ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

segunda-feira, janeiro 31, 2005

 

Não se alugam avionetas para dizer adeus

Por que é tão raro falar de coisas que nos deixam aterrorizadamente felizes, como os amores, nos blogs? Miúfa é o que é. Medo do ridículo, da pieguice - e por pudor. Possivelmente, pela mesma razão por que não se alugam avionetas daquelas que passam na praia no Verão, para dizer, em letras garrafais: «Daniela, eu sofro. A tua mãe é que tinha razão» ou «Kierkegaard tinha razão porque tinha uma sogra.» Ora, toda a gente sabe que as avionetas se alugam única e exclusivamente por duas ordens de razões: ou porque se quer anunciar uma festa de arromba na Locomia ou porque não temos coragem para escrever, aqui, «Tropeço de ternura por ti».
Rui

 

Porque não se aguentam estas garrafas nem mais um minuto


[Julianne Moore por Mario Sorrenti, W. Mais aqui]
Rui


sexta-feira, janeiro 28, 2005

 

Cobra bottled beer. Ingenious because less gaseous

CHARMING BEER

Lured from the rice field. A unique blend of barley malt, yeast, maize, hops and rice and very importantly not as much gas as is often in a lot of other bottled lager-beers. Against all odds, Cobra has become one of the fastest growing beer brands in the UK, much loved throughout the land.

COBRA BOTTLED BEER.

INGENIOUS BECAUSE LESS GASEOUS

Tendo descoberto esta publicidade ontem num bar, procurei hoje informar-me sobre tão engenhosa cerveja. No respectivo site, pode ler-se

So, you will find everything in this story. Ingenuity. Passion. Vision. Everything. With just a little less gas.

Vale a pena continuar a ler.
Rui

quinta-feira, janeiro 27, 2005

 

Ontem, na Cinemateca

A alta cultura comeu a baixa cultura como se fosse uma criada de servir chegada ontem mesmo das berças. Esta, infelizmente, baixou as cuequinhas. No dia em que a pornografia se transformar em rato de laboratório cheio de eléctrodos para a alta cultura melhor observar e dissecar estará morta e - então sim - cheirará mal. Na Cinemateca, estamos todos de bata branca, estetoscópio, luvas e pinças. Entre nós e o filme, entre nós e nós, uma espessa redoma de vidro. Ou alguém se masturbou ontem, na sala Félix Ribeiro? É um total embuste a ideia de que somos tão progressistas que até mostramos o «Garganta Funda» na Cinemateca. Progressista, progressista era levar o Bénard ao Paraíso. Deixem-nos lá ver o «Ordet» na Cinemateca e ir depois ver o «Garganta Funda» ao Paraíso, que é assim que está bem. Até porque o serviço de limpeza do Paraíso é muito melhor que o da Cinemateca: são anos de experiência.
Rui

 

Falam, falam


Li no Expresso que a recente publicidade do Gato Fedorento fez duplicar os créditos do Montepio Geral. Eu pertenço ao grupo dos que já tinham crédito à habitação no Montepio antes de verem o anúncio. Gosto muito do RAP, mas ainda gosto mais do meu Belenenses. Filipe

quarta-feira, janeiro 26, 2005

 

Faunia e Coleman

Quando, no livro, ela lhe diz que precisa de homens muito mais velhos do que ele, alguém com cem anos, talvez entrevado numa cadeira de rodas, temos a confirmação que ela sabe coisas sobre o ser humano, que há ali uma sabedoria antiga a falar. E compreendemo-los: eles são iguais e ela é tão velha como ele. No filme, nessa mesma cena (a cena em que ela, recordo, dança para ele), achamos que ela diz isso só para fazê-lo sentir-se melhor com a idade – e lamentamo-los. Eles já não estão de igual para igual, nem já velhos por igual; de repente, são apenas a jovem que se meneia em frente do velho professor movido a viagra, a quem lubrifica o ego com uma frase de consolação barata e triste. No livro, ela diz-lhe «és tu que és novo para mim»; no filme, ela diz-lhe «és um velho». É como se Faunia tivesse espetado uma estaca no coração do vampiro e este tivesse envelhecido, apodrecido, de um momento para o outro. A diferença entre o livro e o filme está um bocado nisto. Rui

 

Elogio da incoerência

O Ivan Nunes criticou, de forma particularmente certeira, o autoritarismo revelado por Francisco Louçã e João Teixeira Lopes a propósito das posições de Paulo Portas sobre o aborto. Isso não o impediu de confessar, no final do texto, que vai votar no Bloco: «Tudo isto lembra o velho, o sábio conselho de Álvaro Cunhal: dia 20, é virar a cara para o lado ao fazer a cruzinha.» Como diria João Teixeira Lopes, o Ivan «constrói uma fachada de liberal que depois não leva até às últimas consequências». Filipe

terça-feira, janeiro 25, 2005

 

Marxismo-leninismo

Pelo que se viu no debate com Portas, Louçã foi a um daqueles cirurgiões que há agora que fazem a reconstrução do hífen. Rui

 

O factor X


O meu amigo Y disse-me que Santana se tinha saído pessimamente na entrevista ao Expresso da Meia Noite. A minha amiga X disse-me exactamente o contrário. Para tirar as dúvidas, vi a repetição do programa e acho que percebi o que tanto agradou a X. Santana desempenha muito bem o número da lamúria. Foi particularmente eficaz quando justificou a forma desastrosa como leu o discurso da tomada de posse: «Senti-me muito mal. Sou de uma família com problemas respiratórios.» Santana desperta instintos maternais. É isso. Pode não despertar mais nada, mas instintos maternais ainda desperta. Clara Ferreira Alves, a entrevistadora, também estava enternecida com «o Pedro». Há quem diga que o método da lamúria não resulta. Mas como lembra outro Pedro, no livro Fora do Mundo, Chris Martin, o vocalista dos Coldplay, andou a queixar-se da sua vida amorosa; que estava triste, que até era bom rapaz, etc. e tal. Meses depois, estava casado com Gwyneth Paltrow. Filipe


segunda-feira, janeiro 24, 2005

 

