ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
esplanar@hotmail.com

terça-feira, novembro 30, 2004

 

Custou mas foi. Aleluia.

Rui

 

ddr esplanar


[Alan Wilson]

Projecto Streetphotography, ano 2003, semana # 30.

Rui

 

Porn, he says, is like karaoke.


[Alan Wilson]

When it's karaoke night down at the pub, nobody wants to get up first. Then, when it gets going, you're fighting for a turn.

Rui

 

Pornografia

Os filmes pornográficos são a Fórmula 1 do cinema. Tal como na relação dos carros de Fórmula 1 com os Seat Marbella, o modo como o sexo é mostrado num filme pornográfico é o oposto de sexo, o oposto de realista; é inverosímil. Será por isso que tanta gente se excita, com uns e outros. Rui

segunda-feira, novembro 29, 2004

 

Assim falava Mourinho

O desenvolvimento do país anda a ser prejudicado pela continuada fuga de cérebros para o estrangeiro. A última grande perda foi José Mourinho - «a grande cabeça em Portugal (de certeza) e na Europa também» (assim se autodefine). Seguindo o exemplo de Durão Barroso (outro cérebro em fuga), o antigo treinador do Porto dá prioridade aos compromissos internacionais. Deixou os jornalistas do Expresso plantados durante horas, porque, primeiro, havia que visitar o centro de estágios e dar uma entrevista ao prestigiado Der Spiegel. Mesmo assim a entrevista lá saiu no último sábado. Mourinho foi generoso com o maior semanário português: «Se a visita ao estágio inviabilizasse esta entrevista, eu tinha à-vontade para dizer [ao Abramovich] que não podia ir». Há outra frase da entrevista que ilustra igualmente bem uma forma original de olhar para o seu país (e para si próprio): «O Chelsea simboliza aquilo de que os ingleses não gostam: o poder económico estrangeiro (...) E para finalizar, chega cá um portuga que veio lá do fim do mundo».
Mourinho está deslumbrado com Londres. É natural. Quando sai à rua, cruza-se permanentemente com outras glórias mundiais, «como Sean Connery e o Jeremy Irons». A deslumbrante Monica Bellucci é mesmo vizinha de prédio do Valdemar Brito, o seu adjunto: «está mal acompanhado...», ironiza. Como se isto não bastasse, ultimamente, até tem frequentado «reuniões na UEFA, de alto nível» (sim, porque mesmo na UEFA também as há de «baixo nível»). No entanto, ao contrário de certas e determinadas pessoas, não colecciona «carros e Rolex». Mas acima de tudo, o treinador do Chelsea está deslumbrado consigo mesmo. E razões para isso não lhe faltam. É provável que este prodígio nacional esteja à beira de ganhar o Prémio Nobel da Ciência. «Defendo a globalização do trabalho, a não separação das componentes físicas, técnicas, tácticas e psicológicas», afirma com autoridade. O futebol está mais próximo da ciência do que de um mundo místico, «então, não?», diz o nosso génio. Mas, na dúvida, se a ciência puder contar com a ajuda divina, melhor. Mourinho é «de direita» - se calhar democrata-cristão, como o Dr. Portas -, e por isso leva sempre o crucifixo para os jogos. Diz que «respeita, mas não alimenta as superstições». Contudo, «Se o motorista do autocarro vier com as tangas que não pode entrar de marcha atrás eu obrigo-o a entrar de marcha-atrás.» Esta prática, tal como todas as práticas científicas de Mourinho, deve estar a tornar-se paradigmática, porque que quando estive no Bernabeu (Mourinho também vai lá, mas de helicópetro) reparei que tanto o autocarro do Kiev como o do Madrid entraram de marcha-atrás.
Para Mourinho o futebol não tem segredos. «Pagam-me para ganhar. Quando não conseguir resultados sou despedido.» Nestas coisas da bola, segue a regra máxima da mais velha profissão do mundo: nunca se apaixona pelo cliente. Há quem diga que saiu mal do Porto. Mourinho contesta: «Saí a bem. Vá ver as contas do Porto. Fui vendido.» A poucos dias de regressar às Antas, para um jogo da liga dos campeões, admite que vai levar seguranças, com a mesma naturalidade com que os levaria para a capital da máfia: «Se você for a Palermo, se calhar também precisa». De resto, Mourinho é acima de tudo um grande profissional, daqueles que o prof. Cavaco quer ver na política. Ao contrário de Scolari, quando chega a casa vindo dos estágios não vai a correr para os braços da mulher. Isso é para os piegas. «Alguns dormem mal porque estão com cagufa». Ele não: após os jogos liga a televisão para contemplar as suas obras de arte. Tem, aliás, uma carreira programada ao milímetro. «Penso treinar a selecção nacional entre os 50 e os 55 anos». Por essa altura já deve ter o trabalho científico necessário para receber uma daquelas bolsas de regresso da FCT. Até lá, vai comunicando com o país através da coluna no Record. «Às vezes, faltam-me temas», declara com modéstia. Como se não tivesse sempre esse grande tema que é ele próprio. Um dia todos os portugueses serão assim.
PS: Ao contrário do que dizem as más línguas, Mourinho tem sempre uma palavra amiga para com os seus colegas de profissão. Veja-se o que diz, por exemplo, do seu conterrâneo Octávio Machado: «É um nome marcante do futebol português como treinador adjunto. Como treinador adjunto tem um currículo fantástico». Filipe

 

Piadas de outros

As telenovelas mexicanas parecem filmes pornográficos mas sem sexo. Rui

 

Matt Boyd


[Aqui há mais.]

Rui

 

ddr esplanar


[Josh Rouse, Dressed up like Nebraska, 1998]

Forum Lisboa, 15 de Dezembro.
Rui

domingo, novembro 28, 2004

 

Epígrafe para memória futura


Eu mesmo temo às vezes
que nada tenha existido,
que a minha memória minta,
que cada vez e sempre
- posto que eu tenha mudado -
mude aquilo que perdi.

