição. E como esta acredita no rumo que traçou e para o qual se escolheu Summers, sem grandes oposições, procura-se alguém que exerça melhor a função. Não há assassinato nenhum, muito menos de Summers, que tem (ao que se noticia) propostas bem interessantes.
A descrição do editorial de uma Universidade feita para os que lá estão e não para as funções que deve exercer, a custo dos estudantes e da comunidade, aplica-se bem às universidades portuguesas (admito que haja excepções), mas não a Harvard ou à generalidade das americanas. Nestas, não faltam discussões livres e por isso mesmo nada disto é novo nem nada disto se reduz à moda P.C. que em Portugal há quem pense ser dominante nos EUA. Em rigor, já Max Weber, em A Ciência Como Vocação, há quase um século, falava aos alunos alemães da americanização da vida universitária e da vida em geral, indicando o nexo entre burocratização e democratização, mas chamando também a atenção para o facto de isso não significar que nas Universidades, nos institutos de investigação, etc., o papel de chefia deixe de ser, também, político, isto é, obrigar a uma competência técnica-científica mas, igualmente, precisar de mobilizar, equilibrar, os recursos da instituição. Justamente o tipo de exercício de recursos humanos que o gestor Summers, reputado professor, não foi capaz de fazer. Esta liderança carismática falhou a sua missão como muitas outras, ao falhar institucionalizar-se. Ao menos Summers saiu com elegância, sem acusações vagas nem escândalos.
Podemos ler na tese do editorial mais uma tentativa de importar as science wars, que há anos se tenta criar em Portugal apesar da falta geral de cultura científica (à imagem da importação da Contra-Reforma sem que tivesse havido Reforma… mas sobre essas guerras de alecrim e manjerona já escrevi no Expresso em 1997). Mais grave do que isso, que já não é pouco, podemos ver como é já normal na Imprensa portuguesa o comentário obliterar a informação prévia ao leitor, que fica com os comentários antes mesmo de conhecer os problemas. Por isso, a terminar, uma boa notícia: Harvard e a Ivy League continuam grandes, e a Nova Inglaterra cheia de vida.»

Carlos Leone

quarta-feira, abril 05, 2006

 

Carta Aberta a José Sá Fernandes

Com a trepidação dos últimos dias, temo que a minha carta aberta a José Sá Fernandes tenha passado ao lado. Ei-la, pois, de novo. Continuo à espera (sentado, claro) de uma resposta.

Exmº Vereador da Câmara Municipal de Lisboa,

Durante mais de 20 anos fui morador no Bairro Social do Arco do Cego (para ser mais preciso, entre os meus 4 e os meus 27 anos). A minha memória pessoal está pois abundantemente povoada de momentos passados no cenário do Arco do Cego e suas imediações. Ontem, sábado 25 de Março, saído do Saldanha Residence (onde acabara de ver o Coisa Ruim), dirigia-me eu, levado pelas exigências do estômago, a casa dos meus pais, ali junto ao Liceu D. Filipa de Lencastre. Ao chegar à Av. João Crisóstomo, decidi espreitar os avanços das obras no ainda incompleto Jardim do Arco do Cego. É que uns dias antes apercebera-se que havia azáfama, máquinas em manobras, gente em movimento, açodada. Pensei: finalmente vai ser concluída a 2ª fase do jardim, talvez para estar pronta no Verão. A 1ª fase, já terminada (claro que com enorme atraso em relação ao incialmente previsto), inclui um grande relvado central, árvores plantadas (excepto a grande palmeira, felizmente preservada), percursos pedonais e mobiliário urbano (ou seja, bancos). Que diferença em relação aos tempos da central dos autocarros!
Maior ainda a diferença quando a 2ª fase fosse levada avante. Qual o projecto, anunciado e prometido publicamente? Como o Senhor Vereador sabe, o objectivo era «transformar a estrutura original da Gare do final do século XIX em jardim coberto, com vegetação exótica, plano de água, percursos, espaços comerciais e culturais». É isso que consta, textualmente, no projecto aprovado pela Câmara.
Decidi espreitar, dizia, convencido que era isso que estaria a ser feito, que era esse o intuito e o motor de toda aquela agitação laboriosa. Subi uma rampa, pela entrada da João Crisóstomo e... papagaio! Um parque de estacionamento! Tudo alcatroado, de ponta a ponta, uma planura de alcatrão com marcações a tinta amarela, dezenas, centenas de lugares para automóveis. Nas últimas eleições, senhor Vereador, votei em si, votei no Bloco de Esquerda. Pergunto-lhe: que raio aconteceu ao Jardim Coberto do Arco do Cego?

