ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

quinta-feira, março 31, 2005

 

A palavra perfeita

Heidegger debruçou-se muito sobre o problema e, talvez como nenhum outro, soube explicá-lo numa expressão feliz - a busca do ser humano é uma procura incessante pela palavra-mestra.
É claro que a maioria das pessoas não pensará nestes termos - “De que diabo está este tipo a falar?”, devem dizer. Mas a verdade é que tudo quanto fazemos na vida é um esforço de comunicação. Esse é o grande abismo que nos separa dos animais ou das plantas. Porque não nos basta existir. Por muito que nos achemos realistas quando dizemos que o importante são outras coisas, o prazer e a dor que alcançamos ou de que fugimos, no limite, o que nos deixa à beira do céu ou do inferno é o sucesso ou o fracasso de um acto de comunicação.
No fim, todos queremos ser compreendidos. Que o outro saiba o que sentimos. Porque, por muitos filhos que tenhamos e família e amigos e colegas e amantes, estamos sempre irremediavelmente sozinhos a cada momento do universo.
Os artistas têm muito esta pose: de não quererem a compreensão, de dispensarem isso. Mas é por demais evidente que são quem mais procura o contrário: querem ser ouvidos, lidos, entendidos. De contrário, estavam quietos, em silêncio, na mudez do seu bastidor.
Eu quero que o outro saiba a minha dor, o meu amor, a minha alegria; quero que o outro pressinta como vejo o mundo, a angústia que se alimenta do meu interior.
Do “logos” grego ao “verbo” latino que, no começo do Evangelho, estava com Deus e era Deus e lhe mostrava o mundo, a tradição do pensamento compreendeu cedo o problema. Cada vida humana é uma tentativa de resposta a essa questão. A palavra-mestra, a palavra final que leve em si a própria coisa de que fala e não seja uma mera representação. A palavra perdida do Arquitecto para os maçons. O que quer que eu ande aqui a fazer, escrevendo diaramente estas crónicas, sem saber onde ecoam.
Alexandre

 

Um pais para Jessica Rabbit

Nota: Espero que a Casa da Imprensa ande atenta a estas crónicas e eleja, de pronto, este título como o mais insólito da década. Melhor, só me consigo lembrar de: “O Homem Que Matou Luís Pereira de Sousa”.
Jessica Rabbit. Porquê? Certamente, todos se recordam desse filme sem género, “one of a kind”, que foi Who Framed Roger Rabbit?, de Robert Zemeckis, nos idos de 88. E todos se lembrarão melhor ainda da personagem de Jessica, esposa do coelho, mas com morfologia de mulher humana - coisa tão colossal e anterior à era das bonecas virtuais que põe a um canto, num piscar de olhos, Lara Croft. Havia uma cena fenomenal em que ela, perante a incredulidade de Bob Hoskins (“Mas, afinal, o que vê você nele?”) e meneando o corpo voluptuoso, dizia, pela voz ultra-sexy de Kathleen Turner, esta frase muito simples: “He makes me laugh.” Ele faz-me rir.
Parecendo que não, a cena revolucionou o mundo: a partir daí, da candidata a Miss Universo à d. Deolinda de Mangualde-o-Novo, todas as mulheres, quando questionadas sobre o que mais as atrai num homem, passaram a responder assim: “O sentido de humor”.
Portugal inteiro deveria pôr os olhos nisto. Continuamos a mexer em tudo com pinças, como se o quotidiano fosse um dogma, sacralizando e desporcionando a importância das coisas. Enquanto cá não se pode tocar no assunto Casa Pia, por exemplo, os “late nights shows” americanos fazem verdadeiras maratonas de piadas sobre o caso Michael Jackson. Fazem bem. Expurgam os medos. Matam os fantasmas. Seguem em frente. Nós não. Ficamos aqui deprimidos como uma personagem de Kafka, como se carregássemos todos um novo pecado original que não cometemos. E não queremos nada com a vida.
Portugal deve querer agradar a Jessica Rabbit. Ou, então, acaba um parolo solitario que bebe copos no balcão do Xico, nas noites em que não haja bola.
Alexandre

 

Nao ha portugueses

Dias atrás, recebia uma carta de uma amiga mexicana em que, posta em dia a conversa sobre as nossas coisas do costume (a poesia, o projecto comum em que estamos a trabalhar, o estado de saúde do filho e por aí afora), dedicava largos parágrafos à situação económica do seu país. Dizia que o México vive um momento muito difícil e que, por isso, a sua vida estava mais complicada: trabalhava a dobrar, esforçava-se como nunca, tinha muito menos tempo para si, para a família, para os livros. E, assim como ela, também Octávio, o marido, os amigos, os vizinhos e todas as pessoas que conhecia. Terminava, desse modo, a carta. Mais que as despedidas e os pedidos de resposta rápida, os beijos, abraços e “post scriptums”, falava desta tristeza e da esperança que lhe sucede: a Jeanne, como todos os mexicanos, empenhava o seu tempo e o seu esforço em prol do país porque, se a vida lhe era mais difícil com o Estado debilitado, seria, certamente, mais fácil com um Estado fortalecido.
Nunca ouvi falar de nada semelhante em Portugal. O desemprego aumenta, a dívida externa, os preços sobem, os impostos, o poder de compra diminui, o País perde dnheiro, apoios, fica a falar sozinho, cada vez mais sozinho, fraco e pobre. Alguém diz que vai sacrificar a sua vida por isso? Trabalhar mais para que a produção nacional suba e, por consequência, a sua vida melhore? Não. Nem nos passa pela cabeça. Queixamo-nos, eventualmente tentamos poupar e sentamo-nos, esperando dias melhores, que venha aí um novo governo que resolva todos os nossos problemas para que compremos aquela casa ou troquemos de carro ou façamos, enfim, aquelas férias no Brasil.
Se Portugal fosse uma equipa de futebol, lutaria para não descer. Teria um daqueles balneários frios em que ninguém fala com ninguém e se troca de treinador compulsivamente, à espera que um milagre lhe caia nas mãos.
Alexandre

 

A deriva de Freitas

A provocação própria de virgem ofendida agora encetada pelos responsáveis (?) do PP, retirando do seu “shrine” de líderes a fotografia de Diogo Freitas do Amaral para a enviar ao Largo do Rato, tem tanto de interessante como de primário: interessante porque nos entreabre a porta para o edifício do Caldas e para as reacções dos populares ao receber a notícia de que Freitas integraria o novo executivo socialista (imaginamos Portas a engolir um cigarro, Telmo Correia a engasgar-se com a sopa, Nobre Guedes a estilhaçar os óculos com o punho cerrado); primário porque não vai além dos apupos que os No Name Boys lançam a qualquer ex-benfiquista que passe pelo relvado da Luz com a camisola do adversário ou dos impropérios gritados pela Juve Leo, a cada toque de Simão Sabrosa na bola, de encarnado vestido. É uma espécie de ciúme; uma aplicação do ressabiamento; a revelação da incapacidade de ser maduro, racional, objectivo.
Que o percurso de Freitas do Amaral é invulgar, isso será com certeza. Podemos estar de acordo ou não com a sua passagem da direita para a esquerda, mas é preciso, em todo o caso, admirar o simples movimento. Freitas é um senador, um histórico. Não precisará de provar nada a ninguém; nem de mais prestígio; seguramente, não está aflito com falta de dinheiro. E saberia à partida (Oh! Como ele o saberia…) que, ao tomar esta decisão, se sujeitava à condenação ao fogo eterno; a colocar o pescoço na guilhotina dos críticos; a exibir-se, enfim, com a camisola verde diante da curva da bancada encarnada.
Freitas poderia passar o resto da sua vidinha, tranquilamente sentado no cadeirão, a tecer considerações sobre a miséria do debate político actual, como fazem outros senadores. Mas não o fez. Chegou-se à frente. Como diriam ingleses, “puts his money where his mouth is”. E isso tem de ser louvado.
Alexandre

 

O principio do Socratismo

Justiça lhe seja feita: Sócrates começa bem. Se, depois de ganhar as eleições, proferiu o discurso de vitória mais redudante e polvilhado de lugares-comuns da História do Homo Sapiens Sapiens, a partir daí parece ter acertado o passo. Antes de mais, soube cumprir a sua primeira promessa: escolher o elenco governativo em regime de total confidencialidade. Mostra eficiência e, sobretudo, inteligência porque, assim, ninguém poderá partir do preconceito com que muito padeceram os governos anteriores, de que eram segundas e terceiras escolhas e por aí adiante. Depois, rodeia-se de um número restrito de ministros; equilibra socialistas e independentes; captura Freitas do Amaral e deixa de fora a “tralha” que lhe parecia ser assustadoramente próxima (vide José Lello e Edite Estrela, por exemplo).
Sobretudo, fica desfeita a suspeita do grande perigo que adviria de um regresso do PS ao poder, precisamente aquela com que tanto acenou o PSD de Santana Lopes: o retorno dos rostos que precipitaram o País na crise. É claro que está aqui gente de Guterres, mas está a melhor: António Costa, Alberto Costa e Mariano Gago, por exemplo (se bem me lembro, o único ministro que sobreviveu às 4.237 remodelações desses governos da era da rosa). O “guterrismo”, de resto, é um mito, uma coisa que não existiu; utiliza-se a palavra apenas por comodismo de linguagem, assim como não houve um “barrosismo” (começou por ser um ímpeto reformista, mas jamais chegou a concretizar-se) ou, muito menos, um “santanismo”. Os últimos governos foram de uma fragilidade angustiante, não foram programáticos, não merecem os “ismos”. Este, faça-se-lhe a vénia, pelo menos começa com sinais de força. Esperemos, para bem de todos, que seja apenas o princípio do “socratismo”.
Alexandre

 

Mais papista que o Papa

Não venhas agora, caro João Pedro, querer ser, literalmente, mais papista que o Papa. Só porque a Helena Matos não te convidou para a coisa. Pronto, já passou. Repara, contudo, que esse é o maior dos elogios. Mau gosto? A minha mãe gostou. Nada mais me importa. Não tem piada. João Pedro não achou piada. Ai. Não tem piada. João Pedro não achou piada. Ena. Não tem piada. João Pedro não achou piada. E agora, meu Deus? Não terá piada nenhuma, concedo. Ou melhor, concedo que aquilo não tinha piada se concederes que há uma diferença entre aquilo não ter piada e tu não achares piada àquilo. Pensando melhor, não concedo nada. João Pedro - pázinho - tu és grande e tudo o mais - isso está fora de causa - mas não és a medida de todas as coisas. Em qualquer caso, não tenhas tanta pressa em te arvorares no certificador oficial (com boina, pica e bigode) da piada e bom gosto dos outros. Bem vês que estou extremamente incomodado. Sabes porquê, não sabes? É que eu não sei brincar. Rui

 

A Maioria Absoluta

A esquerda está em crise. Crise de ideias e crise de espírito auto-crítico (esta não é de agora, mas é sempre bom lembrar). Depois de ganhar as eleições, a esquerda (cultural) está nervosa. Está com medo. O post do Rui, mesmo aqui em baixo, é um exemplo disso. Mas não só. É também um exemplo de mau gosto. Não pensem, porém, que defendo a censura do mau gosto. Não. Não vos dou esse prazer. Defendo, com todas as forças, a liberdade do mau gosto. A liberdade de ser vulgar, a liberdade de não ter piada. E se essa liberdade é um direito inalienável, criticar e zurzir esse gosto mui duvidoso é igualmente invendível. O Rui pode lembrar-se, sugerir as almofadas que quiser mas, caro amigo, é foleiro (tal como aliás o post do blog de esquerda comparando o Vaticano com a União Soviética - e eis aqui a crise de ideias - um post já devidamente metido na ordem pel'O Acidental). O Público lançou uma revista de direita. Ó céus!, que atrevimento.

João Pedro

 

Público, o Júlio Isidro da Nova Direita portuguesa

Não vá mais longe. Não procure mais. Vem ter consigo. A nova direita vem agora à boleia com o Público, sob a forma de encarte à borla. Depois da revista «Nova Cidadania», noutro dia, a revista «Atlântico», hoje. Para a semana, o Público traz o Papa-em-almofada, daquelas felpudas para colocar no assento de trás do carro. Rui

 

Revista à portuguesa

Já se falava nisso há uns tempos nos condomínios fechados, nos bares de jazz e nas casas de strip do Ribatejo, mas só agora é que se concretiza. O Público traz hoje uma revista mensal chamada «Atlântico». Pelos nomes e pelo espírito que parece envolver a coisa, fiquei curioso. A revista traz um conto do João Tordo, talentoso amigo que nunca mais vi. Um abraço ao João e boa sorte aos tripulantes. Nuno

quarta-feira, março 30, 2005

 

Leiam. Há espaço para comentários.