Closer

Ao pé de Clive Owen, Jude Law fica pequeno. Não fica feio, fica pequeno. Para além deste não pequeno feito, Owen fica com a rapariga que Law queria. Law consegue perder as duas raparigas que deseja. Uma delas, por duas vezes, para o mesmo Owen. A outra, que aliás tinha igualmente ido para a cama com Owen (e gostado), deixa de amá-lo e vai-se embora. No final, já minúsculo, Law, sozinho, de mãos nos bolsos, percebe que não percebeu nada. Sente-se profundamente burro, como se todos tivessem recebido o memorando menos ele. Não é difícil supor que tenha ido para casa curar as mágoas passando ao papel toda esta história. Sim, porque Law é escritor. Na vida real, presumo, Law chama-se Marber, e é igualmente escritor, dramaturgo para ser exacto. Ora, Marber é o argumentista de «Closer». Preocupante. Rui

 

perto demais

You writer! You fucking liar!

Espantosa a devastação causada pelo substantivo «escritor» atirado à cara de alguém como insulto, e ainda por cima certeiro. Quando Alexandra Lencastre deixou Piet-Hein por, era o que se dizia, João Lopes, pensei «afinal ainda há esperança na vida» - e agora isto. Até doeu. Será que chega a ser reconfortante para Marber, o argumentista, ver-se representado no écran por Jude Law, o «homem mais bonito do mundo»? Do género: sim, sim, mas ao menos I get to be played by Jude Law. O mais triste é que acho mesmo que sim. Rui

 

Não se pode pensar em alemão


Este fim de semana regressei à minha condição de cidadão Nunes e passei pelo Fórum das Novas Fronteiras. Como é costume, à medida que se sucediam as intervenções, a sala de congressos do Estoril ia ficando mais vazia. (Isto tornou-se particularmente evidente quando Eduardo Lourenço apresentou o seu novo conceito de «portugalidade como lençol da Europa».) De repente, aterra no palco Martin Schultz, do SPD alemão. Schultz é líder parlamentar do Partido Socialista Europeu, e ficou mundialmente conhecido quando Berlusconi o apelidou de «capo» de campo de concentração. Uma injustiça, não duvido. Mas quem ouve um político alemão a discursar, percebe logo que o nazismo só podia vir dali. Enquanto Schultz falou, a sala encheu e ficou verdadeiramente hipnotizada com o carisma da língua. Tirando o «PS Kampf ist mein Kampf», não percebi nada sem a ajuda da tradução. Pareceu-me ouvir falar em «nazional socialismus», mas não juro. Duvido que alguém tenha percebido alguma coisa. Até porque não era isso que interessava. O que fascinava era a forma como Schultz dizia as coisas. A brutalidade daquela língua. Heidegger escreveu que «só se pode pensar em alemão». A mim, basta-me ouvir alemão para ficar livre de qualquer espécie de pensamento. Se naquele fim de tarde Herr Schultz nos tivesse mandado invadir a Espanha de Zapatero, o que era, até então, um Fórum de gente pacata transformar-se-ia numa nova Legião Condor. Filipe

domingo, janeiro 23, 2005

 

Verdade ou Mentira?



Andava eu a arrumar os meus ficheiros de jornais e revistas quando, às tantas, encontro este recorte, um texto publicado na revista Focus do ano passado e intitulado “Desventuras de um jovem filósofo”. Leiam e ajuízem:

“Na passagem dos anos 80 para os 90 do século passado, uma estrela despontava no firmamento intelectual da Universidade Nova de Lisboa, à Avenida de Berna, nos terrenos do antigo Grupo de Companhias de Trem Auto. Um jovem professor de Filosofia começa a dar nas vistas graças à sua prolífera publicação de livros e artigos da especialidade, de valia reconhecida pelos seus pares. A ascensão foi meteórica – e, enquanto se passeava no pátio, de sobretudo aberto, com um eterno cachecol vermelho a esvoaçar ao vento, o doutor começou a sonhar alto de mais, cedo de mais.
Admitido num prestigiado centro de investigação, logo cobiçou o lugar cimeiro de secretário ao seu velho mestre, um catedrático que pouco antes atingira a idade da jubilação – 70 anos. E foi precisamente com o argumento de que o secretário já estava jubilado que o jovem filósofo convenceu o instituto governamental que tutelava aquele centro a destituí-lo por ter ultrapassado o limite de idade.
Um belo dia, quando o patriarca se preparava para dar início a uma reunião de investigadores, o jovem doutor anunciou-lhe, sem mais aquelas, que já não tinha poderes para dirigir a instituição, nos termos de uma certa da tutela, que exibiu, com ar triunfante.
O velho, ferido na sua dignidade, encaixou o golpe. Limitou-se a responder: “Então, já não estou aqui a fazer nada”. Abandonou a sala, atravessou a pequena antecâmara e saiu para o pátio. Mas quando viu que todos os investigadores o seguiam, com a única excepção do que o desafiara, voltou atrás.
O jovem filósofo vinha a sair. Cruzaram-se na antecâmara. O catedrático levantou a mão septuagenária ao mesmo tempo que martelava casa sílaba, à maneira coimbrã: “Seu malandro!”
Manuel Maria Carrilho caiu desamparado para cima de um sofá de napa preta. Com a melena desgrenhada, o sobretudo descomposto e o cachecol à banda, só teve tempo para esboçar: “Ó professor, ó professor, então, então...”
Epílogo
O velho catedrático continuou ainda por mais alguns anos a orientar doutoramentos e mestrados, até pouco antes de morrer.
O instituto que tutelava o centro de investigação acabou por ser extinto.
Manuel Maria Carrilho continuou a sua carreira fulgurante na universidade e na política, mas teve que ir pregar para outra freguesia.”