Líber Falco

[trad. epígrafe ao poema «Croquis para algun dia», de Mario Benedetti em Inventario. Poesia 1950-1985, Madrid, Visor Libros, 2003, p.231]
Rui

sábado, novembro 27, 2004

 

A minha expressão inglesa favorita reloaded

Rui

sexta-feira, novembro 26, 2004

 

Felizmente havia outro

É pá, um gajo pode ter muitas gajas. Ou muitas gajas podem possuir um gajo. Um gajo pode gostar de comida tailandesa ou finlandesa ou só da mãezinha. Ser contra o sistema métrico. Um gajo pode gostar do Vasco Granja, do Vasco Gonçalves ou do País Vasco. Ler Feuerbach e ouvir Clemente. Estar demente. Um gajo pode ter três telemóveis, um ror de amantes, múltiplas personalidades. Carros. Chaves. Seguros de vida. Um gajo pode até ser padre. Gostar mais do Lennon, ou mais do Harrison ou mais do Paul. Ter como banda favorita os Peter, Paul & Mary. Ler a Bíblia. Ter andado no Externato Luso-Soluço. Ser um urso. Um gajo pode andar nos trocadilhos anónimos ou nos escuteiros. Fazer um crisma e depois outro. Um gajo pode ter manias esquisitas e manas esquisitas. Pode ter tido um cão chamado Brás Cubas. Ter gostado de ir à China e nunca ter saído do Cais do Ginjal. Um gajo pode e deve ambicionar ter Curzio Maltese por pseudónimo. Ou chamar-se António. Mas o que um gajo tem de certeza só um, e sempre o mesmo, e usa sempre esse até se estragar é – um único cinto. O meu morreu ontem. Rui

 

A nova referência na defesa dos fracos e oprimidos

Gosto desta entrada recente da Alta Autoridade para a Comunicação Social no imaginário comum dos portugueses. Sempre achei misterioso o nome da instituição, digno de reverência. Mas os seus rostos nunca apareciam (como, aliás, convém às figuras mitológicas do poder). Durante anos, só éramos abençoados com comunicados, esporádicos, para mais, corridos em grafismos discretos no final dos telejornais e lidos por uma voz com mais gravidade e seriedade que a de Darth Vader revelando a Luke Skywalker que era seu pai.
Agora, com toda esta saga, pudemos conhecer os traços fisionómicos de alguns dos seus membros. São humanos, como nós. Não têm três metros de altura nem lançam labaredas de fogo pela boca quando abandonam as paredes do seu castelo no cume de uma montanha inacessível.
Acho bem. A identificação é mais fácil e, assim, enquanto as crianças vão crescendo, sempre podem sonhar ser parte do grupo, uma espécie de X-Men cá de casa.
Por enquanto, a AACS só poderá estar ao serviço dos pais: “Olha que se não comes a sopa eu chamo a Alta Autoridade!!” E lá comem, apessadamente, os miúdos o creme de cenoura, sob pena de serem chamados a uma audição.
Alexandre

 

O silêncio dos carrascos

Estão decorridas as primeiras horas do julgamento que parece ter sentado no banco dos réus, não tanto os acusados de crimes de pedofilia, mas a própria Justiça portuguesa. Inteira. De onde quer que tenha começado até hoje.
Bem ou mal, o que quer que a juíza decida, que os advogados a levem a decidir, passará para a opinião pública como uma súmula desproporcionada de coisas e personalidades: estará lá Rui Teixeira, Souto Moura, Herman José e Paulo Pedroso; estará Felícia Cabrita e Octávio Lopes e tudo quanto escreveram os jornais; estará Catalina Pestana, Adelino Granja e Pedro Namora. Estará, talvez, Ferro Rodrigues e o velho do bairro de quem se murmura que aborda as crianças à porta do colégio. Estará o Governo. Estará a confiança com que votarão o próximo, a impressão que se terá dos seguintes ministros da Justiça, procuradores-gerais da República e directores nacionais da PJ.
Para o País, sentado, em silêncio, defronte do ecrã televisivo, tudo quanto estas pessoas fizeram ou disseram, neste e noutros âmbitos, estará em questão no dia em que o tribunal der por terminado o julgamento e ler a sentença.
Pior: a única forma que o País terá de acreditar em tudo isto, em todas estas pessoas ou, pelo menos, na maioria, é serem condenados todos os acusados. De preferência, com punições exemplares.
Alexandre

quinta-feira, novembro 25, 2004

 

Crítica Literária Relax

O Maneirismo foi uma resposta ao Renascimento. O Barroco surgiu em oposição ao Maneirismo. O Neoclassicismo foi uma reacção ao Barroco. O Romantismo insurgiu-se contra o Neoclassicismo. O Realismo opôs-se ao Romantismo. O Modernismo procurou ultrapassar o Realismo. O Neo-Realismo quis ultrapassar o Modernismo. O Surrealismo e o Existencialismo afrontaram o Neo-Realismo. E agora, face ao esgotamento das últimas tendências criativas, teóricas e críticas da literatura portuguesa, eis que começa a nascer uma nova corrente literária, a Literatura Relax. A Literatura Relax, bem como todos os seus derivados, Ultra-Relax, Sobre-Relax, Neo-Relax, Pós-Relax, Super-Relax, assume-se como uma orientação estética em clara oposição à Literatura Light. A literatura portuguesa, sob a nefasta influência da Literatura Light, anda ao deus-dará. A Literatura Light é um estorvo. A Literatura Light é um empecilho, um obstáculo ao surgimento de um novo ideário estético e poético. Basta de livros pastelosos, rebuscados e pataratas. Acabem com as estopadas! Chega de trapalhices! Ponha-se um fim ao imperialismo da Literatura Light! A Literatura Light não passa hoje de um motor gripado. A Literatura Light chegou a um beco sem saída filosófico, histórico e científico. A Literatura Relax é a alternativa! Com a Literatura Relax acabaram-se os empadões literários, acabaram-se as pílulas retóricas. A Literatura Relax é um motim literário, é uma estalada, um bofetão em todos os cultores da Literatura Light.
Assim como há uma poesia Relax e uma ficção Relax, existe também uma crítica literária Relax. Uma crítica que vem tornar obsoleta a actual crítica literária. A crítica Relax é uma crítica preguiçosa, indolente e cábula. Com a crítica literária Relax o crítico não precisa de fazer quase nada, não precisa sequer de ler as contracapas e as badanas dos livros. A crítica Relax é uma espécie de minuta onde o crítico só tem de introduzir o nome do escritor, bem como o título da obra e da respectiva editora. Com a crítica Relax basta preencher os espaços em branco. A crítica literária Relax é uma crítica para pensamento rápido e mão veloz. Desembaraçada e intensa, é o ideal para todo o tipo de livros. É muita emoção numa só crítica. Coleccione-as! Vai divertir-se imenso! Esta crítica faz tudo. Até faz inveja aos seus colegas do jornal. Descubra a origem de uma crítica saudável. Descubra a crítica Relax.