Os meus cumprimentos,

João Pedro George

terça-feira, abril 04, 2006

 

«A Censura Proprietária» (Rui Tavares)

Em crónica do último sábado (01/04/2006), no jornal Público («A Censura Proprietária»), Rui Tavares afirma que «Couves & Alforrecas não se estende por ilações morais e nem sequer por argumentações literárias». Se a primeira parte da frase está correcta, a segunda merece objecção. No pequeno livro da grande ®, faço considerações sobre:

1) quase indiferença da crítica em relação aos textos de ®;
2) temas centrais e estrutura narrativa dos livros de ®;
3) caracterização do perfil das personagens;
4) as estratégias de ® para criar um efeito de realidade nos leitores;
5) a questão da alternância dos pontos de vista;
6) o estilo (onde se incluem, aí sim, as repetições);
7) erros ortográficos e de sintaxe;
8) ideia de originalidade em literatura baseada em David Lodge;
8) no posfácio refiro, ao de leve, a questão da identidade dos escritores com sucesso comercial mas sem reconhecimento da crítica.

Se isto não são argumentos literários então não sei o que são argumentos literários. Estão pouco desenvolvidos, falta-lhes complexidade intelectual, precisavam de mais notas de roda-pé, referências eruditas, etc.? Concedo. Mas não era esse o objectivo, de todo, do livrinho (nem a matéria-prima de ® se presta a grandes complexidades analíticas). Tratar o problema da literatura light ou pop, e respectivas audiências de um ponto de vista sociológico, isso já é outra coisa (ainda este ano sairá, pela Fundação Calouste Gulbenkian, um livro sobre práticas de leitura onde a questão é analisada desse prisma).

Sobre a ausência de argumentos literários no Couves & Alforrecas, a crónica do Rui Tavares pareceu-me pouco rigorosa e injusta. Quanto ao resto, à questão da propriedade intelectual, da propriedade industrial e, finalmente, da liberdade de expressão, assino por baixo.

 

Crítica Literária: uma perspectiva sociológica

Quem escreve - a maioria - quer ser publicado. Mas não só. Ou melhor, não chega. Sem o reconhecimento da crítica, nada feito. Há dois momentos que definem a identidade (neste caso a identidade de escritor): o sentimento do seu próprio valor como escritor e o reconhecimento de outrem, ou seja, das instâncias de consagração, como a crítica. A confirmação do valor próprio pelos outros é uma dimensão essencial da identidade, seja ela de escritor ou outra. Daí decorre a importância da crítica. Para que um texto seja considerado, socialmente, como literatura é necessária a aprovação das instituições literárias. Sem a interferência da crítica, um livro pode existir mas não é literatura; dito de outro modo, um livro só se torna literatura quando é reconhecido e exibido como tal.

É nesta ideia que se joga uma premissa básica da Sociologia da Literatura: o carácter literário é definido não tanto como uma qualidade intrínseca dos objectos (os textos) mas antes como resultado de um processo de definição social. Assim, o valor não é uma característica inerente aos objectos, é antes e acima de tudo um juízo sobre eles que reside no sujeito: «A beleza não está na natureza dos objectos mas na nossa própria subjectividade» (Espinoza) ou «Nós não admiramos a Vénus de Milo porque ela é bela; ela é bela porque nós a admiramos» (Charles Lalo). Tanto assim é que as avaliações estéticas mudam de época para época, ou seja, um livro pode não possuir estatuto literário num determinado contexto histórico-cultural mas pode vir a adquiri-lo mais tarde (autores ignorados em vida mas posteriormente recuperados). E vice-versa. O valor não é algo conquistado de uma vez por todas e de forma inequívoca. Está sujeito a variações. Os clássicos greco-latinos, por exemplo, precisaram de esperar pelo Renascimento para readquirirem valor, para ganharem outro fôlego. E nada nos garante que daqui a uns séculos (se ainda por cá andarmos) não venham a perder novamente o elevado prestígio de que hoje usufruem.