João Pedro

sábado, janeiro 22, 2005

 

Louçã Portas Aborto

1. Não é o Bloco de Esquerda que defende o direito dos casais homossexuais adoptarem crianças? Ora esses casais, que presumivelmente nunca tiveram filhos, não compreendem o que é gerar vida. E não têm, por isso mesmo, legitimidade para falar de direito à vida. Em tais condições, poderão eles educar uma criança? Segundo Francisco Louçã não.

2. Consigo compreender a irritação de Louçã e não me choca nada que um político, de vez em quando, perca a cabeça. Isso torna-o, como se costuma dizer, mais humano. Aproxima-o de nós.



João Pedro


 

Jude Law

Jude Law sucedeu a Peter O’Toole como a cara de Deus - um Deus andrógino -, de uma beleza solar perfeita, composta em doses iguais, e maciças, de fraqueza e força. Tanto mais contra-intuitiva, logo tanto mais eficaz, a sua escolha para papéis em que é preterido, em que é feito mais pequeno por outros menos belos. Rui

sexta-feira, janeiro 21, 2005

 

Um livro espantoso de Manuel Alegre

Um grande livro de memórias. Manuel Alegre revisita a infância em Águeda, a casa da família, as conversas dos velhos republicanos que conspiravam com a avó Beatriz, as brincadeiras de rua, o berlinde, o botão, as futeboladas, os namoros no adro da igreja, as caçadas com o pai, o colo da mãe, as criadas atrevidas que levantavam as saias, a escola, os retratos de Carmona e de Salazar, os colegas de carteira, o professor de cigarro no canto da boca, as tardes quentes de Verão no rio, as histórias de arrepiar à noite, o cheiro das fogueiras, as cenas de pancadaria com os miúdos das frequesias vizinhas, as provas de coragem e de virilidade. Tudo aquilo que faz da infância um mundo fantástico e inesquecível. Dificilmente encontraremos na literatura portuguesa dos últimos anos um livro com o talento, a simplicidade e a boa-disposição deste Alma. Nele sentimos a melancolia do poeta e a mestria narrativa dos melhores prosadores, com o calão e a gíria perfeitamente integrados na linguagem literária. E depois há o humor, natural, sem ser forçado, como na cena do jogo de futebol entre o Beira-Rio e o Vista-Alegre ou nas discussões, bem regadas, entre republicanos e monárquicos. “Alma, dizia eu. Como quando era pequeno e dizia mãe”. Do princípio ao fim, lê-se de um fôlego.

João Pedro

quinta-feira, janeiro 20, 2005

 

Blind date

«- Olá, eu sou o 121.203.164.#, e tu?»
Rui

 

Separados à nascença

Só vi o trailer, mas serei o único a achar o Ricardo Trepa igual ao Tino de Rans?
Rui

 

Pessoas que estão a uma letra de diferença de serem outra coisa, e respectivas profissões

Dido, cantora. Pitof, realizador. Rui

 

Aprendizagem do dia de ontem

Nunca jogues à bola com estranhos se não passas a maior parte do tempo à baliza. Nuno

 

Pronto, era o Frota, mas isso não é o mais importante

Imagem da semana: uma senhora respeitável, dos seus sessenta e tal anos, daquelas que vão à igreja e tudo e também aos chás com as amigas, transportando uma revista com um actor porno na capa. Nuno

 

O espanhol é fodido

Desde que regressei de Madrid, uma das minhas maiores ambições era poder voltar a exercitar o meu espanhol, aprendido em dois meses intensivos de «telebasura». Pela primeira vez na vida, eu falava melhor uma língua estrangeira do que os meus amigos (este é uma excepção). Saber espanhol seria hoje a minha vantagem comparativa. Talvez mesmo a única. É que há sempre imensas miúdas espanholas em Lisboa, cheias de «salero e assim».
No outro dia, visitaram o nosso país o P.M., su novia, M., y su hermana, também M. Previamente informada, M., a hermana, perguntou-me se eu tinha gostado de estar em Madrid. Chegava finalmente o momento ideal para eu brilhar:
«Si, si. Ha corrido* mucho bien
* Para os menos versados, como eu, digamos que isto nos remete, lamentavelmente, para o título do post.
Filipe

 

Digestões de leitor

Os livros, não por força os melhores ou os de que mais gosto, mas aqueles de que me lembro exactamente onde, como e quando os li, e que os li de um só fôlego. Uma lista de memórias de leitura, não de melhores livros (pela precisão, mind you, que a pretensão é a mesma). Por essa razão, não corro o risco de me esquecer dela.

Papillon de Henri Charrière. Quando nasci, já lá estava na estante, ao lado do Irving Wallace, do Olhai os Lírios dos Campos e do Dr. Spock, o famoso sexólogo. Já lá estava em casa, quer dizer, a casa era a dos meus pais. Sentei-me a lê-lo no sofá de couro ao fundo, na marquise fechada da sala. Ainda lá cabia todo dentro, virado de costas para a luz e para o frio (os caixilhos de alumínio são sempre frios). Quando o reli, anos mais tarde, fui sentar-me exactamente no mesmo sítio para sentir exactamente o mesmo e gostar exactamente da mesma maneira. Posto assim, poderá parecer impossível.

Catch-22 de Joseph Heller. Estava na casa dela e o livro era, é, da mãe dela. Estava na casa dela e não conseguia dormir. Ela dormia. Fui para a sala passear. A sala era acolhedora e eu gostava de estar naquela sala. Tirei-o da estante porque tinha ouvido dizer que era bom (com o Viagem ao Fim da Noite fiz o mesmo). Sentei-me no sofá a ler. Li-o até de manhã, consciente de que estava a ler pela madrugada fora um livro supostamente bom num sofá de pele em casa da namorada que supostamente estava a dormir. Felizmente, o estar tão consciente de estar consciente disso não me impediu de gostar do livro. E se acrescentasse «quem diz o livro diz, está claro, o resto» não seria, é óbvio, verdade.