A partir de agora podem encontrar-me no Não Sei Brincar.

João Pedro

 

A missao

Andei o ano passado a dar um pequeno curso de literatura portuguesa contemporânea a alunos do secundário. Aos meus ainda-mais-jovens-que-eu alunos, tentei passar o pouco que sei. E, mais que a leitura e estudo das três obras que haviam escolhido, tentei concentrar-me num esforço: se estavam ali, mais certo que quererem ser leitores era o desejo de crescerem escritores. Na última aula, coroando breves monólogos sobre o assunto, ao terminar de cada sessão, ofereci-lhes uma lista de máximas, conselhos aos jovens artistas, compendiada por um grande amigo, a que me limitei a acrescentar duas ou três ideias pessoais.
Uma delas, recordo-me, dizia mais ou menos o seguinte: “O verdadeiro escritor pode não escrever hoje nem amanhã, nem durante uma semana, um mês, anos. Mas recordar-se-á, todos os dias, da sua essência.” Já nem sei bem quem era o autor (talvez Patricia Highsmith), mas era, certamente, daquelas que mais ecoava dentro de mim. Verbalizava a angústia que de mim se apodera quando não escrevo; quando não me dou tempo de escrever; quando dou tempo e, simplesmente, não consigo. Em simultâneo, nunca duvidei de que fosse escritor, no sangue, nos ossos. E, bem mandado pela máxima anterior, lembro-o a mim mesmo todos os dias.
Serve a crónica de hoje, pois, para, por um lado, deixar aos potenciais interessados esta ideia-chave daqueles que ambicionam trabalhar nas obras da literatura; por outro, para confessar a alegria que me vem transportando por, nos últimos tempos, ter regressado, enfim, à escrita regular. Aos meus amigos mexicanos que possam ler, via net: fiquem descansados: já terminei o Heartbreak Hotel, livrinho de poesia que estava prometido. Quanto à Dra. Manuela Cardoso, da Presença: não se preocupe - já regressei ao romance e parece que, desta, será de vez. Daqui dois ou três meses, estará aí consigo. Palavra!
Alexandre

 

A inveja

Assistindo, dias atrás, à estreia do magnífico Berenice, de Racine, pela companhia belga STAN (que inclui o nosso “muito cá da casa” Tiago Rodrigues), fui atacado por esse sentimento de que tanto acusa os portugueses José Gil, no seu Portugal Hoje: o Medo de Existir: a inveja.
Via os actores deambular por entre a plateia, na Casa dos Dias da Água, num espectáculo que fere a máxima de Peter Brook, segundo a qual tudo quanto necessita o teatro é de uma carpete vermelha que crie o território do palco, e, por vezes, afastava a atenção do texto para me concentrar nos seus rostos, nas vidas que lhes foram possibilitadas pela carreira que escolheram.
Era a terceira vez que os via, anos depois de 2 Antigones e Questionism. Sempre os espectáculos em idiomas estrangeiros que lhes permitem correr a Europa, palcos principais e alternativos um pouco por todo o lado. Do meu lugar periférico, julgo que era capaz de reconhecer grande parte dos rostos dos espectadores e pensava que isso lhes era impossível, que isso lhes foi sempre impossível. Já nem devem pensar no assunto. Se terão alguém para abraçar no fim do espectáculo. Porquem partem e repartem por aí, sem uma casa concreta.
E invejo-os, obviamente. Pelo meu medo de partir. Pelo risco que não quis correr de apostar numa carreira de actor que ainda chegou a dar alguns passos. Recordar-me da extraordinária sensação dos aplausos, de chegar ao fim, de conseguir comover quem não se conhece.
STAN significa “Stop Thinking About Names”, mas, durante a peça, o que dizia para mim próprio era “Stop Thinking About Nvy” (como quem diz “envy”: inveja”). E concentra-te no amor fracassado de Berenice, Titus e Antíoco. Dá-te por feliz por estares aqui e teres a oportunidade de transformar um mau sentimento em material literário…
Alexandre

 

O turno da noite

Estaria a escrever un guião para qualquer coisa, numa daqueles noites de clausura em que os relógios funcionam como cronómetros, andando de modo decrescente até ao amanhecer, quando o dia seguinte começa e termina o prazo dado para a entrega daquele trabalho particular. Enchemos a secretária de bens de primeira necessidade (maços de cigarros, cinzeiro, copo e garrafa de qualquer coisa, pacotes de bolachas que nos segurem à vida; a almofada na cadeira que impeça dores lombares até ao ano seguinte; e esse relógio-cronómetro que não nos perca da realidade). Nem um olhar para a cama aberta - nem pensar em cair em tentação.
Já devo ter feito centenas de noites destas. São tão familiares como beber copos com os amigos ao sítio do costume, tal modo que já sinto agrado quando me preparo para enfrentar uma nova. Os guiões, os textos, os livros, as ideias para a reunião, a sinopse, o projecto - termos comuns no léxico de quem anda nestas profissões de escriba, todas elas anexas a essoutra expressão: “prazo”. Ou, na versão integral: “prazo de entrega”, “data de entrega” - “deadline”, como se usa, cada vez mais, no ameaçador modo anglo-saxónico.
Por isso, dou comigo a agradecer a televisão por cabo. Não que me possa dar ao luxo de olhá-la nestas noites, mas porque, assim, sei que mais alguém está acordado, mais alguém trabalha noite fora e desafia o correr lento da madrugada. Apetece espreitar o ecrã e piscar o olho com cumplicidade. “Também eu estou por aqui, amigo”; “vamos enfrentar isto juntos”; “força, companheiro”.
Por isso, camaradas da SIC Notícias, esta crónica é-vos dedicada em particular. Na próxima noite de corrida contra o tempo, façam o favor de piscar o olho também, entre uma notícia e outra. Aqui estarei, deste lado, com uma mão no teclado e a outra no balde de café, a acompanhar-vos no turno da noite.
Alexandre

 

Perolas do jornalismo

Há dias, trazia a Sábado esta deliciosa notícia, intitulada: “Auster vem a Portugal”:
“O êxito de Paul Auster em Portugal está a provocar um fenómeno curioso: a editora que publica o autor (ASA) decidiu recuperar romances mais antigos e publicá-los. Aconteceu assim em Fevereiro com Pensei Que O Meu Pai Era Deus, lançado nos Estados Unidos em 2001, segue-se agora Música Ao Acaso, um romance publicado em 1991, mas que só chegará em Maio a Portugal. A apresentação será feita pelo próprio Paul Auster que vem a Portugal nessa altura.”
Ponto 1: Extraordinária esta capacidade de arrumar quatro vezes a palavra “Portugal” num texto tão pequeno.
Ponto 2: Quando fala do “êxito” que “está a provocar” Auster entre nós, não estará o autor da peça a confundi-lo com Dan Brown ou J.K. Rowling? É que não foi, seguramente, agora que Auster começou a vender por cá, aliás, já vendeu, por certo, muito mais que hoje.
Ponto 3: Será reeditar “um fenómeno curioso” e não uma prática absolutamente comum?
Ponto 4: A ASA, uma das maiores, senão a maior casa editorial nacional, merecerá ser tratada assim: “a editora que publica o autor (ASA)?
Ponto 5: Saberá quem escreveu isto que Pensei Que O Meu Pai Era Deus é uma antologia de contos de uma série de autores, que Auster não escreve uma linha e apenas compendiou os textos?
Ponto 6: Quando diz “Música Ao Acaso”, estará a falar de A Música Do Acaso (The Music Of Chance)?
Ponto 7: “Só chegará em Maio a Portugal”?! Não está, há muitos anos, esse livro publicado entre nós, mas por outra editora?
Enfim, uma pequena pérola. Ou de como dizer o maior número de disparates possível em apenas 300 caracteres. Valha-nos que o homem, ao menos, vem mesmo cá.
Alexandre

 

So mais uma coisa...

Antes de abandonar, por uns tempos, a política como prato principal destas crónicas, há ainda mais uma coisa a dizer.
Seria bom que os pequenos partidos reconsiderassem o seu papel, a sua capacidade de representação do eleitorado, o que andam, enfim, aqui a fazer. Aconteceu que, nas eleições, o branco foi elevado a sexta potência política nacional, com 103.555 votantes. O Partido da Nova Democracia teve, por exemplo, cerca de 40.000. E já nem falo no MRPP de Garcia Pereira, que parece ter comprado lugar cativo na plateia do espectáculo político em Portugal – é uma espécie de apaixonado pela arte da representação que vai a todos os castings, mesmo que nunca ninguém lhe dê um papel.
Muitos censurarão o voto em branco; acharão que é uma demissão das suas responsabilidades por parte do cidadão. Mas há uma grande diferença entre quem se abstém e quem vota em branco e, nesse sentido, Saramago tinha, por uma vez, toda a razão: quem se abstém, está-se nas tintas, goza o domingo, acha que já sabe quem vai ganhar, não vê razão para sair de casa; quem vota em branco, dá-se ao trabalho, perde o domingo, sai de casa, vai para a fila, agarra no papelinho com as opções disponíveis, dobra-o, entrega-o. Diz: nenhuma serve. Mais: sabe, à partida, que esse trabalho a que se deu, de nada servirá. É por isso que é um gesto tão nobre. Afinal, qual é a dignidade do voto útil, de eleger o menos mau?
Proponho uma Assembleia em que sejam considerados os números de votos brancos. Se forem suficientes para eleger deputados, lá estarão eles, os lugares vazios, retirando vagas para os outros. Representando menos um ou dois ou três ordenados porque, afinal, foi essa a vontade do eleitorado. Além de ser mais democrático, talvez aí, o resto do pessoal comece a pensar se não estará na hora de mudar a sua maneira de fazer política.
Alexandre

 

Os dias do Bloco

O Bloco de Esquerda é um fenómeno interessante: nasce da união de três forças políticas com pouca ou nenhuma expressão e transforma-se, desde o primeiro dia, num partido com público. Tem este nome – Bloco – e funciona como tal. Desde que nasceu até hoje, nunca se ouviu falar de qualquer discordância entre PSR, UDP, Política XXI. À medida que vai chegando gente nova, nem se põe o problema: são militantes do Bloco, não de nenhuma das facções. Não perde votos; pelo contrário, vai crescendo de eleição em eleição, como um organismo biológico. E salda-se como a força política que mais cresceu nas últimas legislativas.
Mas o Bloco é, creio, algo que implodirá pela sua própria definição, ou melhor, pela falta dela. O Bloco não é uma tábua de valores nem tem verdadeira representação social. À parte os jovens de hoje, entre os 18 e os 20 anos, que crescerão, inevitavelmente, mas que, por hora, se vestem com as roupas uns dos outros e gritam aquilo que os jovens de todas as sociedades gritam – anarquia, amor livre, abaixo o sistema – quem representa o Bloco?
A auto-destruição teria sido mais rápida caso ascendesse, agora, ao poder, se o PS não obtivesse a maioria absoluta e, num momento de loucura, se decidisse por uma coligação com o partido de Louçã. Porque o Bloco não existe sem manifestações, cartazes, sururu (como eu gosto desta palavra de origem zulu). E, sobretudo, porque os seus jovens barbados não seriam capazes de realizar a revolução: então o sistema contra o qual se levam era, agora, encabeçado pelos seus?
Mas a detonação acontecerá, de qualquer maneira. Afinal, que partido sobrevive sem ideologia? No dia em que aborto, casamento entre homossexuais e consumo de drogas forem liberalizados, o Bloco deixará de ter por que gritar. E quem não tem por que gritar, silencia-se. E quem se silencia, deixa de existir.
Alexandre

 

Coisas que me irritam na esquerda:

Agora que a Esquerda ergue o ceptro do poder entre nós, permitam-me que tire, finalmente, proveito da fama que tenho de ser fascista. Aqui vai, pronta para me criar mais alguns inimigos, uma breve lista daquilo que me irrita numa certa Esquerda.
Quem é de Esquerda adora gritá-lo aos quatro ventos como se fosse, em si próprio, um motivo de orgulho. Nunca viram ninguém dizer que era de Direita sem que lho tivessem perguntado primeiro.
A Esquerda é absolutamente intolerante. Se, num grupo de gente de Esquerda, se apercebem de que lá está alguém de Direita, esse alguém é, de pronto, ostracizado, insultado e, em alguns casos, acusado de ser co-responsável por Auschwitz.
A Esquerda tem memória curta. Um tipo de Direita terá sempre de responder pelo Holocausto. Um tipo de Esquerda nunca tem nada a ver com os Gulag ou a Revolução Cultural.
A Esquerda tem a mania que inventou a cultura. A cultura é deles. Um tipo culto tem de ser de Esquerda. Mas, se os artistas quisessem ser de Esquerda ou de Direita, tinham ido para a política, não teriam sido artistas. E apreciar um bom romance ou um bom quadro ou um bom filme é uma emoção estética. Não é preciso ter cartão de militante para sentir.
A Esquerda tem a mania que inventou a Ecologia. Quem não separe o lixo não é negligente – é um perigoso fascista. Como se o ambiente não fosse um valor situado também para além da política.
A Esquerda gosta de estar do lado dos pobrezinhos. Mas a Esquerda é, em geral, de um novo-riquismo insuportável. Se não é, que deixe de aparecer em público com grandes Cohiba na boca a fazer-nos sentir uns pés-rapados.
A Esquerda enerva-se com este tipo de manifesto. Porque a Esquerda se confunde com o Bem. Logo, quem atacar a Esquerda só pode ser de Direita, só pode ser nazi, só pode ser o Mal.
Alexandre

 

O poder dos mais melhores bons

Passo cada dia da minha vida
preocupado com as coisas em redor
sou sensível e sou humano
provavelmente, sou o melhor
no meu coração albergo um amor sincero
pelos meninos do mundo inteiro
cada tragédia nacional
é o meu território natural
porque o sofrimento é omnipresente
ouço a voz da minha consciência.