A qualidade literária atribuída a um livro depende da quantidade de atenção que lhe é dedicada pelas instituições literárias. Quanto maior a diversidade de opiniões, quanto maior a legitimidade (autoridade) dos críticos que as proferem e quanto maior a reputação dos sítios onde elas são publicadas, maior o valor literário de uma obra e de um escritor. Logo, a atribuição de valor literário é socialmente determinada; está dependente de factores sociais. E, sendo assim, na valorização de um livro o que é decisivo é o número de discursos críticos e não, como geralmente se assume, as suas supostas qualidades intrínsecas (em Teoria da Literatura, Wellek e Warren defendem que os alicerces em que devem assentar as classificações literárias são as «propriedades intrínsecas» presentes nos textos, propriedades essas passíveis de serem detectadas por um leitor especializado).

Como os críticos não conseguem provar as qualidades da obra literária (as suas afirmações têm por base afirmações normativas e valorativas que não são susceptíveis de verificação nem de falsificação, ou seja, não são empiricamente testáveis), é tudo uma questão de crença. Trata-se de convencer os leitores em geral (bem como os outros críticos e os escritores) de que uma obra é literatura (boa, muito boa, excelente, etc) e, portanto, merecedora de atenção.

Nos jornais não existe uma autoridade formal nem mecanismos de credenciação para determinar quem possui qualificações para exercer a actividade de crítica de livros (daí a importância dos favores e das ligações interpessoais na obtenção de empregos e de oportunidades, o que faz com que todos precisem uns dos outros e sejam mutuamente dependentes). Ainda assim, é possível estabelecer diferenças entre críticos (ex: quais os que possuem maior capacidade de suscitar adesão, quais os que têm maior poder de persuasão). Em primeiro lugar, tendo em conta indicadores de natureza social, como:

1) prestígio do jornal, da revista ou da editora em que o crítico escreve;

2) profissão do crítico (por exemplo: professor universitário);

3) a sua experiência como crítico, ou seja, a regularidade da sua intervenção;

4) a dimensão do espaço que lhe é conferido nessas publicações para exercer a sua actividade.

Em segundo lugar, indicadores de natureza retórica, também eles responsáveis, como é óbvio, pela plausibilidade da crítica:

1) a qualidade da sua escrita;

2) o nível de erudição que ostenta/referências à tradição literária;

3) a terminologia utilizada para descrever e analisar as obras;

4) as estratégias argumentativas.

São estes, em suma, alguns dos indicadores responsáveis pelo sucesso de um crítico e pela sua aceitação por parte dos críticos (os outros), dos escritores e dos leitores em geral. Tal aceitação acontece, por exemplo, quando a caracterização e análise que ele faz de um livro ou de um autor são adoptadas por outros críticos. A aprovação dos colegas, aliás, é a confirmação mais alta do valor dos seus juízos críticos (daí que a audiência privilegiada pelos críticos seja a dos outros críticos). Na verdade, um crítico pretende não apenas produzir, nos leitores, a crença no valor que ele atribuiu a um livro como também produzir uma crença no seu próprio valor enquanto crítico e enquanto especialista com competência para considerar um livro como literatura (ou como não literatura). Se os críticos fazem a reputação dos escritores, estes, por sua vez, também fazem a reputação dos críticos: os autores (principalmente aqueles com muito prestígio) ao aceitarem um discurso crítico (por exemplo, convidando um crítico para prefaciar um livro) aceitam simultaneamente a autoridade do crítico e a sua legitimidade para avaliar literatura. Logo, a carreira de um crítico está intrinsecamente ligada ao sucesso dos autores que ele valoriza.