Minuta nº 1 da Crítica Relax

(_____)* é um livro revolucionário que vai libertar os seus sentidos. O novo livro da (_____)** é um desafio constante até à última página. (_____)*** coloca-nos a adrenalina ao rubro, leva-nos a um mundo totalmente novo onde terá de combater ferozes personagens, num cenário de intensa aventura. (_____)* é o livro que diz mais acerca de si. No mínimo um grande livro. É difícil viver sem ele!

* Preencher com o título do livro.
** Preencher com o nome da editora.
*** Preencher com o nome do escritor.

Minuta nº 2 da Crítica Relax

Rápido, intenso, extraordinário... são meras palavras quando se pretende definir (_____)*. No seu livro mais recente, (_____)** faz-nos rir e chorar com inúmeros pormenores para viver as mais incríveis peripécias. A última novidade das publicações (______)*** inclui personagens articuladas para passar momentos repletos de emoção. (______)* é um lugar especial que esconde muitas surpresas. (______)* é uma bonita história de amor e de amizade. No Natal não perca este livro das (_____)***. Por que espera para o adquirir?

* Preencher com o título do livro.
** Preencher com o nome do autor.
*** Preencher com o nome da editora.

Minuta nº 3 da Crítica Relax

O mais recente livro de (______)* põe aventura na sua rotina. Com tesouro escondido, passagens secretas e ilusões espectaculares. Mais colossal é impossível! Entretenimento total, como você gosta. (____)** vai fazê-lo viver desafios de cortar a respiração. (____)** é o livro mais louco que alguma vez leu. Com personagens apetitosas, deliciosas, aveludadas, irresistíveis. Mmm... mesmo a calhar! Leia hoje o novo livro do autor de (____)***. A não perder! Para quê esperar? Experimente! Veja a vida com outros olhos! Seja responsável. Leia com moderação.

* Preencher com o nome do escritor.
** Preencher com o título da obra.
*** Preencher com um título anterior do mesmo escritor.

Preencha a sua minuta. Envie-nos a sua crítica!

João Pedro


 

Vejam e apareçam

Hoje, o "Público" traz um bom post de Rui Baptista sobre a capacidade de encaixe televisiva dos políticos americanos. Nuno


 

É uma boa pergunta, Nuno.

A mim, o engenheiro Sócrates, quando surge a comentar um qualquer desvario do governo, faz-me lembrar aquele sketch do Gato Fedorento das claques muito bem comportadinhas e cheias de espírito desportivo e de bandeirinhas. Sócrates aparece sempre, no limite da indignação, a urlar furibundo e ameaçador:

O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
Ai é sim, senhor.

O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
O Governo do Dr. Santa Lopes é extremamente incompetente!
Ai é sim, senhor.

Rui

 

Eu até gosto da atitude do homem mas não resisto a dizer que

Jose Sá Fernandes é uma espécie José Maria Martins das Classes A e B. Nuno

 

Que é feito de si, José Sócrates?

Ninguém sabe. Arranje-se ao menos um espaçozinho para o homem na RTP-Memória. Nuno

 

Afinal eles têm sentimentos

Esta semana, vi uma funcionária da EMEL empunhando um ramo de flores. Nuno

quarta-feira, novembro 24, 2004

 

Celebridades

De regresso à pátria, encontro as revistas do coração dominadas pelas celebridades da Quinta. Antes de entrar no concurso da TVI, Jorge Monte Real confessa-se à Caras: «Estou a sentir-me o verdadeiro famoso, apesar de ainda não o ser. Começo até a preocupar-me, porque se isto continuar assim ainda vou para ao governo». Sinceramente, acho que «o biconde» de Monte Real e Leça até foi modesto. Na Quinta, White Castle já o nomeou ministro dos Negócios Estrangeiros e, para utilizar a sua expressão, «se isto continuar assim», tem todas as condições para chegar a primeiro-ministro. Não consta que o processo de recrutamento do actual chefe do governo tenha sido muito diferente. Na mesma revista, Sandra Cóias relativiza antecipadamente o reencontro com o ex-namorado, Pedro Reis, na Quinta das Celebridades: «Conheço a Maria, o Pedro conhece o Rodrigo. Já nos encontrámos várias vezes e acho que somos todos adultos». Eu também achava que eles eram todos adultos, até ler as declarações da actual namorada de Pedro Reis, Maria: «Estou muito carente. Sinto falta de colinho
Com cinquenta por cento das glórias nacionais na Quinta das Celebridades, cá fora brilham as famílias - principalmente a família Jardim. «Pimpinha» assegura que «o Pedro» nunca fez mal à mãe, mas «Mituxa» arrasa Santana Lopes - de forma ainda mais demolidora do que Vasco Pulido Valente no Público de sábado: «Santana é uma pessoa emocionalmente muito instável. Nem na vida política ele é estável, bem se vê que nunca acaba nada. ». Sua Excelência, o Senhor Primeiro-Ministro - que até já «acabou» com a Cinha e pelo menos com mais dez - ainda não respondeu a estas críticas infundadas. «Ao longo de todo o dia tentámos, sem êxito, contactar o gabinete do primeiro-ministro a fim de obter um depoimento seu sobre este assunto.», escreve a revista Lux. Devia estar a dormir a sesta. Aguarda-se a todo o momento um novo artigo de opinião da assessora Inês Dentinho. «A minha irmã [Cinha] é muito boa, acreditava que o podia mudar», explica «Mituxa». Mas não é só a Cinha que é muito boazinha. A concorrente Mónica, das Delirium, sofre do mesmo problema. Numa «entrevista de vida» (gosto deste conceito), dada à Lux, Rubim, o namorado, considera mesmo que «A Mónica é boazinha demais e sofre um bocado com isso. Felizmente, estou aqui eu para a proteger». Como diria o outro do Big Brother, «se não consegues ser racional, deixa que eu sou». Decididamente, quem tem um namorado como o Rubim tem tudo. Rubim garante que «Há quem, em 8 anos de namoro, não esteja tão junto como nós estivemos em 8 meses». Deve estar a pensar no namoro entre José Castelo Branco e Lady Beth.
O melhor fica para o fim. Depois de saber que o namorado, Alexandre Frota, estava a cair em tentação com Ana Afonso, Heloísa Toledo, uma empresária de São Paulo, fez as malas e veio para Lisboa defender «o que é seu», que estas mulheres, hoje em dia, não respeitam nada. Já concedeu várias entrevistas, uma delas à Lux. A empresária brasileira define-se como «uma pessoa com a cabeça no lugar» e não quer «perder a dignidade». Essa preocupação está, aliás, bem patente na entrevista. Sem nunca perder a «cabeça» ou a «dignidade», Heloísa revela que conheceu Frota na adolescência. «Ele é o único amor da minha vida.», embora não o primeiro: «a minha primeira experiência sexual aconteceu aos 18 anos e não foi com ele.» Heloísa «não gosta que lhe invadam a privacidade», mas se for ela a invadi-la ninguém tem nada com isso. Apesar de ter sido recebida pela própria Ana Afonso no aeroporto, a namorada de Frota continua desconfiada. «Se sentir que ela foi falsa e que agiu pelas costas, pode ter a certeza que vai ter guerra. Fui muito clara com a Ana Afonso: o Alexandre é meu».
Notas Finais: 1) Fátima Preto admite, na Lux, que anda com «saudades do senhor Avelino». Era provavelmente o único que entendia o que ela dizia. 2) Antes de sair da Quinta, Ana Maria Lucas comunicou ao país que «nunca subiu na horizontal». O Herman SIC tem de a convidar, quanto antes, para uma sessão de levitação. Filipe