Imagino um povo multiracial
e um Estado muito social
que despenda fundos com prodigalidade
porque o meu lema é a hospitalidade
penso no problema dos albaneses
dos marroquinos, dos senegaleses
é preciso dar uma habitação
aos clandestinos e aos seus parentes
e para os ciganos uma pensão
com minibar e televisão.

É o poder dos melhores
é o poder dos melhores
já estou inscrito em mais de mil associações
é o poder dos melhores
e por todo o lado faço manifestações.

É o poder dos melhores
é o poder dos melhores
é o poder...dos melhores...

Passo cada dia da minha vida
preocupado com as coisas em redor
tenho uma paixão incandescente
por animais e meio ambiente
penso nas víboras cada vez mais raras
e no respeito pelos mosquitos
nestes tempos tão imorais
eu penso nos habitats naturais
penso na coisa mais importante
que é abraçar as plantas.

Penso na reinserção dos criminosos
das putas e dos transsexuais
penso no stress dos inundados
no tempo livre dos aprisionados
penso nas novas formas de pobreza
que dão muita visibilidade
penso no belo que é sentir-se o melhor
usando o dinheiro dos italianos.

É o poder dos melhores
é o poder dos melhores
construído sobre as tragédias e as frustrações
é o poder dos melhores
que amanhã pode dar jeito
para as eleições.

É o poder dos melhores
é o poder dos melhores
é o poder...dos melhores...

[trad. Giorgio Gaber, «Il potere dei più buoni», La mia generazione ha perso, 2001]
Rui

terça-feira, março 29, 2005

 

O fim do romance

Só posteriormente notei que, na nossa edição de domingo, dia de eleições [A CAPITAL de uns já idos de Fevereiro], ainda por cima, uma classe de pessoas dominava o jornal e não era, surpresa das surpresas, a classe política. Da página 4 à 12, estendíamo-nos por uma conversa singular entre Pacheco Pereira e Eduardo Lourenço. Pouco depois, no balanço da semana cultural, dois nomes pairavam sobre os dias: José Gil e António Franco Alexandre. Que une todos eles? A Filosofia. São todos filósofos, portugueses, contemporâneos, de méritos reconhecidos. Algum deles tem poder? Poder real, efectivo, imediato, pragmático? Não. Zero. Todos são professores, escritores, livres-pensadores, como agora se diz.
Por um lado, muito me honra que tenhamos sabido estar atentos à importância destas figuras. No mesmo sentido, alegra-me que quatro filósofos sejam tão relevantes e dignos de louvor e atenção pública. Por outro, tomo, de modo inadvertido, mais um banho de realidade: a filosofia, o pensamento livre, a reflexão pura, distanciada do mundo, não tem lugar nas cadeiras do poder.
O sonho platónico do rei-filósofo morreu com o sangue da Revolução Francesa. Depois de Kant, só Hegel foi capaz de ainda delirar com a ilusão de que as sociedades, alguma vez, seriam comandadas pela pura razão e, desde logo, pelos homens mais capazes dela.
O tempo seguiria outros caminhos. A filosofia não põe pão na mesa – pois claro que não – essa é a sua maior virtude: não servir para rigorosamente nada em concreto, porque deveria servir todos e estar inscrita na génese de todas as coisas.
Mas o mundo não compreende isto. Como Nietzsche, símbolo dos desiludidos, bem escreveu, é a vontade de poder que movimenta o devir. E os sábios sempre desprezaram o poder. E o poder sempre gostou de sábios para servir de bibelot, colocados na estante, para aparecerem atrás de si, nas fotografias.
O resto, caro leitor, é conversa.
Alexandre

 

O fim do romance

Só posteriormente notei que, na nossa edição de domingo, dia de eleições [A CAPITAL de uns já idos de Fevereiro], ainda por cima, uma classe de pessoas dominava o jornal e não era, surpresa das surpresas, a classe política. Da página 4 à 12, estendíamo-nos por uma conversa singular entre Pacheco Pereira e Eduardo Lourenço. Pouco depois, no balanço da semana cultural, dois nomes pairavam sobre os dias: José Gil e António Franco Alexandre. Que une todos eles? A Filosofia. São todos filósofos, portugueses, contemporâneos, de méritos reconhecidos. Algum deles tem poder? Poder real, efectivo, imediato, pragmático? Não. Zero. Todos são professores, escritores, livres-pensadores, como agora se diz.
Por um lado, muito me honra que tenhamos sabido estar atentos à importância destas figuras. No mesmo sentido, alegra-me que quatro filósofos sejam tão relevantes e dignos de louvor e atenção pública. Por outro, tomo, de modo inadvertido, mais um banho de realidade: a filosofia, o pensamento livre, a reflexão pura, distanciada do mundo, não tem lugar nas cadeiras do poder.
O sonho platónico do rei-filósofo morreu com o sangue da Revolução Francesa. Depois de Kant, só Hegel foi capaz de ainda delirar com a ilusão de que as sociedades, alguma vez, seriam comandadas pela pura razão e, desde logo, pelos homens mais capazes dela.
O tempo seguiria outros caminhos. A filosofia não põe pão na mesa – pois claro que não – essa é a sua maior virtude: não servir para rigorosamente nada em concreto, porque deveria servir todos e estar inscrita na génese de todas as coisas.
Mas o mundo não compreende isto. Como Nietzsche, símbolo dos desiludidos, bem escreveu, é a vontade de poder que movimenta o devir. E os sábios sempre desprezaram o poder. E o poder sempre gostou de sábios para servir de bibelot, colocados na estante, para aparecerem atrás de si, nas fotografias.
O resto, caro leitor, é conversa.
Alexandre

 

A educaçao dos homens

[Em episódios anteriores desta coluna: a decepção com a política; a não-correspondência entre os grandes projectos filosóficos e a realidade prática; a angústia em não ser já capaz de suspender o cepticismo em relação aos políticos.]
Lentamente, mais importante que a política parece-me ser a educação. Se a educação funcionasse, a política deveria limitar-se a ser uma regulação das instituições públicas. Tal como acontece, hoje, existe apenas como remédio para os erros. E, se calhar, é por isso que fracassa. Por culpa dos eleitores, também. No fundo, é como no amor: se amamos o outro, não por aquilo que ele tem, mas pelo que nos falta, estamos condenados ao falhanço. Os amores funcionam entre pessoas sólidas, completas, com respeito por si próprias, confiança, em que o amado é, portanto, uma mais-valia na sua vida e não um paliativo para as dores. Feita a transposição para a política, com as devidas distâncias, a relação entre eleitores e eleitos fica com as feridas visíveis: eu que não trabalho e não tenho dinheiro; que estudei pouco e tenho um trabalho que detesto; que não estou atento às agendas culturais e sou um ignorante; que conduzia a 200 e fiquei numa cadeira de rodas. Depois, quero que os políticos me resolvam os problemas todos: que me dêem um emprego melhor, uma casa decente, um bom ordenado, cuidados de saúde, a cultura que não tenho. É claro que vai falhar, é claro que me vou decepcionar, é claro que vou contestar esse governo incapaz de me solucionar a vidinha.
Numa sociedade em que todos fossem devidamente educados: a estudar, a trabalhar, a cultivar-se, a poupar, a ter moral, civismo, respeito, humildade, governar seria a tarefa mais fácil do mundo. Por isso, muito mais me assusta um mau pai do que um mau primeiro-ministro.
Só espero ser capaz de o explicar no dia em que tenha um filho.
Alexandre

 

A margem da politica

Sempre que há eleições, sinto-me como uma mulher em dia de final da taça: mas para que Diabo é este barulho todo? Eles não te estão a ouvir… É só um jogo… Perderam, problema deles; ganharam, bom para eles… E não entendo o entusiasmo, não consigo, por muito que me esforce (e tenho-o feito), não sou capaz de o partilhar, de me envolver, de acreditar.
Compreendo todos os princípios teóricos, é claro. Não se trata de uma apatia negligente. Pelo contrário. Só acontece por já ter reflectido bastante sobre o problema. É claro que a política deveria ser a ciência mais nobre, a luta por escrever o livro dos homens, da sua coexistência, em direcção ao destino da História. É claro que compreendo a evolução dos tempos, as guerras contra as ditaduras, pelo direito ao voto, pela democracia. É claro que sei tudo isso e compreendo a dignidade do conceito, da ideia, do projecto, da ambição.
Mas é, precisamente, por compreendê-lo e por ser tão fiel aos princípios que me é biologicamente impossível entusiasmar com o que vejo. Palavras para ouvir e queimar; nomes para decorar e esquecer; homens para esperar para ver o que fazem e, depois, deixá-los cair e crucificar.
Que faz aquela gente toda na rua com bandeirinhas? Por que buzinam? Por que me tentam aqueles senhores enganar com palavras doces: “sonho”, “projecto”, “esperança”, “futuro”?
E, ao mesmo tempo, estou rodeado de gente inteligente e experiente que continua a vibrar com tudo isto. E não sei o que lhes dizer. Desculpem, talvez. Mas não me parece que esteja enganado. Leio a República, a Metafísica dos Costumes, a Teoria da Justiça, e não sei onde está a ficção, se nestes livros, se diante de mim.
Alexandre

sábado, março 26, 2005

 

ddr esplanar

Há quem não saiba brincar.
Rui

quinta-feira, março 24, 2005

 

Aforismo, o último

Casa roubada, trancas na porta.

Rui

 

Aforismo, mais um

«Mondovino» é o «Bowling for Columbine» do «Sideways».
Rui

 

Aforismo para ex-alunos do Colégio Moderno

Michael Moore é a Dra. Maria de Jesus Barroso da esquerda.
Rui

terça-feira, março 15, 2005

 

O novo primeiro-ministro

Quanto a Santana Lopes, estamos conversados; já tem sido autopsiado que chegue. Passemos a José Sócrates, o mais que evidente novo primeiro-ministro de Portugal.
As eleições costumam, apesar do desencanto crescente, encerrar um certo capital de esperança. Mas, este ano, o único ímpeto ao voto que se vislumbra tem outro nome: decepção. Com Santana, Durão, o PSD, talvez o PP. A energia que tirará de casa os portugueses no domingo é negativa, corrosiva, de morte. Dirige-se ao que acaba; não ao que começa.
E, ou vem por aí uma grande surpresa, ou José Sócrates não é o homem que mudará esse sentimento. A sua persona nada tem a ver com positividade, esperança, sonho.
Por isso e enquanto não é eleito e se oferece, assim, ao sacrifício público pelos colunistas do país, permitam-me que atire, já, as primeiras pedras:
1. Sócrates não sorri. Ao pé dele, Paulo Catarro é uma espécie de “smiley”.
2. É evidentemente vaidoso. E como convence o povo um vaidoso, alguém que se preocupa demasiado consigo e a sua aparência, de que a sua grande preocupação são os problemas dos outros?
3. Tem um tom de voz que não lembra ao Diabo e que, sobretudo, não tinha no tempo em que era ministro do Ambiente. Se qualquer um de nós aterrasse, agora, em Portugal, acreditaria em Santana. Jamais em Sócrates.
4. É, como dizia, há dias, Nuno Costa Santos, metálico. A expressão, o cabelo e os fatos platinados mais parecem do serial killer interpretado por Tom Cruise em “Colateral”.
5. É frio, calculista, estudado. Isto é, até poderá vir a ser admirado, mas nunca apaixonará ninguém.
6. Parece incapaz de perceber que tem de se distanciar de Guterres. E trocar a música de “1452” pela de “Gladiador” não chega.
A ver vamos, mas, ou muito me engano, ou não será nos próximos quatro anos que Portugal deixará de ser sorumbático.
Alexandre