Crime e Castigo de Dostoievsky. Quando era puto, meti na cabeça que havia de ler livros segundo certos e determinados planos, do género todos os do Eça ou todos os do Aquilino Ribeiro. Bom: os meus pais tinham destas colecções «Obras Completas de» em abundância, como o Eça no Círculo dos Leitores, aquela da RTP com bolas de cor nas lombadas (Mar Morto de Jorge Amado seguido de Como Jogar Xadrez no Escuro), e agora também a do Público e a dos Prémios Nobel. Entre elas, a do Dostoievsky numa edição vermelha de capa dura «debruada a ouro», como se diz. Li três de seguida (talvez a última ocasião em que a expressão «três de seguida» fez sentido), por esta ordem: Os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo e O Jogador. Depois, desisti do plano como se desiste de um brinquedo novo excessivamente elaborado.

My Dark Places de James Ellroy. Li-o em casa, numa casa que era a minha mas já não é. Li-o em horas de culpa que roubei ao trabalho, enrodilhado no sofá. Agora, está ali - estou a vê-lo -, na mesma estante, no mesmíssimo lugar da estante. É um livro quase impossível, sobre a memória que um puto tem do assassinato da mãe. Um assassinato que volta a investigar depois de adulto. Um homícidio que um homem levou uma vida inteira para olhar de frente, e com ele a si mesmo. Os pais de Ellroy divorciaram-se era ele ainda criança. Eu acho que os filhos de pais divorciados se lembram melhor da infância; eu lembro-me muito mal. É como se fosse importante começar a recordar mais cedo, logo. Toda a gente sabe a idade que se tem na terceira classe, eu não; e por aí fora. A primeira coisa de que me lembro é a lágrima do Misha em 1980, tinha eu sete anos. E depois temos este machão, Ellroy, que fala da mãe promíscua com uma ternura imensa, uma ternura tanto mais perturbante e terna por ser servida pela arma que Ellroy usa para escrever: a rajada de metralhadora, e o ritmo staccato.

Sinais de Fogo de Jorge de Sena. Para quem cresceu a atravessar a placa na Rua Garcia de Orta que assinala o fim do concelho de Lisboa para ir apanhar o 46-A, é uma outra adolescência. Sena fala, sem pieguices e com uma limpidez difícil, de amores adolescentes, do Sol e da praia, da iniciação sexual e de como o sexo envelhece as pessoas, de como o sexo desencadeia na biografia adolescente uma cronologia nova. Luz, Verão, prazer, culpa, redenção. A criança de Junho, em Agosto, é já um velho. Ficou-me a memória daquele banho de mar que nem tudo lava porque é impossível, e mesmo não é desejável, que o faça, ou seja, que a vida se viva em permanente inocência. A adolescência não é a idade da inocência, é a idade para acabar de vez com a inocência. Precisamos dos pontos de não retorno criados pelas consequências do que fazemos, é isso que faz de nós homenzinhos.
O livro não era meu, nem sei de quem era e não me lembro onde o li. Só sei que tem a edição da Asa mais feia que conheço e que, ainda hoje, e sendo porventura o livro de que mais gostei, não o tenho. Rui

quarta-feira, janeiro 19, 2005

 

A cobaia de JAD

«Se os homens engravidassem, o aborto já não era crime.» A frase é da autoria da cabeça (?) de lista do Bloco de Esquerda por Santarém, Joana Amaral Dias (JAD). Como adepto da causa, gostava de saber quando abre o concurso para cobaia nas experiências biológicas de JAD. Filipe

terça-feira, janeiro 18, 2005

 

Charles Bukowski: os grandes títulos

Run with the Hunted (1962);
It Catches My Heart in Its Hands (1963);
Crucifix in a DeathHand (1965);
Cold Dogs in the Courtyard (1965);
Confessions of a Man Insane Enough to Live with Beasts (1965);
All the Assholes in the World and Mine (1966);
Poems Written Before Jumping out of an 8 Story Window (1968);
The Days Run Away Like Horses Over the Hills (1969);
Burning in Water, Drowning in Flame: Selected Poems 1955-1973 (1974);
Love is a Dog from Hell: Poems 1974-1977 (1977);
Play the Piano Drunk/Like a Percussion Instrument/Until the Fingers Begin to Bleed a Bit (1979);
Shakespeare Never Did This (1979);
Bring Me Your Love (1983);
Hot Water Music (1983);
You Get So Alone at Times That It Just Makes Sense (1986);
The Last Night of the Earth Poems (1992).

 

Melancolia

A minha estreia nos jornais (O Independente, 12/12/1997) deu-se com este texto.

Charles Bukowski revisitado (e maltratado).