Como medir o reconhecimento de um autor?

1) vários críticos falarão do mesmo livro (analisá-lo-ão), esse e outros livros do mesmo autor;

2) o público leitor comprará o livro;

3) o autor obtém apoio financeiro através de bolsas e prémios;

4) as editoras interessam-se por reeditar o livro e asseguram a publicação dos livros seguintes;

5) o escritor passa a constar em antologias;

6) é incluído nos curricula dos liceus e das universidades;

7) consta nas histórias e nos dicionários de literatura.

Um livro que cumpra todos estes requisitos merece, provavelmente, a designação de obra-prima e tem garantido um prazo de validade mais alargado. Decisivas, a esse respeito, são as alíneas 5), 6) e 7). Um livro que se fique pelas quatro primeiras alíneas tem um prazo de validade reduzido (não obstando a que no futuro possa ser recuperado e objecto de canonização).

A crítica pode ser dividida em três espécies (complementares entre si):

1) Jornalística;
2) Ensaística;
3) Académica.

Uma obra que não passa pelo crivo destes três níveis de crítica corre o risco de cair no esquecimento. Hierarquicamente, a crítica jornalística é a menos prestigiada e aquela que possui menos autoridade, ao passo que a crítica académica tende a ser a mais legítima e aquela com maior estatuto social. Ora, a primeira tende a ser repreendida pela segunda como superficial e como incapaz de prestar atenção suficiente às obras importantes. Dito de outro modo, a crítica académica considera os seus critérios de selecção, interpretação e análise mais adequados dos que aqueles em que se estriba a crítica jornalística. Todavia, nenhum dos três níveis de crítica pode dizer que possui, em relação aos outros, uma melhor capacidade selectiva. Todas elas assentam em bases epistemológicas e metodológicas muito frágeis e se baseiam em premissas normativas e em juízos de valor sobre o que deve ser a boa literatura. Como é óbvio, uma afirmação assente em juízos de valor não é testável empiricamente, não pode ser nem confirmada nem falsificada. Logo, não há razão para nenhuma delas se assumir como mais bem fundamentada, como mais acertada ou como mais objectiva. Assim se percebe que os desacordos entre discursos críticos raramente sejam eliminados através de uma discussão racional ancorada em argumentos empíricos.

Não se pretende com isto que a crítica deve proceder de outra forma. Apenas que talvez seja útil não esquecer estes aspectos quando falamos de crítica e questões adjacentes. E que o reconhecimento da crítica jornalística (que acompanha, comenta e analisa a literatura contemporânea, aquela que vai sendo publicada todas as semanas e todos os meses), apesar de todos os diagnósticos pessimistas e de todos os discursos da crise, continua a ser fundamental na criação da identidade dos escritores.

Para uma análise mais desenvolvida, aconselho os textos de Cees J. Van Rees: "How a Literary Work Becomes a Masterpiece: on the threefold selection practised by literary criticism", Poetics, vol.12, nº 4/5, 1983, pp. 397-417 e "How Reviewers Reach Consensus on the Value of Literary Works", Poetics, vol.16, nº 3/4, 1987, pp.275-294.

segunda-feira, abril 03, 2006

 

Rectificação

Do Professor Abel Barros Baptista recebi esta mensagem:
«Eu não disse que "nem toda a gente tem direito a ser editada". Disse que publicar um livro não é um direito. Muito diferente.»

Erro meu de interpretação. As minhas desculpas.

 
Pretendia eu, serenamente, retomar a actividade do Esplanar (parada durante algum tempo, por razões que só a mim dizem respeito), quando me cai em cima um Procedimento Cautelar. Uma pilha de papéis, perto de 100 folhas, remetidas pela 8ª Vara Cível de Lisboa. Como devem calcular, não é agradável. Só um cínico, e nestes dias conheci muitos, pode dizer que isso «é muito bom para ti». Pois não tem sido. Não me vou aqui lamentar de como a minha vida foi afectada, negativamente afectada, por toda esta agitação. E de como anseio (depressa, rápido, urgentemente) regressar à minha vida pré-Providência Cautelar. Muita gente, gente muito estúpida e muito orgulhosa da sua estupidez, diz que o que eu pretendo é ficar famoso. Esquecem-se que, não tivesse a Marca Registada e respectiva editora desencadeado todo este processo, e nada disto teria acontecido. Nada de jornais, nada de entrevistas, nada de televisão. Mas a partir do momento em que me vejo perante um processo de tribunal, é normal e é humano que me queira defender.