 

O silencio a meio do ruido

Se o sucesso político se faz de uma boa gestão dos silêncios, como cada vez mais se defende e regista por aí, então, Jerónimo de Sousa está lançado. A sua prestação no momento decisivo (tanto quanto há ainda algo a decidir), no único debate entre todos os líderes dos partidos com assento parlamentar, foi de uma virtude e de uma invenção há muito desaparecidas da cena política nacional. Santana, perto dele, é um menino de coro. Ainda tem tudo a aprender sobre a arte da auto-fragilização. Bem apregoou que andava com gripe, mas ninguém lhe notou a rouquidão da voz, a palidez da pele, o recuo para além do que mostra a pantalha televisiva.
Acredito, como é óbvio, que Jerónimo estivesse genuinamente doente e que tenha sofrido com a situação e passado a noite em claro massacrado pelo embaraço: sangrar diante do inimigo - a violação de uma regra básica em qualquer combate. Falhar no Dia “D”. Maldita gripe! Maldito azar!
E, no entanto, se este debate será recordado pelo futuro, sê-lo-á, seguramente, por este acontecimento. E, se a CDU não conquistou aqui alguns votos, ganhou, por certo, uma simpatia por que já ninguém esperava. É o lado materno do ser humano, a piedade, o compadecimento.
A verdade é que Jerónimo soube aproveitar-se da situação: “Falta-me a voz, mas não a esperança”; “Se não conseguir dizer mais nada, que diga, ao menos, isto” - palavras que soube arquitectar e deixar no ar, antes do abandono da emissão. E ainda obrigou os adversários a gastar preciosos segundos dos seus discursos finais com referências a si, à sua debilidade física e aos desejos de melhoras.
Se não estava doente e tudo não passou de uma encenação, então, ainda merece maior aplauso. Jogada de mestre. E, afinal, como acrescentaria Aristóteles: “Se o que vais dizer não é mais belo que o silêncio…”
Alexandre

 

A orfandade

Só um país a viver a solidão da orfandade pode explicar a paixão com que se tem seguido o percurso de José Mourinho, um treinador de futebol que, por mais brilhante que seja, é apenas um treinador de futebol.
A início, dizia-se, por piada, que ele é que daria um bom primeiro-ministro; agora, quando tornam a lançar para a fogueira a hipótese absurda, já ninguém se ri. Há, antes, uma anuência. Se calhar, até nem era má ideia…
O problema é que Mourinho se trata, obviamente, de um caso clássico do indivíduo que, em terra de cegos, dispõe da extraordinária faculdade de ter um olho. Ou mesmo dois. É inteligente, competente e até o anuncia, de antemão, ao mundo. É, no fundo, a figura mítica do herói cinematográfico: “here he comes to save the day”. Com ele, não há erro. Se temos um problema, chamamos o Mourinho. Ele, de certeza, não falha.
E essa é a questão. Os portugueses estão fartos de falhanços. De gente que, no momento certo, erra ou, simplesmente, não comparece, se acobarda. O fascínio que Mourinho exerce sobre Portugal é o mesmo que um pai tem sobre o filho ainda criança; do mestre sobre o discípulo; do especialista no aprendiz; do carismático líder do grupo de amigos sobre este.
Como de outros prismas, também deste se consegue fazer uma leitura de Portugal enquanto adolescente à procura do seu caminho. À falta de confiança própria, precisa de se resguardar detrás de quem a tem para dar e vender, o leve pela mão a bom porto. Por isso, nesta semana decisiva, o Governo decide anunciar uma condecoração, com o Colar de Honra ao Mérito Desportivo, a José Mourinho. Porque é o seu único vencedor. O único português que parece saber o que faz. E só é pena que o mundo não seja uma bola de futebol e as finanças públicas se salvem com um losango a meio-campo e gritos, antes da final, de: “Quem somos nós? Portugal! Portugal! Portugal!”
Alexandre

 

O primario

Desde há uns anos que se tornou muito complicado jantar com alguém. Ou almoçar, lanchar, tomar o pequeno-almoço. Eu sou um rapaz novo, mas ainda venho do tempo em que um bife era um bife, um peixe-espada um peixe-espada, uma cerveja uma cerveja, um sumo um sumo. É um pouco básico, tautológico, mas continua a parecer-me a única forma de fazer as coisas. Dizíamos a alguém: “Vamos tomar um café?” Resposta: sim / não. “Vamos beber uma cervejinha?” Sim / não. “Está-me mesmo a apetecer um bom bife. Queres vir?” Sim / não.
Hoje, amigo leitor, não é assim. A vida tornou-se complexa até aqui. Vou tomar um café consigo. Sentamo-nos. Chamo o empregado e peço: “Dois cafés.” Quando ele traz as chávenas, começam os problemas. Você diz-me: “Ah! Mas queria o meu curto!” Ou longo. Sem açúcar. Com adoçante. Abatanado. Duplo. Com cheirinho. Descafeinado. Pingado. Garoto. Em chávena escaldada. Tudo bem, digo. Bebemos uma cerveja e esquecemos o lapso – venham duas imperiais! “Ah! Mas queria a minha na garrafa!” Ou em copo de plástico. Ou sem álcool. Ou preta. Carlsberg e não Super Bock. Panaché. Lemon. Green. Príncipe. Tulipa. Em copo gelado. A paciência está a esgotar-se, mas, num último gesto de apelo ao perdão, convido-o para jantar. Um bifinho? Boa, um bifinho. Chegamos ao restaurante e que saltem, já, dois bifinhos para a mesa 5! Mas, quando eles chegam, é o apocalipse. “Mas… eu queria o meu bem passado!” Ou médio, ou mal, ou sem ovo, ou com, sem molho, com pão, com arroz em vez de batata, e saladinha à parte, de porco e não de vaca, de peru, de soja, de atum.
NÃÃÃOOOOO!!!!!!
E pronto, leitor. Foi o desabafo do dia. Obrigado por ouvir. Às vezes, sinto-me um primata nos restaurantes. Toda a gente com pedidos complexos e especializados e eu agarrado à minha cerveja e bife e café, com tudo aquilo a que tenho direito. Bardamerda para os lights.
Alexandre

 

[ ] espaço em branco para o teu nome

Gostava de conhecer a equipa de criativos que decide, em parte anónima, as datas do calendário. Sim. Anda aí uma malta que, todos os anos, institui feriados, celebrações, dias mundiais e coisa e tal. Dia da árvore, dia da criança, do pai, da mãe, do teatro, do livro, da poesia, da luta contra a sida e do combate à osteoporose; dia da liberdade, da república, sem televisão, sem carros, sem carne, com ovo, molho à parte, dos amigos, das comadres, de S. Cristóvão e da santa padroeira de Milhazes de Baixo. Ninguém fica de fora, toda a gente tem a sua quota. Há o dia da mulher, o dia do africano, do imigrante, a manhã do aborígene e a hora do suazilandês. É bonito, é politicamente correcto, mas enerva.
Vem isto a propósito, é claro, do dia doa Namorados ou de outro santo qualquer, com um nome abichanado e que ninguém sabe quem é nem viu, alguma vez, mais gordo. O dia dos namorados é um fenómeno estranho: ninguém está de acordo com ele, mas lá continua, como uma chaga, alapado ao 14 de Fevereiro – uma pessoa ainda mal se refez das dívidas que contraiu para oferecer presentes a todos no Natal e ter uma passagem de ano a mais de 20 metros de casa e pumba! Lá estão as montras a gemer outra vez: “Compra… Compra…” Ou queres passar por sovina insensível (na melhor das hipóteses), teso maltrapilho (na pior)?
E, no entanto, vejo os solteiros irritados com os casalinhos; não se consegue comprar nada que não venha em forma de coração; e os próprios namorados dizem uns aos outros que o que importa são todos os outros dias do ano e não estas convenções.
Bom, pelo sim, pelo não, aqui fica esta crónica. Pode recortar-se pelo picotado e anexar-se à caixa de bombons. No espaço em branco, em cima, podem escrever o nome da(o) interessada(o). Eu vou andando que ainda tenho de comprar flores.
Alexandre

 

Prado Coelho live concert

Eduardo Prado Coelho é o convidado do próximo É A CULTURA, ESTÚPIDO!, que vai ter lugar no próximo dia 16 de Março (quarta -feira), às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. Eduardo Prado Coelho falará sobre “Para que servem os intelectuais?”, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos, Daniel Oliveira e Pedro Lomba.

 

Prado Coelho live concert

Eduardo Prado Coelho é o convidado do próximo É A CULTURA, ESTÚPIDO!, que vai ter lugar no próximo dia 16 de Março (quarta -feira), às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. Eduardo Prado Coelho falará sobre “Para que servem os intelectuais?”, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos, Daniel Oliveira e Pedro Lomba.

domingo, março 13, 2005

 

Um sonho


Frequentemente, acordo com a sensação de que ainda me falta acabar a cadeira de Métodos Quantitativos. Mas aquilo que era até há bem pouco tempo um pesadelo tornou-se agora um sonho. Do top 10 da última Maxmen, constam duas «finalistas de Sociologia»: Carla Matadinho e Liliana Santos. Filipe

sexta-feira, março 11, 2005

 

Quase Famosos no Europa

A Europa não é só um velho e respeitável continente que acabou comandado por um ex-maoísta convertido ao mercado. É também uma bonita casa de diversão nocturna, ali ao Cais do Sodré, onde os Quase Famosos – sim, os autores deste blog quase anónimo - organizam uma festarola, hoje, sexta-feira, 11 de Março, a partir das 22.30.

Promete-se tudo, inclusive a possibilidade de tentar uma coreografia “Jennifer Lopez” ao som dos Einstürzende Neubaten. Estará afixada em frente ao gira-discos uma minuciosa lista de músicas que não se podem pedir. O resto – ou seja, o sapateado e as lantejoulas - é convosco.

Para ganharem o direito a entrar, só terão de citar integralmente a letra do terceiro tema do primeiro álbum dos Felt e dizer o nome do xilofonista que colaborou com John Zorn no concerto de Zurique (17 de Fevereiro de 91). A partir daí, o céu – neste caso, a bola de espelhos e os focos – é o limite.

Será proibido falar de política, de bola e da vida sexual frustrada dos DJ’s de serviço.

Os Quase Famosos,

Cristóvão Gomes
Eduardo Nogueira Pinto
Francisco Mendes da Silva
Nuno Costa Santos
Pedro Adão e Silva
Ricardo Esteves Correia

quarta-feira, março 09, 2005

 

Os protagonistas da Historia

Habituámo-nos a acreditar numa certa invisiblidade do poder. Ele escapar-se-ia, cada vez mais, das nossas mãos, do alcance das nossas decisões. Pensamos na globalização e no controlo da diplomacia, das organizações internacionais, dos negócios estrangeiros; percebemos o poder das grandes empresas privadas e das suas administrações; somos assaltados pela ideia de que há tramas e acordos, conspirações por debaixo da mesa, interesses - uma palavra amada por todos os participantes dos “fóruns” promovidos pelos media nacionais - “interesses” instalados, o “sistema”, os “eles” que são quem manda.
A pouco e pouco, achámos ingénuo continuar a acreditar que os homens e mulheres que votávamos em eleições livres e democráticas seriam aqueles que, de facto, comandariam o nosso destino, os destinos do mundo. Mais não eram que testas-de-ferro, fantoches, figuras capazes do diálogo e, enfim, de saber estar, enquanto os verdadeiros decisores punham e dispunham conforme mais lhes conviesse.
Esta suporta perda da inocência do cidadão é, estou em crer, a grande causa do desinteresse pela participação nos actos eleitorais. Parece-lhe inútil, inglório, de fachada.
No entanto, os últimos anos do mundo têm provado o contrário: que os protagonistas da História continuam a existir, com rosto e nomes próprios, não se diluindo na mancha nublosa e informe do (mal)dito “sistema”. Veja-se o que a contemporaneidade mudou por uma simples troca de Clinton por Bush; veja-se como uma sangria de três décadas se silenciou posta a morte de Savimbi; coloquem-se, agora, os olhos e a esperança no aperto de mão entre Abbas e Sharon, sob a campa de Arafat.
Quero crer nisto: nos casos de acerto e nos de erro, fomos ainda nós os responsáveis pela escolha. E que um homem sozinho pode mudar a face da Terra.
Ou então nada disto vale a pena.
Alexandre

 