terça-feira, novembro 23, 2004

 

Man, I feel like a woman

«Mulher escritora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que devia ser urna de suavíssimas lágrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as doces penas da alma metalizam-se-lhe aguçadas em penas de aço. O fuso de Lucrécia e da rainha Berta desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. Suspiram publicamente em 8º. português, 250 páginas; e, quando não suspiram, bufam cóleras represadas; dizem que têm ideias, que se querem emancipar, muito escamadas, naturalistas, com um grande ar de pimponas que entraram no segredo dos processos; e, se não batem nos homens, não é porque eles não mereçam. [...] Dom Francisco Manuel de Melo tinha razão: - Mulheres doutoras, autoras e compositoras dava-as ao Diabo. [...] Não há feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculiniza, e, como escritora virago, salta as fronteiras do decoro, solfradando as espumas das rendas até à altura da liga azul-ferrete.»
[Camilo Castelo Branco, A Senhora Rattazzi, Lisboa, Frenesi, 2001 (1ª. ed. 1880), pp. 11-12]
Rui

 

O etéreo feminino


«As mulheres não gostavam dele [Camilo Castelo Branco] porque temem quem parodia o que há para parodiar, que é quase tudo; e, se não formos cobardolas e chochos, é mesmo tudo. [...] As mulheres têm horror a gente assim. A coisa com que mais embirram é ficar despenteadas. Não se importam de ficar desonradas, mas despenteadas é que nunca.»

[Agustina Bessa-Luís, «Um Monstro a Retalho» in Camilo - Génio e Figura]
Rui

domingo, novembro 21, 2004

 

Literatura Relax

Literatura Relax é um novíssimo movimento literário. Face ao esgotamento das formas, dos géneros, dos temas e dos motivos. Face à menoridade intelectual, à vulgaridade estilística, à pouca autenticidade, à incapacidade de transmitir emoções intensas, aos rodriguinhos das amizades, aos cebáceos elogios que caracterizam o insecto literatura portuguesa, decidimos criar uma corrente literária predestinada para o excessivo, para o inconformismo artístico e para o combate.

Dizemos: a literatura portuguesa está hoje reduzida a uma assembleia de parolos, de finórios e de espertalhões enfeitados de plumagens onde não respira uma única ideia.
Acusamos: os escritores portugueses atingiram a aurora da tolice.
Apontamos o dedo: a crítica literária contemporânea distingue-se por não ter opiniões.
Exclamamos: à actual literatura portuguesa chamamos-lhe NADA!!!

Literatura Relax é uma vacina contra doenças literárias como farsolice, foleirice, vaidade, bizantinismo, aborrecimento, esperteza saloia e idolatria fervorosa. Literatura Relax é uma carga de cavalaria contra a literatura de pacotilha e o estilo pretensioso das mais destacadas figuras literárias do nosso tempo. A Literatura Relax tem como fim último depravar, debochar, desmoralizar e abandalhar a nova literatura portuguesa. A Literatura Relax visa impor um novo gosto e contribuir para o despertar de uma nova mentalidade. A Literatura Relax é uma arte de crise. É uma nova orientação estética, um novo ideário que exprime preocupações pornográficas, libidinosas, obscenas e safadas. A Literatura Relax pretende renovar e revitalizar a poesia da carne, o amor lascivo, o erotismo delirante, a bizarria sensual, a volúpia do vício, o cheiro a deboche, a contundente obscenidade. A Literatura Relax serve para saciar a nossa excitação sexual e associa altas especulações filosóficas às nossas desmesuradas obsessões sexuais. Libido e talento são para nós decretos da natureza e apenas a eles obedecemos. Fazemos a apologia da maledicência e das confissões de bordel, do desregramento hiperbólico e da sobrecarga metafórica. Defendemos para a arte o racionalismo da inspiração e a necessidade de verosimilhança. Como Baudelaire afirmamos: “quanto mais um indivíduo cultiva as artes menos fode”.
A foda é a base do mundo!!!
É a foda que torna a arte eterna!!!
A Literatura Relax é a foda absoluta!!!

João Pedro

 

Poesia Relax para Homens

Beleza de Rubens!!!... olímpica!!!... atlética!!!... obra-prima da natureza!!!... 18 quilómetros de mulher nua*!!!... mamas gigantes!!!... em morango culminando!!!... com um relevo delicioso!!!... hirtas!!!... magníficas!!!... como dois mísseis!!!... nutrida e robusta!!!... tremebunda!!!... penugem rebelde!!!... encaracolado e negro como ébano... orifício estreito!!!... coração entre as pernas!!!... profunda como o antro da Sibila!!!... feições rústicas!!!... rosada!!!... apetitosa!!!... levemente sardenta!!!... boca de catedral!!!... fumo cachimbo!!!... sorriso de Gioconda!!!... cavalgo romanamente!!!... de perder a cabeça!!!... badalhoca!!!... viciosa!!!... satânica!!!... toda ofegante!!!... sequiosa de carícias!!!... as mais raras delícias... fome de tubarão!!!... cheira a biberon!!!... Dou-te tudo!!!... É tudo teu!!!... Despe-me!!! Deita-te sobre mim... É aqui!!!... Mete... mais... mais ainda... Meu Deus!!!... como é bom!!!... Ai!!! Fazes-me morrer!!!... Domicílio... Hotéis... Despedidas de solteiro... Speak English... Parlez Français... Habla Español... 96 69696969

* Roubado descaradamente ao Nelson Rodrigues.