Considerado por Sartre e Jean Genet como um dos maiores poetas americanos contemporâneos, Charles Bukowski foi reeditado pela conceituada Relógio d'Água. E antes o não tivesse sido, pois para quem aprecia literatura e gostaria de conhecer melhor a obra deste escritor, a presente edição é para esquecer. Pelo lugar que disfruta no meio editorial português, esta editora dever-se-ia sentir obrigada a tratar com mais cuidado e com outro brio profissional as obras que edita. Num país que o tem ignorado, Bukowski merecia melhor. A Sul de Nenhum Norte (originalmente publicado em 1973 pela Black Sparrow Press) mostra-nos agora um Bukowski truncado, mal traduzido, onde o sub-título da edição original (Stories of the Buried Life) fica na gaveta do tradutor (Manuel Resende); não existe um índice dos contos (e são vinte e sete); as gralhas são mais que muitas e, pasme-se!!!, há contos que estão incompletos (Solidão)! Assim não vale a pena ler livros. Muito menos ainda desembolsar os quase três contos que este custa.
O leitor português perde pois uma das poucas oportunidades para retomar contacto com o universo literário deste escritor norte-americano, num livro que nos relata, no original, o dia-a-dia nos subúrbios de Los Angeles, onde a cerveja e o bourbon dão vida a personagens dominados pela violência e pelo sexo. Vagabundos, prostitutas, bêbados e outros marginais perpassam ao longo das suas páginas, retratados com um humor lúcido e uma paixão irredutível pelo perverso. Bukowski contruiu toda uma obra com o peso da sua própria existência. Bêbado santificado numa prosa larvar, o álcool foi o companheiro inseparável da vida e da obra deste escritor que nasceu em 1920 numa pequena cidade alemã, Andernach. Aí viveu até aos três anos de idade, altura em que foi levado para os Estados Unidos, país que não mais abandonou e onde veio a morrer aos 74 anos de idade, vítima de uma leucemia.
Através do seu alter-ego, Henry (Hank) Chinaski, as histórias deste A Sul de Nenhum Norte (no original South of No North – Stories of the Buried Life) são narradas num tom que se fica entre o realismo obsceno e a sátira feroz, usando e abusando de imagens escatológicas, frases mordazes e vocabulário pouco recomendável. Num estilo coloquial, característica saliente da ficção americana, as suas frases simples, curtas e sem pretensão intelectual, lembram o estilo dos melhores contos de Hemingway e Saroyan, mas com um humor que estes nunca revelaram.
Poeta dos subúrbios, Bukowski foi durante muito tempo um fantasma no mundo espectral do underground americano, enviando os seus poemas e escritos de velho indecente a revistas marginais e pornográficas de tiragem reduzida. Decidiu tornar-se escritor profissional em 1968 quando John Martin da Black Sparrow Press lhe ofereceu um rendimento mensal para toda a vida. Encontro feliz, pois o êxito de um foi o sucesso de outro. Traduzido na Europa, onde logo mereceu maior atenção que nos Estados Unidos, chegou a ser o escritor americano mais vendido na Alemanha e em França. Para a história fica ainda a sua polémica passagem pelo prestigiado programa literário Apostrophes, onde se embebedou em directo frente a 50 milhões de espectadores. Abandonou o programa a meio, assediou uma das escritoras convidadas e ameaçou o moderador Bernard Pivot. O filme Barfly, realizado por Barbet Schroeder e interpretado por Fay Dunaway e Mickey Rourke, consagrou-o definitivamente.
Charles Bukowski permaneceu, todavia, um homem coerente e, por isso, inevitavelmente só. Fiel a uma peculiar honestidade, deixou à sua passagem um rasto de veneração e de ódio. Goste-se ou não, merece ser lido com rigor. Precisamente o que falta a esta edição da Relógio d'Água.

ATENÇÃO: Esta edição miserável continua à venda. Via-a ontem nos escaparates da FNAC do Chiado.

João Pedro

segunda-feira, janeiro 17, 2005

 


Quando o rei


faz anos

Rui

sábado, janeiro 15, 2005

 

Por achar que a minha escrita estava a ficar demasiado agressiva

Deixei de usar o Times New Roman e regressei ao Bookman Old Style. Nuno

 

O Trabalho

A edição do DNA desta semana traz um perfil do realizador José Pinheiro. Do Zé Pinheiro, melhor dizendo. Trabalhei com o Zé Pinheiro – e toda a malta do Nervo – num programa de televisão chamado “O Trabalho”. Em 2001, penso. A ideia-base consistia em filmar profissionais de diversas áreas – desde mineiros a técnicos da TAP, passando por agricultores biológicos e funcionários em barragens - e depois fazer das filmagens e das suas declarações uma espécie de videoclips. A banda sonora desses videoclips partia sempre dos sons de cada uma dessas profissões. Eu era apenas o jornalista de serviço, mas na ficha técnica aparecia generosamente como o editor da coisa. Fui muito bem acolhido por aquela equipa admirável – o grupo já havia feito, por exemplo, o memorável Pop Off – e, por uma daquelas químicas inexplicáveis, não demorei muito tempo a integrar-me. O Miguel Nogueira fazia parte desse time maravilha. O Miguel, o Zé, o Paulo Prazeres, o Tó Forte, o João Pedro Gomes e o Tiago Lopes. Bons tempos esses (onde, no meio da corrida contra os prazos, houve até um momento de gritaria). O Daniel Oliveira, como autor do conceito do programa, também aparecia de vez em quando. Durante dois, três meses, estivemos instalados em casa do Zé Pinheiro (ali na rua do Salitre), em sessões contínuas de dar-no-duro. Com alguns jogos de Fifa pelo meio, como convém a estas coisas. Tenho-me cruzado com o Miguel, o João Pedro e o Prazeres. Mas nunca mais vi o Zé Pinheiro. Reencontrei-o hoje, no quiosque da esquina. Nuno

 

Achei que era importante o mundo saber isso

Hoje, o meu filho conseguiu virar-se sozinho pela primeira vez. Nuno

 

Picanços

Há dias escrevi uma crónica em que lamentava só ter recebido mensagens do género “que 2005 seja melhor do que 2004” - e outras generalidades com o nome do Santana subentendido. Queixava-me de não ter recebido SMS´s insultuosos antes da passagem de ano. Bofetadas por escrito. Mensagens que me picassem e me chamassem de preguiçoso para baixo. Ontem, finalmente, a coisa aconteceu. Por outras vias. Não recebi SMS’s nenhuns, mas fui insultado por um amigo cara a cara (comparou-me, imagine-se, com o João Cabeleira) e picado por outro via email. Ambos disseram que ando demasiado escondido nestes últimos tempos. Meus caros, é por causa de vocês que estou a escrever este post – e que finalmente resolvi despir o pijama. Estejam descansados. Um dia destes serei eu a enviar os petardos. Nuno

sexta-feira, janeiro 14, 2005

 

A Idade da Inocência

"Wanting to meet an author because you like his work is like wanting to meet a duck because you like pâté"
(autor desconhecido)

João Pedro

quinta-feira, janeiro 13, 2005

 

Metonímia


Does anybody need another self-righteous rock singer


Whose nose he says has led him straight to god*



* Lou Reed, «Strawman», New York, 1990, track #13
Rui

 


I've been told

That you've got a cold
with Harry, Mark and John


Rui

quarta-feira, janeiro 12, 2005

 