O pequeno pais

Por muito que o negligencie, a cada vez que saio da capital torno a aprender a lição: Lisboa e o resto do País são coisas diferentes. A cidade dos guindastes e dos andaimes, dos grandes outdoors, dos edifícios novos, das distâncias que custam a fazer a pé, que nos faz sentir em dia de sorte se encontramos, à primeira, um lugar de estacionamento, não tem relação com o resto de Portugal.
Lisboa é a Europa, o sonho do progresso, o provincianismo que, dia a dia, aprende a ser cosmopolita; é o espaço suficientemente grande para albergar de tudo, do bom e do mau; para oferecer opções e esgotar-nos de cansaço num dia qualquer. Portugal não. Portugal é o pequeno país por excelência, o breve rectângulo que se perde no planisfério, o antigo, o simples, o pobre, o rural, de vilarejo, mas verdadeiro.
É claro que não poderia viver noutro lugar que não Lisboa. Onde há cinema todos os dias, a todas as horas; onde não é necessário guardar rações de combate para os feriados porque há restaurantes abertos; onde se pode beber copos nas madrugadas de domingo e comer bifes às três da manhã; onde chegam os jornais todos e se conhecem estrangeiros e vêm artistas de toda a parte e há direito de escolha; onde se pode sair e desaparecer, sem esbarrar na família ou nos colegas. Mas uma ida a Portugal, de vez em quando, lembra-nos da importância das pequenas distâncias, do ter tempo, do céu efectivamente estrelado, das lareiras, do caminhar pelas ruas, da festa de freguesia, da paisagem diante dos olhos, quando podemos admirar tudo quanto ficará muito depois das nossas vitórias e fracassos.
Lisboa é, assim, uma espécie de filho yuppie, novo-rico, desempoeirado. Só é preciso que se lembre, de vez em quando, que veio de gente humilde que ainda prepara a filha para o casamento e cancela a festa porque morreu o velho da aldeia.
Alexandre

 

Tiago a meio do cemiterio

A Fórmula 1, como desporto, já não existe. Há anos que não existe. Servirá para os meninos ricos brincarem, para as marcas fazerem publicidade, para a indústria automóvel desenvolver protótipos, para os mecânicos exibirem a sua perícia e tentarem pulverizar, consecutivamente, o recorde da mudança mais rápida de um jogo de pneus. Nada mais. Como competição, como desafio, expectativa, imortalização e crucifixão de heróis, não serve para nada. Não tem paixão nem dúvida nem surpresa nem invenção. É pouco mais que geometria.
Não acredito que o próprio Schumacher não o sinta, não o tenha por absolutamente certo. Que o seu lugar na História não tem o sabor que sonhara em miúdo, vendo correr os seus ídolos. Onde estão os Mansell, os Prost, os Senna, Piquet, Alboretto, Lauda e por aí adiante? Schumacher tem um olho em terra de cegos; é uma espécie de Zidane a jogar no Desportivo de Mafamude; a beleza onde não existe ninguém para a contemplar e invejar.
Agora, chegou Tiago Monteiro. Regressa um português às pistas dos 300 km por hora, com carros esquisitos e motores ensurdecedores. Vem depois de Nicha Cabral, Pedro Matos Chaves, Pedro Lamy. E está na Jordan, uma equipa melhor do que aqueles tiveram ao seu tempo. Também cumprirá um sonho de criança, também terá visto os Prosts e os Sennas e sonhado ser como eles. Mas também saberá que vai correr a meio de um cemitério - a infância da arte automóvel, mas, do ponto de vista humano, um cemitério.
Noutro tempo, vibraria com a notícia e ficaria ansioso pelo início do campeonato. Hoje, tudo o que posso fazer é prometer que voltarei a tentar ver um grande prémio. E desejar que Tiago desiluda o menos possível os projectos que tinha quando era menino.
Alexandre

 

Porto-1 Helsinquia- 0

Era notícia perdida nas páginas finais da imprensa do último fim-de-semana. A Universidade de Helsínquia pretende cancelar o acordo de intercâmbio que tem com a Universidade do Porto, no âmbito do programa Erasmus, devido à suspeita de que um aluno português teria tido a intenção de copiar num exame na escola finlandesa.
O rapaz, com média de 14 valores e um currículo imaculado, teria inscrito anotações no dicionário que repousava na secretária ao seu lado, durante a prova. E, agora, escreve missivas ao conselho directivo da Universidade e à embaixada da Finlândia em Portugal. Tem o pai a ajudá-lo, bem como os responváveis da escola da “Invicta”, naturalmente preocupados com a sua reputação e ofendidos com a intransigência dos nórdicos.
Mon coeur balance - de que lado ficar? Do rapaz, eventual fura-vidas, bem à maneira da casa, à maneira estudantil, que nem sequer chegou a consumir o “crime”, que fez o que todos os estudantes fazem, uma vez por outra? Ou do lado do rigor, da exigência de honestidade, da correcção, do exemplo desses tão bem sucedidos povos do norte da Europa?
Depois de alguma reflexão, concluo o seguinte: que, por uma vez, se faça o elogio ao “tuga”, ao perfil do tipo que procura “esquemas”, que encontra a sua forma de fazer as coisas porque, afinal, o mais importante é que elas fiquem feitas. Ao diabo com esse espírito anti-séptico dos finlandeses! Sem cábulas nem respostas sopradas, bluff nas respostas e desculpas ardilosas para nos escaparmos a prazos e exames, não só não teríamos tido melhores notas, como seríamos muito mais infelizes. E, sobretudo, não estaríamos tão preparados para o mundo real. Ou querem-me convencer de que, só em Portugal, se copia pelo colega do lado?
Alexandre

 

Como eu odeio o Carnaval

É uma coisa genética, não tenho a culpa. Já a minha mãe não gostava, nem o meu pai, nem o avô, nem o bi e o tri, a amante dele, o periquito, a vizinha da frente. Tentei contrariá-lo, ainda arranjei, em miúdo, daqueles narigões com óculos e bigode à Chalana, chapéus e cornetas, cabeleiras, meia-dúzia de máscaras.
Em adolescente, confesso, houve um ano em que aderi àquela coisa ridícula a que todos os homens acham sempre muita piada e tremendamente original: vestir-se de mulher, aliás, de mulher feia, histérica e de mau gosto. Depois, borrifei na indumentária, mas continuei a ir às discotecas nessas noites de tragédia. Piorou: sem máscara nem conseguia disfarçar que as minhas faces mudavam de cor a cada vez que começava a ouvir-se uma nova brasileirada (fenómeno extensível às passagens de ano, gostaria de saber porquê…). Letras metafísicas sobre a identidade da cachaça e da água, o laço de amizade que nos une a Charlie Brown e um épico hino a uma cidade-maravilhosa-coração-do-meu-(Meu?!?!?!)-Brasil… Enfim, haverá sanatórios onde se dizem coisas com mais nexo.
O tempo passou. Tudo bem. Decidi que essas seriam as únicas noites do ano em que não sairia de casa por dinheiro nenhum e vislumbrei a única virtude da época: a sua efemeridade. Só dura dois dias. Ou três, ou o que é. Depois, a civilização voltava à normalidade e ninguém falava mais no assunto até ao ano seguinte. Uma questão de higiene.
Mas 2005 reservou-me esta surpresa: campanha eleitoral e Carnaval juntos porque, como dizem os anglo-saxónicos, “misery likes company”. O fenómeno é tal que até Alberto João trocou o desfile no Funchal por um passeio pelo País ao lado de Santana. E, de repente, a vida que durava dois dias tem de ficar ligada à máquina até ao próximo dia 20, em estado de morte cerebral. Há dias em que a eutanásia deveria ser obrigatória.
Alexandre

 

Quase Famosos no Europa

A Europa não é só um velho e respeitável continente que acabou comandado por um ex-maoísta convertido ao mercado. É também uma bonita casa de diversão nocturna, ali ao Cais do Sodré, onde os Quase Famosos – sim, os autores deste blog quase anónimo - organizam uma festarola, hoje, sexta-feira, 11 de Março, a partir das 22.30.

Promete-se tudo, inclusive a possibilidade de tentar uma coreografia “Jennifer Lopez” ao som dos Einstürzende Neubaten. Estará afixada em frente ao gira-discos uma minuciosa lista de músicas que não se podem pedir. O resto – ou seja, o sapateado e as lantejoulas - é convosco.

Para ganharem o direito a entrar, só terão de citar integralmente a letra do terceiro tema do primeiro álbum dos Felt e dizer o nome do xilofonista que colaborou com John Zorn no concerto de Zurique (17 de Fevereiro de 91). A partir daí, o céu – neste caso, a bola de espelhos e os focos – é o limite.

Será proibido falar de política, de bola e da vida sexual frustrada dos DJ’s de serviço.

Os Quase Famosos,

Cristóvão Gomes
Eduardo Nogueira Pinto
Francisco Mendes da Silva
Nuno Costa Santos
Pedro Adão e Silva
Ricardo Esteves Correia

terça-feira, março 08, 2005

 

KingKard

Para quando a crítica especializada em trailers?

Rui

 

No Dia Internacional da Marilyn


tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher


[Ruy Belo, «Na morte de Marilyn», Ruy Belo. Todos os poemas, Assírio & Alvim, 2000, pp. 322-323]

Rui

segunda-feira, março 07, 2005

 

Special thanks to:

Chegados à vigésima crónica, é tempo de fazer um agradecimento especial. Quando nos preparamos para escrever todos os dias, a pergunta que nos fazem e que acentua o nosso medo é, inevitavelmente, a mesma: “Mas vais ter coisas para dizer todos os dias?” Depois, ela é repetida dentro da nossa cabeça, ribombando até à loucura, quando acordamos, enquanto comemos, retardando o adormecer. Apontamos, então, duas ou três ideias para os primeiros textos, questionamos se seremos, de facto, pessoas com alguma coisa para dizer, apontamos mais uma ideia boa e outra que talvez dê, voltamos a questionar-nos, e lá chega o grande dia, quando a página está desenhada e tem um espaço em branco à nossa espera. Agora, não há remédio. Tem mesmo de ser. Abrimos o caderninho onde apontámos as ideias, escolhemos a melhor, arrancamos.
Vem o segundo dia, o terceiro, o quarto e, de repente, o medo desaparece e vai dando lugar a uma disponibilidade natural para manter os olhos abertos e descobrir, quotidianamente, temas para as próximas crónicas.
O abismo, contudo, às vezes regressa. Há sempre dias em que estamos demasiados ocupados para pensar e as ideias em reserva vão-se esgotando. E é por isso que tenho de fazer este agradecimento, porque tenho esse problema resolvido.
Aqui na redacção, sento-me ao lado de dois jornalistas magníficos, com muito mais sentido pragmático e atenção do que eu, o Cláudio Delicado e a Susana Dutra, que me deixam tagarelar à vontade para, depois, me dizerem: “Isso dava uma boa crónica”, “ora aí está uma boa crónica”. E pronto. Só tenho de lhes dar razão e apontar a ideia que, sem eles passaria despercebida, no moleskine ou na agenda.
Mil obrigados, então, Cláudio e Susana. Que é como quem diz, à maneira dos oscarizados, levantando a estatueta: “This one’s for you!!”
Alexandre

 

Tempo de antena do individualista

A propósito da campanha eleitoral, voltei a recordar-me disto: de como há muito tempo perdi a fé em qualquer projecto político. Deve ser por isso que me dizem que sou de direita, mas não sei se concorde. Não pertenci a uma só associação de estudantes, a qualquer conselho, nunca fui militante de coisa nenhuma. E nem me lembro de um momento concreto de decisão, pelo que, creio, já devo ter nascido céptico e individualista.
Ao mesmo tempo, se olho em volta, parece-me que não sou caso único, não a excepção, mas a regra, a amostra de uma geração que já pouco acredita e sintoma que anuncia a seguinte, hoje adolescente ou lá perto. Essa, temo bem, não tem mais fé que na passagem de nível do jogo de consola ou na ilusão de realidade que lhe dá um computador, não se apercebendo sequer de que, no limite, não passam de corpos sozinhos, encerrados num quarto, olhando uma caixa, por vezes 16 horas por dia, como tem sido testemunhado por alguns “casos reais” em reportagens que vão passando, disfarçadas de inocuidade, pelos noticiários.
A fé que me ficou tem a ver com a pele e a parte de universo que ela é capaz de tocar, ao longo do seu período de vida. Pele, desejo e medo, pouco mais - o suficiente.
Quanto a projectos colectivos, não obrigado. Não acredito em grupos com mais de três ou quatro amigos e naquilo que eles possam conseguir. O resto acaba, de modo inevitável, em desilusão. São os desencontros de opiniões, as decepções com os carácteres, os conflitos, o choque dos interesses, a inveja, a competição, a traição, aqueles que sobem na vida deixando-se ser puxados pelos braços do único idealista que existe em todas equipas.
Sim, amigo leitor, já nasci velho e pouco sonhador. O mais esquisito é que ainda acredito no Benfica.
Alexandre

 