João Pedro

 

Poesia Relax para Mulheres

Inteiramente consagrado às mulheres... carícias preparatórias... electricidade estática!!!... entusiasmo puro e juvenil!!!... cheio de vida!!!... calor animal!!!... bigode árabe... beijo na relva!!!... faro grande de perdigueiro!!!... língua forte e canina!!!... mãos de pianista!!!... olhos avelã, por vezes cinzentos como ostras do alto mar!!!... fogo nos olhos!!!... profundos... penetrantes!!!... dentes rijos e brancos como açúcar!!!... nem um centímetro por derreter!!!... sorriso lúbrico na cara!!!... desejo furioso!!!... músculos tensos!!!... pénis com vida própria!!!... coices de puro-sangue!!!... estrondoso!!!... a felicidade das mulheres!!!... quero devorar-te!!!... trincar-te!!!... Apartamento privado. Máxima discrição. 96 6699669
João Pedro

sexta-feira, novembro 19, 2004

 

Meryl can't strip


Entre as razões por que achei o filme «O Candidato da Verdade» fracote está a escolha de Meryl Streep para o papel de mãe do candidato Liev Schreiber. Streep é capaz de grandes desempenhos, como em «A Escolha de Sofia» e «As Pontes de Madison County», para dar dois exemplos espaçados no tempo. Mas não é o caso deste filme, apesar do que logo se disse por aí. A escolha de Meryl Streep para este filme foi um erro de casting. Meryl é simplesmente incapaz de transmitir a necessária e sórdida sensualidade às personagens que interpreta. Ela poderá ser bonita, ou ter sido bonita: não é por aí, nada disso tem que ver com sensualidade. Meryl é uma senhora que pode e consegue transmitir toda uma vasta gama de emoções, menos o tesão. Aquela personagem de mãe e senadora, aquela bitch on wheels, precisava dessa última coisa do mal, a volúpia da sensualidade levada ao incesto, se necessário fosse. E era. Era desejável que fizesse bingo com todos os estereótipos e interditos culturais que envolvem sexo, mãe e poder. Para o papel, seria talvez preciso a Angelica Houston de «The Grifters». Angelica faz como ninguém a mulher disposta a tudo, a rigorosamente tudo, para conseguir o que quer. Deste ponto de vista, Houston é o exacto oposto de Meryl Streep, pois toda a sua representação está ensopada de sensualidade. Alguém consegue imaginar Meryl a fazer um strip? Eu não. (E a Sally Field? É outra que tal). Lembro a cena da senadora com o filho, o vice-presidente eleito. O modo como a cena é filmada sugere de imediato que irá suceder qualquer coisa. Ele, de tronco nu, muito bonito, quase um boneco, hirto, no limite - útil para a cena - do não humano (nem Jude Law faria melhor); ela, toda vestida de branco alvo, roborizada, cabelo apanhado atrás em nó, cabeça à altura da anca dele. Cabeça à altura da anca, nua, dele, e a olhar para cima. A cena prossegue da forma esperada, mas não da forma previsível: um beijo na boca, uma coisa pífia. Volto a puxar o «The Grifters» para recordar a cena, muito melhor, em que Houston seduz e aldraba o filho, John Cusack, jogando com a atracção que sempre nele - e em nós que vemos o filme - soube despertar e manter (cuidadosamente alimentando na cabeça de Cusack a incerteza sobre se de facto é mãe dele, por exemplo). Todavia, o espectador interessado em ver uma cena bem feita na qual uma mãe, francesa, partindo da mesmíssima posição pela anca do filho, faz o que dela se espera, deverá dirigir-se à cena respectiva em «La Grande Bouffe», e ver como aquela senhora usa de todos os argumentos para evitar que o filho saia de casa para ir beber uns copos com os amigos. Rui

 

A habitual notícia sobre a delinquência de Macaulay Culkin

Preocupado com a ausência de notícias sobre a marginalidade de Macaulay Culkin nas últimas semanas, o ESPLANAR decidiu saciar o direito à informação dos portugueses sobre a vida deste jovem.
Como é sabido, a imprensa nacional dedica, uma vez por mês, da Visão ao 24 Horas, passando pela Voz de Ronfe e pela Folha Sindical dos Calceteiros de Figueiró dos Vinhos, um apontamento das secções do social, à vida pessoal do protagonista de "Sozinho em Casa", filme-que-passa-todos-os-santos-natais-e-já-é-uma-sorte-se-não-levarem-também-com-a-sequela.
No entanto, há coisa de mesito e meio que não são acrescentados dados novos ao seu último acidente de viação, detenção por embriaguez e acusação de posse de marijuana.
Assim, o ESPLANAR vem cumprir o seu dever de serviço público e tranquilizar o País: Macaulay não parou. Ao que apurámos, o jovem foi recentemente encontrado a praticar actos de sexo tântrico explícito com uma toupeira morta, dentro de um automóvel roubado que circulava em excesso de velocidade, o que vem confirmar as suspeitas de que aprecia a bestialidade necrófaga. Como atenuante, o tribunal poderá ter em conta uma certa ininputabilidade do actor, dado que estava alcoolizado, drogado e falava, no momento, ao telemóvel.
Alexandre

quinta-feira, novembro 18, 2004

 

Assim se divide o mundo: medricas e valentões

A ideia de medo entrou nas análises dos politólogos de serviço. O mundo está com medo. A guerra é uma decorrência do medo. É o medo que distingue os progressistas dos conservadores. Ora, se é o medo (dessa coisa chamada terrorismo) que distingue hoje a esquerda da direita, podemos, segundo esse magno critério, afirmar que os tipos de direita são uns medricas do pior – fingem-se fortes, mas, no fundo, no fundo, são os primeiros a subir os muros quando, à noitinha, vislumbram o vestígio de uma sombra – e os de esquerda uns valentões, homens a sério, um bando de rapazes destemidos, capazes de fabricar brigas em cada esquina (sim, como o rapaz Frota; Sócrates devia pensar nele para ser a cara do "Novas Fronteiras"). Imaginam-se slogans do género: "Eu não tenho medo, eu sou de esquerda!". E, no lado oposto, frases começadas por um "Ai Jesus!" qualquer. Vai ser giro. Aguardemos a propaganda. Nuno

 

Volta, Inês

O João Pedro George já não escreve nada desde segunda-feira. Como diria a Bomba Inteligente, «o João Pedro durou uma semana». Filipe

 

ddr vinil


Rui

 