Há meses, algum tempo após a publicação, no Esplanar, do texto sobre a Marca Registada, o valter hugo mãe, que não conhecia, desafiou-me a editá-lo. Claro que eu disse que sim. Era trabalho meu, e que trabalho me deu, e toda a gente tem direito a essa pequena vaidade que é ser-se (e ver-se) editada (ainda hoje estou para perceber uma tirada do Professor Abel Barros Baptista, no encontro da Casa Fernando Pessoa, quando disse que nem toda a gente tem direito a ser editada; infelizmente, não fui esclarecido). Perante o convite, atire a primeira pedra quem não tivesse tomado a mesma decisão, ou seja, editar o livrinho. Só posso compreender a reacção de certas pessoas num contexto de inveja. No entanto, como disse o Francisco José Viegas no último texto da revista de sábado do DN, "uma coisa é ainda melhor se causar inveja em alguém".

Sobre o encontro na Casa Fernando Pessoa, algumas coisas a dizer. À esmagadoria maioria das pessoas, pelos vistos, o que interessa é a confusão e a contra-informação. Eu nunca jamais em tempo algum disse que não se deve escrever sobre amigos. O que eu disse, e que fique aqui bem claro e de forma categórica, foi isto: escrever sobre amigos que escrevem uns e outros NO MESMO LOCAL DE TRABALHO (ou seja, na mesma publicação, jornal, revista, etc) revela falta de profissionalismo e deixa-me suspicaz quanto à sinceridade da opinião. Estamos sempre, sublinhe-se, no contexto da crítica jornalística, de fora fica, por conseguinte, o ensaísmo literário académico ou outro.

Achei piada a alguns editores quando disseram que os textos escritos nos jornais não afectam as vendas dos livros. Gostaria então que me explicassem por que é gastam tanta energia a contactar jornais, a pedir espaço para os seus livros e, pior, a protestar quando as opiniões não lhes agradam. Já se passou comigo: um editor não gostou de um texto meu e, zangadíssimo, telefonou para o jornal, fazendo pressão, ameaçando, etc.

A crítica jornalística, em geral, utiliza termos abstractos (mas com uma aura técnica), termos opacos que permitem todas as interpretações. Por exemplo: José Mário Silva, na Casa Fernando Pessoa, veio outra vez com a história de que a crítica dele ao livro do Nuno Costa Santos era negativa. Para o justificar, referiu a expressão «poemas escritos no fio da navalha». No sábado, ao ler a crónica da Clara Ferreira Alves, sobre o último livro de Gabriel García Marquez, deparo-me com isto: «andar sobre o fio da navalha é o trabalho do génio». Repito: termos abstractos, opacos, passíveis das mais diversas e contraditórias interpretações. É assim que se faz uma carreira de crítico nos jornais.

É a última vez, juro-vos, que volto a falar sobre esta história dos amigos. Quem quiser continuar, por razões corporativas e outras, a afirmar que eu sou contra a escrita sobre livros de amigos seja em que circunstâncias for, está no seu pleno direito civil. Pela minha parte, já disse o que tinha a dizer.

Entretanto, como é óbvio, o Esplanar continua. Por vezes mais assíduo, outras menos, ou porque a vida não mo permite, ou simplesmente porque não me apetece. Quem me tem lido perceberá que muitos dos textos que aqui coloco são fruto de muito trabalho, horas e horas de leituras. E, sendo assim, não é fácil postar todos os dias. Além disso, há muitos textos que no final não me agradam e que, por isso, não conhecem a luz do blogue. A vossa paciência, portanto.



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