A impossivel luta contra o descaramento

Desde pequeno que oiço dizer: “De quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.” Todos os dias a frase me parece mais acertada. Foi sempre assim. Há um poder estranho na audácia dos desavergonhados que nos desarma; ultrapassa a razão e, por isso mesmo, nos deixa sem argumentos. Pensem em como é mais complicado discutir com um ignorante do que medicina com um médico ou ciência com um cientista - não dá, não é possível. O desavergonhado contradiz-se ao seu bel-prazer, de um minuto para o outro; questiona tudo, até o estarmos ali, se for preciso; ao mesmo tempo, tem certezas absolutas de coisas que estão, inevitavelmente, “cientificamente provadas”, conforme lhe dê jeito; não reconhece uma única fonte de verdade do nosso discurso e por aí afora. No fim da conversa, sai, como é obvio, vencedor, de queixo erguido, todo inchado, perante o nosso desespero. Poucas coisas nos alteram tanto o batimento cardíaco e a nossa posição humanista sobre os maus tratos ao próximo como isto.
Ao assistir às peças noticiosas sobre a campanha eleitoral ou pré-campanha ou o que lhe quiserem chamar, é esse sentimento de impotência que me assalta. Sinto-me trancado num manicómio, tentando dialogar com autistas e esquizofrénicos. Um está convencido de que é o Napoleão; o outro de que é o Humphrey Bogart; o outro de que ainda vivemos o tempo da queda dos Czars; enfim… E, no meio da loucura, da total ausência de vergonha na cara, estarão convencidos, mais do que do esquecimento do povo, da verdade da sua própria mentira.
Como não sei dialogar com eles, dia 20 respondo só com uma cruz, uma cruz a todo o tamanho do boletim de voto, uma cruz da qual espero que nenhum deles ressuscite nem ao terceiro dia ou nem ao quadragésimo.
Alexandre

 

Bem-vindo de volta

Comecei, certamente ao contrário da maioria, pelo Amor É Fodido. Depois, fui reconstruindo a história: As Minhas Aventuras na República Portuguesa, do tempo d’ O Independente; A Causa Das Coisas, do Expresso; e, ao longo dos anos, ia esperando A Vida Inteira, O Cemitério de Raparigas, as Explicações de Português. Acompanhei-o na Noite da Má Língua e liguei-o à imagem do rapaz de lacinho e mangas de camisa, por vezes com as mãos atrás da nuca, que via e estranhava, dez anos antes, comentar acontecimentos em pleno noticiário. Soube da sua autoria da letra de “Foram Cardos, Foram Prosas”, para Manuela Moura Guedes; de “Glória”, para a Sétima Legião; dos guiões que partilhou na época gloriosa de Herman José. Passei a comprar o Indy; recuperei o possível da K. Adiante.
Creio que aprendi a escrever, mais do que com os clássicos, com Miguel Esteves Cardoso. Mas, quando ele desapreceu de cena, a tristeza não demorou mais que um minuto, até perceber que só poderia ser assim, que era a única solução fiel ao carácter que eu julgava ter apreendido, que ele sabia como e quando morrer, ao contrário dos outros que se arrastavam, até à pena, pela praça pública.
Poucos meses atrás, procurei-o. Consegui o e-mail e iniciei o contacto para uma entrevista, “uma entrevista das grandes”, como lhe escrevi então. A princípio tudo parecia encaminhado, mas, depois, e de novo, MEC desapareceu. Voltei a procurá-lo para o “cabaz de natal de papel” que aqui publicámos, mas não tive resposta.
Agora, vejo-o de regresso. No Diário de Notícias e na Sábado. Fico feliz por isso. Não fico chateado por me ter desaparecido, embora não compreenda. Saúdo-o, apenas. Bem-vindo a bordo, de novo. E, ao mesmo tempo, até breve.
Alexandre

 

O elogio do funcionario publico

Entre nós, o funcionário público ganhou pior nome que o árbitro, o polícia, o político. Ao ouvir qualquer destas palavras, já não há quem não franza, de pronto, o sobrolho, mas na conjugação “funcionário público” ou “função pública”, o movimento é acompanhado de uma vaga verbalização: “Tssss…” ou “Txiiiii…” ou mesmo “Hi-hi…”. Experimentem apresentar lá em casa o novo candidato a genro ou a nora: “Papá, Mamã, esta é a Cláudia. É de boas famílias, funcionária pública…” E o sogro logo dirá, virando a cabeça, de novo, para a televisão: “Txããã…”, enquanto a sogra se afasta, estrategicamente, para a cozinha.
A verdade é que nenhuma criancinha responde “Funcionário público!!!” à pergunta pelo que quer ser quando for grande. Mais depressa dirá taxista, obstetra, engenheiro do papel. E essa é, amigo leitor, uma cruel maldição que recai sobre toda uma classe. Será justa?
Creio que não. Há uma audácia perfeitamente notável no funcionário público que temos de respeitar. Só o percebi há dias, esperando ad aeternum num Centro de Saúde. A sala de espera estava cheia e não porque os médicos se demorassem ou os doentes quisessem, à força, contar-lhes a sua vida desde pequeninos. Estava cheia ainda antes da inscrição para a consulta porque a senhora da recepção precisava de 15 minutos para passar um talão e receber 2 euros de taxa. Chegada a minha vez, ignorei a cadeira que lá estava e deixei-me ficar de pé. E, perante o coro de protestos que posseguia do lado de lá do vidro, a senhora disse, corajosamente “Sente-se. Não se despacha mais depressa por ficar de pé.” Não moveu um músculo do rosto, não se escondeu atrás do computador, a voz não lhe tremeu o que quer que fosse. Isto tem de ser admirado. Quantos políticos, actores e treinadores de futebol não gostariam de ter este poder perante as massas em fúria?
Alexandre

 

A sumidade da semana

Se o que se quer fazer é falar sobre Portugal com seriedade, usar palavras grandes e conceitos filosóficos; denunciar o atavismo e o provincianismo reinantes; se o que se que pretende é expor, apontar limitações e defeitos; chamar para o combate; se se quer dizer mal da democracia representativa; se se pretende ser certeiro, lapidar e cáustico; e mesmo se o que se pretende é dizer grandes disparates em pose pessimista (como supor que os alemães, depois da II Guerra Mundial, se negaram a inscrever o III Reich e o nazismo na sua existência e na sua história), enfim, se o que se pretende é ser presunçoso, mas em grande estilo, ser um imbecil pomposo, então, o mínimo - o mínimo dos mínimos - é fazê-lo em bom português. Não é o caso com José Gil, em «Portugal, Hoje. O medo de existir». Tanto mais irritante.
O recente unanimismo burro em redor de José Gil resulta dos exactos mecanismos provincianos e abúlicos que José Gil tanto critica. Ele é a sumidade da semana. José Gil faz lembrar aqueles portugueses que vão estudar para «o estrangeiro» e, por cosmopolitismo, decidem que só falam com estrangeiros e não falam com os portugueses que lá estão, porque, afinal, «quando se está fora», falar com portugueses é parolo e provinciano. Portanto, se calhar Gil até tem razão. Afinal, se Portugal não fosse o «Portugal de José Gil», José Gil nunca teria chegado a ser, como é, «José Gil».
Rui

sexta-feira, março 04, 2005

 

West Wing Anónimos

Diary: posted by Jemima, August 23, 2002
West Wing addiction

I think it's time to come clean, stop trying to hide from my problem, and admit that, yes, I am a West Wing addict. It started innocently enough in Series 1, when I'd watch regularly, but was perfectly happy to go out and see friends instead. As the series went on, I found myself getting drawn in, waiting for the next episode, thinking about it at odd times, wondering about story lines. I'd tape episodes if I was going out, and sometimes just not go out at all. Then, at the end of Series 1, there was the cliff hanger. Was the President shot? Who was hurt? What happened? At which point I knew I was trapped and ran out to buy OnDigital to get E4 and watch Series 2 starting that same week.
Then we had the break from West Wing, until Series 2 came to Channel 4 and, of course, I watched them all again. And now that's over and, horror or horrors, with OnDigital gone bust, I don't have access to the excitement of Series 3 which started last night on E4. I went as far as finding out about getting Sky, but even I realised three hundred pounds for a series of the West Wing is a little excessive, especially as I'm out of work. I've been making calls and sending emails in an attempt to find someone with access to E4, but to little avail. There are a few leads, sure, but it doesn't look too promising. It's increasingly looking like I'll have to wait a year for the series to reach normal old Channel 4. So, I've gone cold turkey. And boy, does it hurt.

Hi Jemima, olá a todos, eu sou o Rui Branco e sou um viciado no West Wing.

 

ddr esplanar


Rui

 

Lessons in love

Eu mereço aquilo que quero.

Rui

 

O pulha

O facto:
“Você assistiu às catástrofes na Ásia… Infelizmente, há por todo o lado muito mais desgraça humana do que aquela que você viu. Ainda consegue ficar indiferente. O seu pequeno gesto significa muito para nós.” É o que diz um pequeno bilhete afixado em várias caixas multibanco da Praça Duque de Saldanha e Avenida da República, seguido de um número de identificação bancária destinado a receber as transferências dos donativos.
O embuste:
Um jornal experimentou efectuar um depósito e, no talão recebido, constava o nome do titular da conta e um número não correspondente a qualquer uma das reconhecidas oficialmente pelo Estado para a ajuda às vítimas do tsunami. Trata-se, na verdade, de uma conta vulgar, aberta num balcão de Almada da Caixa Geral de Depósitos por um indivíduo de 36 anos. Banco e Polícia Judiciária estão já a investigar.
O pulha:
O canalha. O filho da puta. O miserável. O cobarde. O fraco. O esterco. O animal invertebrado que fez isto e que só por acaso poderemos confundir com um homem. Que sabe que 280 mil pessoas morreram numa das maiores catástrofes de sempre. Que meio milhão de pessoas tenta sobreviver em campos de refugiados inventados à pressa possível. Que viu, sentadinho no seu sofá, em frente à sua televisãozinha, os corpos desfeitos, as cidades destruídas, as crianças perdidas dos pais, países inteiros da vontade de viver, e pensou, certamente radiante com o seu génio, que estava ali uma boa oportunidade de safar a sua vidinha.
O convite:
A todos os leitores. Decidam-lhe o castigo que merece. Consigo pensar numa série deles, mas creio que a lei portuguesa não permite nenhum. E que um dia destes lhe conheçamos o nome e o rosto, para que apodreça de vergonha cada vez que for olhado.
Alexandre

 

Estudos sobre o Tio Patinhas

Não sei bem se imediatamente antes, se depois da Banda-Desenhada subir ao nono lugar no leque numerado das artes, começaram a despontar, por todo o lado, confessos admiradores do exercício outrora reservado à ingenuidade do público infantil. Dos coleccionadores privados às exposições, apareciam fanáticos da Marvel, adeptos rivais da DC Comics, seguidores de Moebius e outros artistas franceses, patrióticos apreciadores do traço português. Como jóias raras, guardam as edições especiais da morte do Super-Homem, têm por modelo de virtudes Wolverine, erguem um coro de vozes decepcionadas com as adaptações cinematográficas, com paixão mais dogmática pela obra original que um especialista na Época Clássica com a versão blockbuster de um texto de Homero.
Lentamente, fui-me sentindo sozinho. Não tivera mais que quatro ou cinco daqueles livros, quase sempre oferecidos por amigos gentis e atentos. Olhava para casa e via a estante cheia de BD - atulhada, na verdade - centenas de álbuns A5, com datas que variam entre este mês de Janeiro e alguns ligeiramente anteriores ao meu nascimento. Nas lombadas, todos referem duas palavras familiares: Walt Disney. E, depois, Tio Patinhas ou Pato Donald ou Mickey Mouse ou Almanaque Disney, Hiper Disney, Disney Especial.
Durante muito tempo, senti-me um básico, um primário, um simplório.
Mas ontem, lendo o quarto volume da colecção “Obras-primas da BD Disney”, decidi dizer: Basta! Já tenho idade para assumir estas opções chocantes. Sim, ainda leio o Zé Carioca e o que é que tem? Ainda me desfaço a rir com o Peninha. Sobretudo, creio que já é hora, já vem sendo tempo, amigos, de se fazerem investigações sérias sobre a genealogia de Patópolis e de Peter Jackson levar ao grande ecrã uma versão séria da saga do Tio Patinhas.
Alexandre

 