É proibido proibir

- Pá, viste o post do Alexandre, aqui em baixo?
- Sim...
- Lembrou-me aquela frase do «é proibido proibir».
- Pensei que eras um liberal...de esquerda, com uma costela jacobina, mas liberal...quer dizer, «a liberdade dos outros começa...»
- Sabes o que é que o D. Pedro disse quando chegou ao Porto e não apareceu ninguém para receber o gajo?
- ...
- «Não me obriguem a libertá-los à força!» Não me obriguem a libertá-los à força: e daqui ainda não saímos.
- Pois, mas isso vindo de um gajo que queria casar a filha com o irmão também não surpreende.
- Isso só prova que o casamento é um instituto jurídico, e, lá está, não andará muito longe de um espaço público fechado.
- Pois. Então vai ser proibido fumar dentro dos casamentos, mas só dos casamentos por amor. Repara, afinal, também aí «a liberdade de um começa...» Nos outros casamentos, pode-se.
Rui

 

Sugestões de coisas a proibir em espaços públicos fechados:

É proibido cheirar mal.
É proibido utilizar perfumes que cheirem ainda pior que o próprio utente.
É proibido comer de boca aberta.
É proibido falar alto ao telemóvel.
É proibido ter toques de telemóvel com mais de 2 notas diferentes.
É proibido manter toques de telemóvel em volume de som superior ao emitido pela erupção do Krakatoa em 1883.
É proibido gritar com a criançada.
É proibido utilizar linguagem grosseira.
É proibido dizer alarvidades sobre o estado da nação, incluindo elogios ao fascismo.
É proibido ler e/ou comentar notícias do 24 Horas.
É proibido tecer considerações sobre a sexualidade dos habitantes da "Quinta das Celebridades."
É proibido ser mal-educado.
É proibido passar horas seguidas de má música / pretensa música.
É proibido articular frases sem sujeito ou verbo ou ambos (à atenção especial dos menores de 21 anos).
É proibido ter-se a mania que se é esperto.
É proibido ter-se a mania que se é muito engraçado.
É proibido ter-se a mania que se é muita maluco.
É proibido verbalizar qualquer apreciação acerca da beleza exterior da rapariga que nos acompanha.
É proibido ser-se obscenamente gordo (dá mau exemplo às crianças e rouba espaço ao resto da civilização), a menos que se tenha em mão a cópia do contrato publicitário com a Michelin.
É proibido falar-se acerca daquilo que não se conhece.
É proibido espirrar-se para cima de outra coisa que não seja a própria palma da mão ou a própria barriga (na falta de um guardanapo ou lenço de papel).
É proibido tossir com tal intensidade que a restante população do local tema que o Alien lhe vá sair, a qualquer momento, pela boca fora.
É proibido pronunciar termos em línguas que não se domina.
É proibido espreitar-se o que a outra pessoa está a ler, a não ser que se tenha uma autorização expressa do Governo para o fazer.
É proibido mexer nas orelhas.
É proibido mexer no nariz.
É proibido sair à rua ao fim-de-semana e à noite sem ter um destino rigorosamente definido para onde ir.
É proibido gabar-se (seja lá de que façanhas for).
É proibido cobrir o cabelo com uma quantidade de gel suficiente para fazer um implante mamário.
É proibido contar piadas que remontem ao tempo em que a Madeira era um território livre e democrata.
É proibido comentar-se livros de Nicholas Sparks ou Paulo Coelho.
É proibido falar, rir, cantar e fazer barulho, em geral, como se não houvesse amanhã (à especial atenção dos grupos).
Alexandre, um fumador irritado com as notícias sobre as futuras restrições ao consumo de tabaco em espaços públicos fechados e, sobretudo, com todos aqueles que acham que o grande problema dos espaços públicos fechados seja o fumo

 

O salvador de poemas

Vai buscar o livro que usa para salvar poemas, de costume sempre o mesmo, «El amor, las mujeres y la vida» de Mario Benedetti, e abre sempre na mesma página, a 174, no «Semáforos». Liga o número dela e lê-lho em espanhol. Pára muitas vezes pois não sabe imensas palavras. De tão trôpego e atrapalhado, torna-se risível ainda antes de chegar ao vermelho como «o flamejar do fogo/o balcão de gerânios/a chama dos teus lábios» ou ao verde «dos juncos/de Lisboa/do manto dos teu sonhos/dos teus olhos de medo». É patético. É sempre a mesma cena patética. Mas é justamente o patético que salva os poemas. O patético salva esse, e muitos mais: o «No te salves», o «Assunción de ti», o «Viceversa», o «Pies hermosos», o «Lovers go home», o «Táctica y estratégia», o «Informe sobre caricias». Não há nenhum que a ironia cobarde não eleve do plano mesquinho e triste em que existem. Como aqueles homens santos da Índia, despeja-se cinismo por cima, pega-se fogo e arde até ficar apenas carvão. Rui

quarta-feira, novembro 17, 2004

 

Camarada, o que é que já fizeste hoje para cumprir a meta traçada no plano?


Laura Morante

Rui

 

A minha expressão inglesa favorita


I’m gonna get medieval with your ass

Rui

 

A globalização mudou a minha vida

Este sábado, a propósito das eleições americanas, o professor Espada citava o livro "The Right Nation: Conservative Power in America", de John Micklethwait e Adrian Wooldridge. O nome destes dois autores não me é estranho. Se bem me recordo, são dois jornalistas do Economist que escreveram em tempos um livro sobre as diferentes «dimensões» da globalização. Um amigo meu, como acontece quase sempre, achou esse livro uma merda. Mas na bibliografia descobriu um site que lhe mudou a vida. Filipe

terça-feira, novembro 16, 2004

 

A questão é: quem é que vai ficar com a casa da praia?

Não tenhamos dúvidas: o fim da coligação PSD/PP vai ser um divórcio à séria. Ou seja: teremos pancada na certa. Digamos que as coisas no seio do casal já não são o que eram. Não, não há amantes pelo meio. É tão somente a situação típica do "estive a pensar e acho que somos demasiado diferentes para continuar com isto". Nem sequer há a conversa do género "vamos dar um tempo". Ou aquele desfecho hipócrita: "mas ficamos amigos depois disto, ok?". Se virmos bem, há muito que a coabitação entre os militantes dos dois partidos se assemelha àquela convivência forçada entre os filhos de dois divorciados que começaram por sair juntos ao fim-de-semana e que acabaram casadinhos. Os miúdos não se gramam, mas têm de fingir que se gramam (e, depois da ida a uma sessão da noite, quando os pais voltam ao convívio da criançada, encontram alguém com um olho negro). Toda esta história é bastante previsível: uma relação política entre personalidades fogosas só poderia terminar com um divórcio litigioso. Resta saber quais serão os advogados disponíveis para defender os partidos. E a data precisa do julgamento. Nuno

 

Tens razão

Filipe, é verdade, tenho de reconhecer a evidência. Em relação àquilo que dizes aqui em baixo, dou-te toda a razão. Aliás, já é altura de te devolver a discografia completa do Clemente. Nuno

 

É bom, não é?