Words don’t come easy to me

Na vida, há coisas que são em «anço» e há coisas que são em «ismo». E há, consequentemente, quem prefira coisas em «anço» e quem prefira coisas em «ismo». Eu sou pelo «anço». Senão, vejamos: «empernanço», «enrabanço», «chafurdanço» ou «esfreganço». Experimente-se, em qualquer destes substantivos, trocar o «anço» por «ismo». «Enrabismo»? Uma doença, claramente. «Empernismo»? Má formação congénita. «Esfreguismo» não existe fora do relatório Kinsey. Para quê aleijar a boca a dizer tribadismo se podemos usar empernanço? O «anço» é feito de langor, o «ismo», de rancor. O «ismo» ganha em patologia o que perde em poesia. E quem diz patologia, diz ideologia. As coisas em «ismo», no fundo, são um achismo; um achismo-leninismo. E quem cai vítima do «ismo», um chato. Rui

 

Lost in translation

«And there ain’t no nothin’ we can’t love each other through.»
Traduz-se por:
«E não há não nada através do qual não nos amemos um ao outro.»
Han? «Não nada» soa mal? Será «nenhum nada»? Pois, assim o resto já soa melhor.
«E não há cá nada que a malta não se ame através de.»
Sinto que estou a chegar lá. Mas, através de, de quê?
Avancemos um pouco, para ver como é que fica a frase no seu contexto.
«Sha-na-na-na.» Esta é fácil. Fica assim: «Sha-na-na-na.»
«O amor é um lugar estranho.»
Agora acertei.
Rui

terça-feira, janeiro 11, 2005

 

Sou o maior, sou o rei! Vou acabar com todos os vadios!

O meu nome é João Pedro George. Não era o tipo de aluno que era esperto na escola. Tinha o hábito de intimidar. Sentava-me ao lado do rapaz mais pequeno da aula, o mais inteligente. E quando tínhamos de fazer testes, dizia-lhe: “Se não me deixares ver o teu teste vou apanhar-te depois das aulas...” E ele ficava tão assustado, que dizia: “Por favor, João Pedro. Por favor, eu faço qualquer coisa. Tu... Tu podes ver. O que queres? Mostro-te tudo?” Eu dizia: “Dá-me a resposta às perguntas 10 e 11”. E ele passava-mas. “E se contares isto a alguém é melhor não vires mais à escola”.
Vou ser o próximo campeão olímpico. Vou acabar com todos os vadios. E se se armarem em espertos, acabo com todos vocês. Eu voo como uma borboleta e pico como uma abelha. Acertei-te! Boa. Vem cá, parvalhão! Sou jovem, sou bem parecido, sou rápido, sou bonito e ninguém me pode derrotar. Estás a ouvir-me, Camões? Estou aqui para acabar com o teu reinado. És demasiado feio para seres campeão. O campeão mundial devia ser bonito como eu. Camões começa a recuar. Se Camões continua a recuar, no banco da primeira fila vai acabar. Um soco com a esquerda, um soco com a direita. Camões continua a recuar, mas não existe espaço suficiente. De tempo, é só a questão. Sou um turbilhão. Camões desaparece de vista, o público está a ficar frenético. Mas as nossas estações de radar interceptaram-no, ele está algures no Atlântico.
Eça de Queiroz não está à minha altura. É demasiado pequeno, é demasiado lento... não tem amplitude, não sabe dar um soco, não bate com força e não conhece o jogo dos pés. Previ, pelo modo como fala de mim, que eu iria dar-lhe uma bela coça e estou muito grato por ele ter tido a força para se levantar, porque aquilo que levou foi uma bela coça. Dei-lhe oito socos consecutivos no queixo. Pim, pam pum! Desmoronou-se como um grande edifício. O meu sangue está quente. Sou um guerreiro, sou um combatente. Sou o peso-pesado mais rápido, o mais elegante, o mais científico e o mais artístico de sempre. Sou mesmo o melhor de todos os tempos.
Se julgam que o mundo ficou espantado com o Fernando Pessoa esperem até eu dar cabo dele. Ele é um touro. Eu sou o matador. Pessoa está morto de medo. Pessoa encontrou o seu mestre, o seu professor, o seu ídolo. Sou o maior. Já disse ao mundo. Converso com Deus todos os dias. Se Deus está comigo, ninguém pode estar contra mim. Eu abalo o mundo! Eu abalo o mundo! Sou o rei! Sou o rei do mundo!

I done wrestled with an alligator. I done tussled with a whale. I done handcuffed lightning – throw thunder in jail! That’s bad! Last night, I cut the light off in my bedroom. Hit the switch and was in the bed before the room was dark. Only last week, I murdered a rock. Injured a stone. Hospitalized a brick. I’m so mean, I make medicine sick!

Sou mau! Sou terrível. Sou veloz. Sou bonito. Sou rápido. Abalo o mundo! Abalo o mundo! Abalo o mundo! Dois jabs esquerdos rápidos, um cruzado direito rápido e um gancho esquerdo. Não tenho de ser aquilo que tu queres que eu seja. Sou livre de ser o que quero ser. O preço da liberdade é muito alto. Esta noite sou livre

João Pedro (a partir das entrevistas de Muhammad Ali)

 

Céline

Um uivador furioso. Que odiava tudo e todos. O mundo, a humanidade. O ser humano? Um merdas, um cobarde, um gorila comilão. O amor? “A palavra mais fedorenta, obscena e peganhenta de todo o dicionário”. Progresso? Felicidade? Esperança? Sortes-macacas! Pecado original sim, salvação nunca. Céline morreu a espumar. A refilar. Delirante, torcido de ódio. Uma congestão cerebral. Horas antes tinha acabado de escrever um romance, Rigodon. Vivia em Meudon, no sudoeste de Paris. Com a mulher, Lucette, e o gato Bébert. Vestia calças de jardineiro presas com uma guita e uma camisola imunda e rota. Dentes podres, unhas sujas, o jardim, a casa, os movéis, os objectos, tudo miserável, estragado, enferrujado.
Céline escrevia na linguagem falada das classes trabalhadoras, no argot dos soldados, no calão da rua, do lumpenproletariat, dos carteiristas e dos trapaceiros, dos donos de bordéis e dos vagabundos. Um francês oral e popular ignorado pela literatura. Um francês a milhas da linguagem académica, da prosa literária, da escrita asseada, com a frase direitinha, a sintaxe bem-comportada, os verbos no conjuntivo, a bela gramática. Céline inventou palavras, criou neologismos. Uma cacofonia de plebeísmos e vernáculo que virou do avesso o francês educado de Voltaire, da Enciclopédie e do liceu. Céline criou uma música e uma melodia próprias, uma escrita visual e barulhenta, atafulhada de pontos de exclamação e de reticências, alternando parágrafos convulsivos e caudalosos com frases truncadas, lacónicas e sem maneirismos verbais, onde as palavras atingem directamente o sistema nervoso sem passar pelo intelecto, pela razão. Com Céline a língua francesa perdeu o pudor, ganhou emoção, tornou-se vulcânica e escatológica.