Decq Mota e a ingratidao

(A notícia já tem alguns dias, mas, indeciso entre torná-la reportagem ou crónica, fui adiando. Como está difícil encontrar tempo para ir às ilhas, trato-a assim, nestes mil e tal caracteres - também é digno.)
José Decq Mota, líder histórico do Partido Comunista nos Açores, está, há poucos meses, inscrito no Centro de Emprego.
Não sou comunista, nem particularmente apaixonado pela política, nem sequer conheço, em pessoa, o senhor. Mas tenho dificuldade em encaixar a notícia, em aceitar que um homem que dedicou os últimos 30 anos da sua vida à luta pela coisa pública açoriana se veja, agora, enquanto os colegas de carreira caminham douradamente para a reforma, na dependência de um subsídio de desemprego.
Se Portugal, em geral, é conservador, os Açores, como qualquer região pequena, ainda o são mais. Mas, em termos eleitorais, são capazes de surpresas como esta. E se, alguns anos atrás, o PP se viu com apenas um assento parlamentar; agora, nas últimas regionais, o PCP deu por si fora da Assembleia - é um óbvio sinal dos tempos e os comunistas nacionais, para seu bem, não o devem ignorar.
Lamento o acontecimento como idealista: é o fim decretado da utopia, mas a verdade, dir-me-á o realismo, é que a utopia está morta e enterrada há muito tempo e nem sequer deve ter ido para o Céu. Mas lamento, sobretudo, o lado reverso da profissionalização da política personalizado neste caso. Decq Mota dedicou a sua vida ao parlamento regional e ao aparelho partidário e afastou-se, de modo irremediável, da “vida real”. Quando precisou de regressar a ela, as portas estavam fechadas, ninguém o esperara, já não tinha lugar.
Assim, não vale. É demasiado ingrato. E os pais inscreverão os filhos idealistas nas juventudes partidárias de poder, para ter a certeza de que, um dia, terão quem lhes pague a mensalidade do lar.
Alexandre

 

Os novos pregadores

A imprensa adquiriu proporções invulgares. O quarto poder, que mais não deveria ser que uma voz crítica e atenta aos três tradicionais, um pensamento e um discurso sobre os factos, transformou-se, ele próprio, em facto. Aguarda-se, com expectativa, a saída do semanário; passa-se o dia numa agitação para confirmar ou desmentir a manchete do diário sensacionalista; gente demite-se por causa da entrevista concedida ao jornal de referência.
A luta entre eles torna-se mais cerrada. Quase semanalmente, uma publicação surge com renovações gráficas ou editoriais ou novos colaboradores e secções; aparecem e desaparecem periódicos. Os craques, as vedetas, são negociados entre os grandes, como se houvesse, no final, uma taça a erguer e adeptos a quem oferecer o deleite. Desdobram-se, então, em ofertas, copiam-se despudoradamente uns aos outros, com colecções, CDs, DVDs, livros, encicoplédias, histórias e manuais para a arte de voar sem brevet.
Mas o lado mais negro dos nossos periódicos é outro: a total hipocrisia. Porque, se querem guerrear entre si, não cometem nenhum pecado na tábua de valores do mercado empresarial; o problema é a suposta moralidade. Censuram-se procuradores, juízes e advogados por fugas de informação que os próprios publicam; atacam-se os políticos por todos os flancos, em tom paternalista e professoral, por quererem um mediatismo que eles próprios lhes ofereceram; censura-lhes a promiscuidade, quando foram eles a convidar ex-governantes a escrever uma coluna que lhes garanta mais 10 mil leitores.
E enquanto se julgam arautos dos bons costumes, algures num partido, alguém prepara o convite envenenado para vir brincar ao outro lado do jardim.
(Bem sei que critico a própria classe. Mas isso deve, por si só, garantir que não confundimos a árvore com a floresta.)
Alexandre

 

Serviço de Memorias Simples

Quando o mundo foi invadido pelos telemóveis, na lentidão natural com que me adapto às coisas novas do universo, vociferei contra a loucura: todos corriam a comprá-los como se de uma vacina se tratassem em época de epidemia de tuberculose. Depois, emprestaram-me um desses objectos catitas para uma viagem de 15 dias e - fraco - deixei-me seduzir.
Hoje, agradeço aos céus a invenção da coisa: mais personalizada, privada e prática que o velho telefone preto do corredor da casa de meus pais. Mas há, na revolução comunicacional que despoletou, um elemento que me fascina mais que os restantes: o SMS, sigla de Short Message Service. No início, era de uso exclusivo de adolescentes; agora, parece-me, é utilizado por gente de todas as idades, para saudar ou enviar recados, quandos as horas são impróprias, a notícia é breve, falar é difícil.
E, há dias, apercebi-me de uma virtude maior: que o SMS seja, afinal, um Serviço de Memórias Simples. A mensagem escrita colocou-se ao lado da fotografia; a memória disponível do aparelho ao lado do álbum. Já não nos limitamos a enviar e receber mensagens. Guardamo-las. Arquivamo-las. Escolhemos este modelo de telefone em detrimento daquele por ter mais espaço para as conservar.
E, aqui e ali, quando ninguém está a olhar, espreitamos o arquivo, o álbum, as mensagens preferidas que guardámos. Relemo-las, sorrimos em silêncio, recuperando a sensação inicial de agrado. Como nas fotografias da viagem, das férias, da família. Porque continuamos a querer, à força, cristalizar o presente; agarrar, com tudo o que temos, o instante perfeito. Enquanto o mundo passa à nossa roda e o tempo faz o seu caminho, olhamos a fotografia, relemos a mensagem, para ter a certeza de que, num momento ou outro, fomos amados.
Alexandre

quinta-feira, março 03, 2005

 

Do charme a canastrice, canastronice, whatever...

Pronto. Aqui ficam mais 5 crónicas de antes das eleições, como a leitura facilmente revelará, mas com algumas notas mais.
Entretanto, aproveito a oportunidade para partilhar convosco a sincera irritação de pele que me causa olhar para Pierce Brosnan. Já alguém espreitou o cartaz do seu novo "Golpe no Paraíso"? Ok - tirem lá os olhos da Salma Hayek… Concentrem-se no tipo. Ele que era o símbolo do charme, amado por todas as mulheres e invejado por todos os homens, desde que começou a fazer de Bond que não consegue parar. Há dias, estava no Conan O'Brien e só apetecia perguntar-lhe se, quando vai à casa de banho, mantém aquela testa franzida ou se, quando lhe trincam um pé, também grita com o mesmo "accent"…
Enfim. A inveja dói, amigos, a inveja dói…
A domani.
Alexandre

 

Adeus, Mercedes SLK

Tenho-o compreendido lentamente. A princípio, não pareceu um problema, mas, a pouco e pouco, tem ganho novas dimensões e, qualquer dia, há-de me tirar o sono. Eu, como os meus colegas de redacção, como aqueles a quem acompanho na senda de ser escritor, como os antigos companheiros de produtoras e grupos de teatro, não escolhi ser rico.
Todos os pais, todas mães, sonham filhos advogados, médicos, engenheiros, arquitectos; sobretudo, filhos que ganhem depressa o seu dinheiro e tenham casas e carros e famílias e vidas estáveis. Eu nunca quis nada disso - olho à minha volta, enquanto escrevo, e sei que a maior parte destas pessoas não escolheu isso. Escolhi um curso que não dava dinheiro, alternei entre profissões que não dão dinheiro. Dinheiro a sério.
Ao ficheiro onde aponto todas as ideias que tenho - para romances, poemas, peças, guiões - nunca foram parar aquelas que tive, episodicamente, para companhias aéreas e hóteis, serviços de originais de restauração ou conceitos de roupa. E, ultimamente, sei que se escrevesse um livro-relâmpago sobre uma pessoa de um determinado leque de 10 ou 20, faria, de modo fácil, muito dinheiro.
Mas não sou capaz. Não sou eu. Eu escolhi, como os meus colegas, ganhar o suficiente para os pequenos luxos, e perseguir, nos delírios mais censuráveis, o Nobel ou o Pullitzer. Escolhi não ter horários nem contratos de trabalho nem estabilidade nem aquilo que os meus pais, como todos os outros, sonharam para a família.
E lembro-me sempre da frase maior de um filme razoável, Road To Perdition, de Sam Mendes, quando o “mau” Paul Newman” diz ao “bom” Tom Hanks: "This is the life we chose, the life we lead. And there is only one guarantee: none of us will see heaven." E volto a dormir. No fim de tudo, Bill Gates não acabará melhor que eu.
Alexandre

 

O convite a presunçao

“Estou?” “Doutor Nuno Cardoso?” “O próprio.” “Fala o agente M., da PJ. Como está?” “Oh! Meu caro amigo! Então, como está?” “Bem, doutor. Olhe, nós aqui na Judite estávamos a combinar aí uma coisa engraçada, umas audiçõezinhas no âmbito de um processo de acusação de peculato e abuso de poder…” “Epá! Isso é que é muita giro! Vocês é que se divertem à grande…” “Ora, é verdade, sim senhor. Não tenho como negar. Mas é por isso mesmo que lhe estou a ligar: não quereria o doutor dar-nos o prazer de nos presentear com a sua tão honrosa presença? Vir assim a um interrogatoriozito ou outro…” “A sério?! Posso mesmo? Posso?” “Claro, doutor!” “Grande cena! Vocês aí na PJ são uns porreiros, é o que é! Vou, sim senhor, pois ‘tá claro!”
Não sei se foi mais ou menos assim, mas diverte-me pensar que foi. É que Nuno Cardoso, ex-presidente da Câmara Municipal do Porto, à saída da PJ, ontem, teve a simpatia de esclarecer os jornalistas e o País sobre a suspeição que sobre ele recai em relação a um caso de favorecimento ao Futebol Clube do Porto. Insistiu que está tudo bem, que nada fez de errado, que nem sequer foi notificado ou intimado a uma audição na Polícia Judiciária - ele foi, notem bem, “convidado”.
O acontecimento lembrou-me daquilo que, provavelmente, mais me tira do sério: que me queiram passar por parvo. E como eu, estou certo, o resto dos portugueses. O que os afasta, por exemplo, da política (mas também dos estádios de futebol ou dos serviços públicos), não é tanto a incompetência, porque o piedoso e compassivo lusitano até acha graça às fraquezas e é amigo de ajudar. O que motiva o abandono, o desinteresse, é a percepção evidente de que o estão a tentar enganar. E isso ele não perdoa. Cardoso já o deveria ter aprendido.
Alexandre

 

Queres ser Pulido Valente?

Portugal move-se por epidemias. Em lugar anónimo, alguém decide o que será norma para amanhã. E o País assina por baixo. Não precisa, sequer, de ler muito. Em cada português, há um opinion maker. E essa miríade de indivíduos atentos e convictos faz turnos na crucifixão ou imortalização, à vez, da iconografia nacional. Do médico ao empregado de café, quase tudo é unânime: a :2 é o melhor canal, não tenho é tempo para ver televisão; aquela TVI é que é uma pouca vergonha, mas gostava muito de ouvir o Marcelo; o Mourinho é o melhor treinador do mundo; isto está tão mal que até tenho saudades do Cavaco; qualquer dia, isto é tudo espanhol e por aí adiante.
Foi assim que se decidiu que tudo quanto fizer este governo é mau. Do terrível mergulho de Morais Sarmento que afundou as finanças nacionais à proposta da possiblidade da reforma aos 70 anos.
Esquecendo a primeira, sobre a qual se escreveu já demasiado, vejamos por que a segunda é uma boa proposta. Primeiro, porque a simples possibilidade de escolha é melhor que a imposição. Segundo, porque muita gente chega aos 65 anos perfeitamente apta a continuar a trabalhar. Terceiro, muitos profissionais, como os professores universitários, já trabalham até aos 70. Quarto, é, amiúde, a ocupação o que mantém vivas as pessoas. Só quem tem 30 anos hoje, é que acha que vai estar muito cansado aos 65; aos 65, quer-se mostrar que se é tão bom como os novos, sentir-se útil, encontrar razões para sair, diariamente, da cama.
Mas o opinion making continuará o seu caminho, em todas as direcções. Por isso, que ninguém durma descansado - afinal, já começa a ser voz comum que Sócrates não tem uma única ideia e Portas é que foi um grande ministro.
Alexandre

 

Martunis ou o nosso primeiro Mundial

Um dia, isto acontecerá. O futuro, estou certo, prepara uma espécie que comunica por imagens, balões que se formam sobre a cabeça dos falantes exibindo curtas-metragens ou instântaneos do pensamento, da memória, das emoções. E será muito melhor. A compreensão será mais fácil, as ideias mais inesquecíveis; a arte tornar-se-á acessível a qualquer homem; todos os diálogos se processarão num silêncio bom que inspirará a paz. Até as discussões se converterão em turbilhões de fotogramas.
Tudo isto a propósito de dois acontecimentos recentes, provas acabadas de como o ser humano está, por natureza, muito mais preparado para a imagem do que para a palavra: o príncipe Harry envergando um uniforme nazi; o príncipe Martunis salvo das águas, ao fim de 19 dias, agasalhado numa camisola da selecção portuguesa. Um parece falar do mal; o outro do bem. No entanto, nenhuma traz dados novos e é sequer, provavelmente, real. A inconsciência do jovem britânico não corresponde: a) a um sentimento nazi da nação que representa; b) à sua própria convicção - mesmo que ele a tivesse, nunca o assumiria. Quanto ao milagre do jovem indonésio, a) não se deve, como é óbvio, a qualquer característica especial da camisola nacional; b) é bem provável que o pequeno sobrevivente não tenha a menor noção do que traz vestido.
E, no entanto, como somos tocados pelas duas imagens. E como apetece mandar à fava estas considerações teóricas e trocar, de vez, o pensamento pela sensação. Poderíamos, assim, proibir Harry de, alguma vez, ser rei e festejar nas ruas, noites a fio, o nome de Martunis, o nosso primeiro título Mundial.
Alexandre