«É bom descobrir em casa um disco que tínhamos na prateleira e não conhecíamos. Aconteceu-me esta semana com "That's How Strong My Love Is", do soulman O.V. Wright», escreve o Nuno Costa Santos, no Quase Famosos. Nuno, sinceramente não percebo a tua admiração com esta descoberta. Isto é uma coisa que acontece muito quando nos esquecemos de devolver CDs emprestados pelos nossos amigos. Filipe

 

A foreign sound

A força de um país mede-se, em grande medida, pela capacidade de resistência que os seus cidadãos revelam a pronunciarem correctamente nomes estrangeiros. Tirando o caso dos pilotos da TAP, já aqui oportunamente analisado pelo Alexandre, não conheço nenhum português que não se esforce por falar o inglês dos anglófonos, «o poder» de que fala Caetano Veloso. Em Espanha não é assim. Mesmo pessoas não menos eruditas do que eu ou a Sara, fazem questão de afirmar a sua hispanidade quando se referem, por exemplo, a figuras ou filmes americanos.
No último dia de campanha eleitoral nos Estados Unidos, o telediário da TVE falava do concerto de apoio a Kerry dado pelo «cantante estadunidense Bru [pausa] Sexpringstí». Julgo que se naquele momento o Boss estivesse sintonizado na TVE, dificilmente teria percebido que estavam a falar dele. Em seguida, outro correspondente, falava-nos da campanha de George W Bush, que em Espanha se pronuncia «Dgeór Dubleube Bú».
Num jantar de despedida, partilhei, um pouco a medo, esta minha constatação com uma amiga espanhola. Disse-lhe, em todo o caso, que me parecia muito bem esta afirmação de identidade nacional. Ela discordou; é uma mulher de esquerda, cosmopolita, que não aceita ver o seu inglês confundido com o do senhor Aznar. Mudou de assunto, até porque queria falar de um filme que tinha visto nessa tarde - o «Expiderman».
Outras coisas a não perder em Madrid: filmes do Woody Allen dobrados e relatos radiofónicos de touradas. Filipe

domingo, novembro 14, 2004

 

confusão

(Gostei de ler isto. Vem na página 45 da última "Grande Reportagem" e é uma frase de Haci Karacaer, líder de uma das organizações mais representativas da comunidade turca na Holanda)

«O assassino diz que matou Van Gogh por causa do Islão e é óbvio que os muçulmanos vão ficar confusos. É ridículo dizer que se mata alguém em nome do Islão, matar alguém é algo completamente não islâmico». Nuno

 

Prognósticos de guerras

Há dias, uma revista portuguesa recordava uma frase de Einstein que não me tem largado a última semana: “Não sei como será a III Guerra Mundial, mas a IV será feita com paus e pedras.”
Escrevo-a aqui para me tentar libertar da visão desse último conflito, mas, sobretudo, dos fantasmas que o cientista deixou pairar sobre o intermédio.
À maneira dos grandes directores cinematográficos, Einstein deixa que aquilo que não está à vista exerça maior fascínio sobre o espectador. Sob a forma de desejo, no erotismo; com os contornos do medo, no terror.
Porque é que sinto mais o génio nesta premonição do que na teoria da relatividade ou na cisão do átomo de hidrogénio?
E porque é que tremo ao senti-lo?
Alexandre

 

Memória

Passei o fim de semana a ver o canal RTP Memória. Cada vez mais me convenço que este canal foi uma ideia da SIC e da TVI para descredibilizar aqueles, como eu, que acham que a programação televisiva nunca foi tão má como é hoje. Filipe

sexta-feira, novembro 12, 2004

 

Ainda levas com os cadernos d'A Bola!

Tenho estado aqui entretido a ver estes posts e era só para te dizer, João Pedro, pázinho, que o jogador se chama Bebeto e não «Bebete». Desculpa lá qualquer coisinha. Filipe

quinta-feira, novembro 11, 2004

 

Ainda levas com o Cândido de Figueiredo na tola!

Tenho estado aqui entretido a ver estes posts e era só para te dizer, João Pedro, pázinho, que Benedetti se escreve com «e». Desculpa lá qualquer coisinha. Rui

 

Literatura e golos

Falta um minuto para terminar o último jogo do campeonato. Joga-se a cartada decisiva. Empate a zero e… o árbitro assinala pénaltiiii!!! O estádio do Riazor vem abaixo. O Deportivo de La Coruña está a um passo de se tornar campeão de Espanha. O empate é suficiente, mas o Barcelona está à espera de uma “escorregadela” dos galegos. Vinte e cinco milhões de espanhóis estão a escutar a rádio ou em frente à televisão. Sem Bebete e sem Donato, as atenções viram-se todas para o jugoslavo Djukic, outro especialista na marcação da grande penalidade. O jogador coloca o esférico no círculo branco de cal. “Já não ouvia a gritaria do público, que se ia apagando a pouco e pouco, à medida que o instante decisivo se aproximava. Djukic só ouvia o bater do seu coração e o ruído entrecortado da sua respiração ofegante”.
Meias-finais da Taça da Europa. Real Madrid e Inter de Milão defrontam-se num encontro de tudo ou nada. O húngaro Szentkuthy (o “Kentucky”), jogador madrileno, marca um golo que põe em silêncio um estádio repleto de 100 mil adeptos. No Paraguai, Goyo Luna, extremo esquerdo do Sol América, marca golo e bate com a cabeça no poste da baliza adversária. Na Argentina, num jogo entre o Estella Polar e o Deportivo Belgrano, a angústia do guarda-redes Díaz antes da marcação do pénalti mais longo do mundo. Ainda no país das pampas, Juan António Felpa (o “Gato”), operário das Fábricas Unidas e guarda-redes do Sportivo Atlético Club, faz asneira num clássico de província.
Estas e outras histórias encontram-nas em Contos de Futebol (vários autores, Relógio d’Água), um livro que inclui relatos de diferentes autores espanhóis e hispano-americanos onde a literatura é o desporto-rei: Mario Beneditti ou Javier Marías, Augusto Roa Bastos ou José Luis Sampedro, Osvaldo Soriano ou um Jorge Valdano em grande forma. Do conjunto, todavia, sobressai uma certa dependência literária da figura do guarda-redes e do momento da marcação do pénalti. Por que não um conto em que a acção se centra no decorrer dos 90 minutos do jogo, com as estratégias de cada equipa, as instruções dos treinadores, as jogadas, os cruzamentos, as fintas…? E uma história que descreva o ambiente que se vive nas bancadas, com os diálogos e os berros dos adeptos a pontuarem a acção? Era giro!
João Pedro