“As ideias? Nada mais banal do que as ideias. A forma determina a acção da obra. A mudança de forma é que provoca a mudança de conteúdo. Não quero contar, quero fazer sentir. Escrevo como sinto. Não sou homem de mensagens. Não sou homem de ideias. Sou homem de estilo. E ao estilo ninguém se quer vergar. Dá imenso trabalho, vivem para gozar a vida, e isso não deixa trabalhar muito. O calão? Palavrões, obscenidades? Também Rabelais e Villon os diziam. O calão é feito para o operário poder dizer ao patrão que o detesta: vives bem e eu vivo mal, exploras e anda num grande carro, vou dar cabo de ti...”

“Agora há tanta gente que tem instrução superior, qualquer um que tenha diploma ou licenciatura pode escrever um romance. É a carta à priminha em ponto maior!”

“O Sartre? Uma ténia dos cagalhões, um merdoso... um bufo falhado... um chacal!... um bandulhozinho com olhos de feto!”

“Talvez haja uma coisa – a única coisa que talvez seja verdadeira –, é que não sei gozar a vida, não vivo. Não existo. E então, como não gozo a vida, tenho esta superioridade em relação aos outros, que estão realmente podres mas sempre a gozar a vida. Gozar a vida é beber, enfardar, arrotar, foder, é uma série de coisas que pregam com o homem no zero, e com a mulher também. É como o vício. Eu estava metido no vício até ao pescoço, na medicina até ao pescoço e nos bordéis até ao pescoço!... Mas foi preciso ter saído. Era o que dizia a Marie Bell: «Tu não és vicioso, porque se fosses vicioso não descreverias o vício, estarias lá metido». Quando não estamos lá metidos, descrevemo-lo. É como a política!... Estão lá metidos. Gostam dos consumidores. Estão lá metidos... Gostam dos netos... Pedem beijos... Gostam de uma carícia no quarto de casal e dizem: «Ah, querida, hoje trabalhei tanto!» Gozaram, ejacularam, fizeram coisas de porcos, são porcos como os outros!...”

“Prontos para atravessar os desertos e as ondas e procurar mundos diferentes noutro lado qualquer”.

(entre aspas: colagem de textos com as mais diversas proveniências)

João Pedro

segunda-feira, janeiro 10, 2005

 

Sem dúvida, o pior filme do ano


São raros os momentos como este, em que a má qualidade é tão espessa que dá para atravessar com um quebra-gelo russo daqueles da guerra fria; em que o incómodo é tão grande que sair simplesmente da sala se torna opção cobarde, em vez de indispensável acção higiénica. Está visto o pior filme do ano. É muito infeliz que seja protagonizado por um dos meus actores favoritos, Martin Donovan, e produzido por alguém respeitável e inteligente como Michael Stipe. É que nem sequer é do género tão mau que é bom, como o saudoso «Duarte & Companhia». Não: é mesmo mau. E é tão mau e grosseiramente estúpido que acaba por, paradoxalmente, caucionar, por contraste, aquilo que visa expor e criticar. Rui


domingo, janeiro 09, 2005

 

Psicoterapia

Quando, há um mês, o Benfica foi goleado pelo Belenenses, a RTP Memória passou, logo a seguir ao jogo, o Leverkusen-Benfica. Ontem, depois da derrota com o Sporting, recordou os 6-3 em Alvalade. Filipe

sexta-feira, janeiro 07, 2005

 

q.e.d.

Rui

 

Cinco vezes dois

Dez?
Rui

 

13%

Outro dia, a Oprah divulgou uma sondagem segundo a qual 13% dos casais têm relações sexuais todos os dias. Na ausência de um sociólogo em estúdio, fiquei sem saber se é muito se é pouco. E ainda dizem que os números falam por si. Rui

 

Os doze do Oceano: pouca uva

Se eu quisesse ter ido ver um filme reflexivo, auto-irónico, com muita palheta (os chamados «diálogos») tinha ido ver o Melinda e Melinda. Se quisesse saber o que é um sistema auto-referencial teria ficado em casa a ler Niklas Luhman. Eu queria era ver assaltos, planos de assaltos, pormenores de assaltos, mulheres e carros lindos usados em assaltos. Este Ocean’s Twelve tem muita conversa, muitas piadinhas sobre auto-ajuda (mas poucos carros, lá está) e sobre o género «heist movie» (como a cena de Vincent Cassel a atravessar dançando capoeira o átrio da galeria de arte em Roma, evocando, digamos, a melhor Zeta-Jones de Entrapment), que são divertidas ou mesmo muito divertidas. Gramei o gag genial sobre a idade de George Clooney e aquela cena do c******, com Don Cheadle. Contudo, este filme, em vez de se colocar na esteira de grandes filme sobre assaltos, como o portentoso Ocean’s Eleven, insere-se ao invés na cauda descamisada de filmes intelectuais como Scream, Last Action Hero e A Rosa Púrpura do Cairo. Ora, e por falar em Woody Allen, alguém disse no final: «Vou ver o Melinda e Melinda já a seguir, pode ser que tenha mais acção e menos conversa». E foi. Conta aí João Pedro. Depois, uma coisa que não é de somenos: ò Soderbergh, por que raio há-de a Julia Roberts estar sempre feia e magrela nos teus filmes? O melhor do filme é indiscutivelmente Catherine Zeta-Jones, capaz de ser a coisa mais sexy no écran, ainda que este contenha George Clooney - a quem obscurece uma e outra vez - o que, convenhamos, não é fácil. Rui