 

Za

Conheci-o numa mesa de café. Gostaria que tivesse sido noutro lugar, numa praça, numa rua, mas era o Caffé di Roma do Colombo. Tudo bem. Eu lanchava com uma amiga que morava por ali e ele estava na mesa ao lado, de cabeça baixa, sobre um livro que não reconheci, no pudor de olhar demais e lembrar a dona de casa perplexa diante da estrela da novela. Dali a pouco, entrava mais um rosto familiar. Eu regressava da caixa, guardando o troco na carteira onde ainda estaria o bilhete de algum jogo, e vi-os cumprimentar-se. Jorge Cadete seguia para uma mesa ao fundo e ele deixava-se estar uns segundos mais de face levantada antes de voltar à leitura. Era a minha chance. Com a mesma discrição do ponta-de-lança, cumprimentava-o com um murmúrio e um leve baixar de cabeça. Ele respondia do mesmo modo, por cortesia. Voltei-me, saí e disse para a Rita: “É o Zahovic…”
Sei que isto me deveria ter passado na adolescência, mas, mesmo hoje, não o lamento. Lamento não ter dito mais. Que Quinito estava certo quando o preferiu no Guimarães ao Giovanni que brilharia em Barcelona para logo se eclipsar. Que nunca esquecera o golão do meio da rua que fizera ao Porto. O modo como, já nas Antas, controlava sozinho a fúria dos companheiros a qualquer decisão contrária do árbitro. O radiante que fiquei quando veio para o Benfica; ver a camisola 10, enfim, com dono à altura. O início de todas as épocas, quando sonhava que desta é que era. E seria ele a carregar às costas a equipa até ao título.
Hoje, ter-lhe-ia de dizer também que falhou. Que poderia ter sido muito maior. Mas que passarão anos até que venha outro jogador tão inteligente, tão elegante, que me dê tanta vontade de conversar, à mesa de café, sobre a táctica para o próximo jogo e os livros que andamos a ler.
Alexandre

quarta-feira, março 02, 2005

 

Sim, sou eu mesmo

Caros amigos, é mentira. É mentira que tenha emigrado, é mentira que tenha sido preso, é mentira que tenha estado imobilizado debaixo de um móvel pesado que caíra na minha sala, é mentira que tenha trocado a vida de blogger pela de vedeta da canção ligeira. E estou aqui para prová-lo.
Bem sei que andavam preocupados, que não se falava de outra coisa na blogosfera, que se preparavam já para declarar um luto nacional e fazer miilhares de "posts de silêncio" (qualquer coisa como:)











Ok. Não é preciso. Deixem-se disso. Limpem lá a lagriminha. Voltei. Ponham lá o disquinho do Dino Meira e animen-se! Ó alegria! Ó júbilo! Ó faz favor!
A partir de hoje, regresso à vossa companhia. E, como isto anda limitadinho de imaginação, para já, esse regresso faz-se assim, como nos 5 posts abaixo, com a republicação das crónicas que têm saído, de segunda a sexta, n' A CAPITAL. Não estranhem, pois, alguns aparentes anacronismos. Vamos acelerar para recuperar o tempo perdido e colocarmo-nos a par e passo com a actualidade.
Alright?
Um grande abraço a todos os leitores!
AB
PS: Caso de já nem saibam que sigla é esta, é só conferir os nomes no cabeçalho acima…

 

A amizade Portugal-China

Quando Jorge Sampaio entendeu que Santana Lopes deveria ocupar o lugar deixado vago por Barroso, sem necessidade de recorrer a eleições, compreendi-o. Quando achou por bem dissolver o Parlamento, depois de todas as convulsões do Governo, compreendi-o. Sempre que se colocou para além da esquerda e da direita, apelou à Constituição, deixou claro que as últimas decisões cabiam ao Presidente da República, em consciência, de modo solitário, também o compreendi.
Mas, quando o rigoroso Sampaio entendeu não esclarecer os motivos por detrás da dissolução, comecei a pensar que seria ingénuo. Quando sugeriu uma alteração constitucional que facilitasse a obtenção de governos de maioria absoluta, achei que estava a dar um tiro no pé. E, agora, vem dizer que compreende que a China demore em respeitar a democracia, o Estado de direito, os direitos humanos e que temos de ter paciência e que estas coisas levam tempo. Chega.
Acontece que a China é, provavelmente, o pior país do mundo. O país de Tiannanmen; o país onde, para construir a monumental barragem de Yangtze, se desalojou, tranquilamente, mais de um milhão de camponeses; o país onde se matam meninas para que a população não cresça ainda mais; o país que não se envergonha de Mao, da sua revolução cultural, de 15 milhões de agricultores mortos à fome, das meninas que, aos 13 anos, eram levadas aos braços do amado líder para a primeira relação sexual e o apuramento da raça.
Anos atrás, João Soares recebia Jiang Zemin em Lisboa e entregava-lhe as chaves da cidade. Agora, é Sampaio quem, ao lado de Hu Jintao, pede compreensão para os pobrezinhos que se vão transformar na próxima grande potência mundial à custa do desrespeito dos direitos humanos.
Santa paciência.
AB

 

Um bom dia para morrer

Não acompanho o motociclismo nem o Dakar. Aliás, vendo bem, não acompanho qualquer desporto motorizado desde que Eddie Lawson e Alain Prost abandonaram, à vez, as suas carreiras. Fabrizio Meoni é, portanto, um nome que pairava naquela vaga nuvem de palavras que já ouvimos, mas a que não vem anexada qualquer imagem. Até ontem.
Não sei se ele era boa ou má pessoa, divertido ou soturno, se tinha cinco filhos a quem ensinou a andar de bibicleta ou era, pelo contrário, um misantropo crónico. Não faço ideia. Mas acredito que morreu como gostaria de morrer. Pilotando uma moto, durante a prova que ganhou por duas vezes, a meio do deserto que conquistou também nas areias do Egipto e da Tunísia. Porque é assim que se deve morrer, sendo fiéis a nós próprios, morrer como se viveu e não apodrecendo na cama de um hospital qualquer, esquecidos do que fomos, com tempo demais para para pensar naquilo que se falhou.
Vêm, de imediato, à memória, Ayrton Senna, ao volante do seu fórmula 1, em San Marino; Mikklos Féher, na frente de ataque do Benfica, em Guimarães; Mark Sandman, vocalista dos Morphine, caído em palco durante um concerto na Holanda. E a frase com que a personagem de Kiefer Sutherland abre, diante de uma manhã gloriosa, o belo “Flatliners”, de Joel Schumacher: “Hoje, é um bom dia para morrer.”
Também não vi jogar Cavém, excepto, talvez, nas imagens documentais da década de 60 que todos revemos quando se quer homenagear o futebol português. Mas lamento que um bi-campeão europeu, nove vezes campeão nacional, quatro vezes vencedor da taça de Portugal, tenha de ser levado pelo Alzheimer, de uma ala do Hospital de Leiria. A única forma justa deste homem morrer era erguendo uma taça.
AB

 

O Pais precisa de amigos

“Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever Candide. E Portugal ajudou milhares de judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial. Eu nunca lá estive, é claro, mas, queira ou não queira, é lá que eu vivo agora. Não, Portugal é perfeito.”
Por que parecem tão estranhas estas palavras? Por que razão nos dão vontade de rir ou, pelo menos, libertar um sorriso de piedade? E, no entanto, não foram escritas por nenhum lunático ou noutro século qualquer. É Paul Auster quem as diz, pela boca de Sidney Orr, o seu protagonista em A Noite do Oráculo, romance lançado no ano passado nos Estados Unidos, ainda que grande parte da acção decorra em 1982.
Fui surpreendido por elas ontem, enquanto avançava na leitura. E não evitei o sorriso. É verdade que a passagem “agora têm um governo decente” soa a delírio. É tão usada entre nós como “já não posso com este calor” por um siberiano ou “a Angelina Jolie é tão feia” por qualquer homem terráqueo. Mas, em tudo o resto, estão certas. E deixam de fora, obviamente, milhares… Pronto… centenas de coisas boas de que nos poderíamos orgulhar.
E, no entanto, há quanto tempo nenhum de nós diz ou ouve dizer isto: “Portugal é perfeito”? Quanto tempo levarão políticos e comentadores a perceber que jamais um pessimista terá ganho o que quer que fosse e que, como qualquer empresa, equipa, projecto, pessoa, um país só se ergue se correr atrás da ilusão de perfeição? Portugal precisa de amigos, amigos que, com frases como “Ela não te merecia” ou “Vais ver… O teu patrão ainda te vai implorar para que voltes.”, nos devolvem a confiança.
AB

 

Historia de um pecado

Quando entrei para o curso de Filosofia, amigos avisados diziam-me que, quando desse por mim, já me teria tornado ateu. Aceitei o alerta, mas nem por um segundo vacilei a certeza de aquele ser um conselho inútil. A educação católica, a fé, hábitos e crenças de anos, não se perdiam assim, entre livros e exames.
Ao longo da faculdade, recordava-me disso e todos os dias estava mais certo daquela convicção: não se recusa a religião por ler Marx ou Nietzsche; não se troca Deus pela Ideia de Hegel ou a Morte de Heidegger.
Mas, um dia, já de diploma debaixo do braço, as coisas aconteciam como os meus amigos previram: não tinha havido qualquer tomada de decisão, um momento em que descortinara um facto inequívoco que deitava por terra os fundamentos de uma crença católica em Deus. De repente, dava por mim e Deus não estava lá. Só isso. Não era capaz de acreditar. Não por ter lido este ou aquele autor, mas por os ter lido todos e ficar viciado no raciocínio e pensar demasiado a fé para ser capaz de a ter. Não me tornara um ateu, mas já não me poderia reclamar de qualquer religião.
Desde então, espero que uma sensação de milagre me atinja directamente a pele, sem passar pela razão e tento subir à ingenuidade de onde caí.
Na última sexta-feira, uma dessas epifanias aconteceu. Como há 5 anos, no mesmo lugar, milhares de vozes seguiam Michael Stipe em “Losing My Religion”. E, no auge do tema, vendo a luz recortar as sombras dos rostos que enchiam a sala, já não ouvindo a música, mas sendo, antes, percorrido por ela, voltei a ser religioso, tornei a ser crente. Se era Deus ou não quem ali estava, não faço ideia, mas que eu acreditei Nele, disso não tenho dúvidas.
AB

 

Nota introdutoria

Papá, Mamã, cheguei lá. Ainda não tenho casa; ainda estou a tratar de arranjar um carro; duvido, sinceramente, que tenha alguma coisa física em meu nome – essa marca definitiva de realização do indivíduo moderno –, mas já tenho a crónica. Esta coluna de papel, estes centímetros quadrados de página, são meus. O terreno para a construção futura, numa espécie de bairro de amigos, em que toda a vizinhança é conhecida e não se importará que eu faça barulho às 4 da manhã e há-de trocar, entre si, pacotes de opiniões, meio quilito de conselhos e uma ou outra colher de discussão.
Nuno, Rui, Filipe, João Pedro, caros camaradas de blogue: sim, também eu estou preocupado. Que terei ainda para dizer ao fim do dia, depois de ter escrito aqui? Como poderia um realista sensitivo como este vosso amigo não se deixar seduzir mais pela tangibilidade do papel do que pela virtualidade da blogosfera? Mas veremos isso com calma. Afinal, ainda agora começámos…
Quanto a si, caro leitor, o parágrafo final deste primeiro dia. A crónica deve o seu nome a Kronos, o deus do Tempo – não como Saturno, representante do tempo que mata, mas daquele que eterniza. Por isso, nesta morada de letras, far-se-á justiça ao conceito original. Falaremos sobre o tempo e o candidato ao eterno, tentando, por exemplo, não nos distrair demasiado com jogos políticos que não ficarão para a História ou figuras que serão varridas da nossa memória antes que acabemos de soletrar os seus nomes.
Sim, acredite-se ou não, há vida para além de Santana e Sócrates. Vida inteligente.
AB



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