 

À atenção do senhor Diego Armando

.
«Debo decir que la equiparación de este último [Maradona] con los otros tres [Di Steffano, Pelé e Cruyff] me pareció siempre excesiva. Sin duda Maradona era extraordinário, probablemente más habilidoso o malabarista que ellos. Pero para estar a su nível le faltó, en mi opinión, algo básico: la inteligencia abarcadora. Era muy listo, muy vivo, rápido de pensamiento y de ejecución en el campo, pero, por así decir, con el tuve la impresión de que su cabeza "solo"» funcionaba allí, a ras de hierba. No me refiero a que sus opiniones o actos vestido de paisano, en su vida "civil", dejaran que desear, eso es lo menos en un futbolista, o lo puede ser. Es más bien que, a diferencia de Di Stéfano, Pelé y Cruyff, carecia de la capacidad milagrosa para estar a la vez a ras de hierba y suspendido n el aire, contemplando cada partido desde arriba en su totalidad. Era como si esos tres fueran a la vez actores y dramaturgo de una representación, interpretes y compositor de una partitura musical, personajes y autor de una novela, estrellas y director de una pelicola, a la manera de Chaplin o de Orson Welles
Javier Marias, «El estrabismo de los semidioses», Harán de mi un Criminal, 2003, p. 275. Filipe

quinta-feira, janeiro 06, 2005

 

O Candomblé de Ivan Nunes

Ivan Nunes, especialista em assuntos brasileiros (saravá!), chama a atenção para o facto de a Festa Literária Internacional de Pariti ser, não em S. Paulo mas, logicamente, em Parati. Pelo lapso, pedimos desculpa aos nossos leitores.
João Pedro

 

Autografia

O meu outro blog chama-se True Lies. Rui

 

Memória

Lembro-me bem de achar o Eternal Sunshine of the Spotless Mind falacioso. Eles sabem, porque ouviram nas respectivas cassetes, o que e por que correu mal, mas não têm memória disso. Sabem, cerebralmente, mas verdadeiramente não se lembram, emocionalmente. Se se lembrassem, mais do que apenas soubessem por ouvir dizer, duvido que continuassem. É um daqueles casos em que saber só não chega. Assim – e se excluirmos a bondade da ideia de que a noção clássica da cara metade é trunfo – resta apenas um comício; terno, muito bem feito, imaginoso, belo, mas um comício ainda assim. Uma falsa consciência como qualquer outra, uma ideologia tão emancipadora como o marxismo-leninismo de Bernardino Soares. Até porque é justamente tudo aquilo que se tem de fazer para enterrar alguém em nós, em vida, que torna difícil o continuar depois como se nada fosse; como se nada fosse, não: como se isso não fosse a negação mesma daquela pessoa em que, entretanto, nos tornámos. Rui

 

A dançar é que a gente se entende

A rapariga que dança bem – é bem sabido – é boa na cama. Poderão, evidentemente, existir raparigas que não dançam de todo, por qualquer razão, e que são boas na cama. Mas, e o casal? É possível a dois amantes nunca dançar um com o outro ou não gostar de o fazer ou nunca correr bem quando o tentam e serem bons na cama. É: mas e enquanto casal? Rui

quarta-feira, janeiro 05, 2005

 

Quantos dias nos restam?

Rui

terça-feira, janeiro 04, 2005

 

A inesquecível socióloga

.
Para aqueles, como eu, que começaram a frequentar o curso de sociologia há mais de dez anos, não pode deixar de causar estranheza o facto de verem nos jornais mensagens de relax que anunciam «inesquecíveis» universitárias e sociólogas. Na primeira metade da década de noventa, existiam basicamente dois tipos de estudantes de sociologia: as urbanas, pós-materialistas, que consumiam ciclos de cinema iraniano no King, e as suburbanas, materialistas, que, simplesmente, queriam casar e «entrar para o quadro». Todas achavam o Abrunhosa «montes de impecável». Nenhuma era propriamente «inesquecível».
Razões profissionais levaram-me a prolongar a minha presença na universidade muito para além do desejável. Os que foram à sua vidinha terão dificuldade em acreditar no que vou dizer. Neste momento, aquela célebre tanga tornou-se verdadeira: já não há miúdas feias (se não acreditam, comprem bilhete para o próximo festival do sudoeste). Não sei se são os efeitos da integração europeia, dos ginásios, dos iogurtes, mas a verdade é que o curso de sociologia está agora cheio de modelos e actrizes de novelas. O caso mais notório, embora não necessariamente o mais interessante, é o da ainda estudante Carla Matadinho – a Miss Playboy portuguesa. Ao contrário do que se passa com a maioria dos sociólogos da minha geração, a Carla é convidada para tudo o que é festa. O seu réveillon foi passado ao som de Woody Allen, no Casino do Estoril. E, como relata o insuspeito Público, Miss Carla «era uma das mais solicitadas» da festa. «Carla esperava ouvir música fantástica de um género que é para se ouvir ao vivo». A jovem universitária confessou ao Público que o facto de Woody Allen ser a estrela convidada «teve algum peso», apesar de «nunca ter visto nenhum dos seus filmes» (conhece-o «apenas de comentar», e gostar de «comentar» é fundamental numa socióloga). De resto, Carla admite que «não costuma estar muito atenta aos filmes que saem» (uma confissão impensável para a geração anterior, que só vem corroborar a minha tese). Decididamente, confirmou-se a sábia previsão de um colega de curso: «no dia em que a média de entrada baixar, o interesse disto aumenta». Filipe

sábado, janeiro 01, 2005

 

Eu hoje acordei assim, assim


(Depois do whisky e do karaoke.) Filipe



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