 

Essa do Ramos Rosa foi um golpe baixo

Custa-me regressar a esta página. O último golpe desferido pelo Nuno encostou-me às cordas. Mal me posso ter nas pernas. Vacilo. O sobrolho abriu e o sangue escorre-me pelas cordoveias do pescoço. Tenho os olhos embaciados de lágrimas, sinto-me a viajar através de uma nebulosa. A campainha soou e a assistência exulta. Um mar humano, furioso, começa a patear-me, a assobiar-me, medricas!, cagarolas!, ganda menino... Vão bugiar! Sabem lá vocês o que é levar com um livro do Ramos Rosa na cabeça...
João Pedro

 

a imagem do dia

Hoje, na rua das Pretas, vi um tipo a guiar um BMW com um lenço do Arafat à volta do pescoço. Nuno

 

Criámos um monstro

Já que estamos numa de inconfidências, admito aqui que nunca dei nada pela participação do João Pedro George no Esplanar. Disse-lhe isso mesmo hoje ao almoço. Durante os primeiros meses do blogue, as minhas previsões confirmaram-se: ele lembrava o Niculae, esse eterno lesionado. Mas agora é o que se sabe. Aliás, isto já era de esperar. Eu sou aquele gajo que na estreia do Figo no Restelo disse ao Pedro Estêvão, do país relativo, que aquele miúdo com cabelinho à foda-se não ia a lado nenhum. Filipe

 

Delírio tido no decorrer de uma viagem recente na companhia supracitada

A TAP apresentou ontem um pedido formal de desculpas ao País e, em particular, aos passageiros que foram induzidos em erro, em diversas circunstâncias, por um comandante que se expressava correctamente em língua inglesa. A administração da empresa garantiu que o indivíduo em questão foi já identificado e devidamente detido, estando a ser investigadas as suas razões para tão perverso comportamento.
Recorde-se que se gerou o pânico e a confusão em diversos voos da companhia durante os últimos dias, quando, no momento da partida, os passageiros escutaram o habitual desejo de uma boa viagem do comandante em Português e, posteriormente, numa retroversão perfeita para o Inglês. Muitas pessoas acreditaram ter-se enganado no avião e exigiram que a descolagem fosse abortada, de modo a regressarem ao terminal e apanhar o avião correcto.
A companhia assegura, por fim, que tal não se repetirá e que tem uma tradição a respeitar ou, na versão britânica do comunicado, da câmpani axoures iu det dis uil note ripit, uí eve a tradixãn tu rispecte.
Alexandre

 

Há zanga na esplanada

Há zanga na esplanada. Voam mesas e cadeiras, chávenas e copos de água (e o “Correio da Manhã” também). Eu por mim estou a um canto, encolhidinho como a mulher do coronel que chega todos os dias às 18h15 para tomar o chá com as amigas e apanha com a algazarra dos miúdos. Traz quem tu quiseres para o porradão. Falas-me em pistolas e floretes. Que ingenuidade (para um céliniano como tu)! Nada disso: vais levar com a livralhada na cachimónia. Afinal de contas, é disso que se trata: de uma polémica literária entre tipos que vão ao ginásio (a propósito, já alguém te contou das minhas proezas no Judo?). Isto é que vai ser uma Intifada de livros! Levo todos as obras que já analisaste com a tua pena mortífera e ainda uma arma secreta. Não, não vou pegar em novelas amorosas nem em livros de croniquetas. Quando deres por ela, estás a levar com o Ramos Rosa todo no lombo. E depois não te venhas queixar nas recensões, ó Mike Thyson dos Sapadores. Nuno

 

Mais um post melhor que os do João Pedro

A minha passagem por Madrid não podia ter acabado pior. Como no último dia não encontrei o meu orientador na universidade, decidi despedir-me por email. Só agora reparo que fui mais uma vez atraiçoado pelo portunhol:
«Professor M.,
Que tal? He ido a su officio pero no le he encontrado. Era solamente para decir adios e muchas gracias por todo. La biblioteca y los servicios* son espectaculares. Estas semanas han sido muy importantes para avanzar en mi trabajo.
un abrazo y hasta Lisboa»
*Casas de banho
Filipe

quarta-feira, novembro 10, 2004

 

Surdez

Passados que estão, já, alguns dias sobre as eleições norte-americanas, valerá a pena recuperar o episódio em que um auricular foi detectado a George W. Bush, durante o segundo debate televisivo com John Kerry.
Pessoalmente, estou convencido de que não se tratava de qualquer dispositivo que facilitasse a prestação do candidato republicano através do auxílio do seu staff, outrossim de aparelho auditivo que compensasse uma deficiência desse sentido de Bush.
Os problemas de audição teriam começado em criança, quando o pai lhe gritava que parasse de investigar os bolsos dos primos em busca de fisgas e outras armas de destruição massiva. E explicaria, assim, grande parte do seu primeiro mandato: talvez o presidente não tenha percebido bem o nome do vencedor das eleições; depois, não também entendeu o que lhe sussurrou o agente da CIA sobre quem estaria por detrás do 11 de Setembro e, por fim, ficou com algumas dúvidas sobre se os seus generais lhe haviam dito “isto aqui no Iraque ‘tá fixe” ou “o senhor presidente que se lixe.”
Alexandre

 

Estou cheio de medo

Ai queres porrada? Então vamos a isso. Lembra-te, porém, que peso mais de 90 kg, tenho 1,85m de altura e faço boxe, no ginásio Fábrica do Físico, Av. General Roçadas, Sapadores (podem perguntar por mim) e, além disso, o meu avô foi campeão nacional de boxe (se não acreditam, tenho aqui em casa a medalha, que herdei dele), o que quer dizer muito simplesmente isto: está-me no sangue, está-me na massa do sangue, a genética não engana. Insultámo-nos ao telefone? Pois sim senhor, mas o cavalheiro portou-se como um autêntico Conde d'Abranhos. Perante os meus insultos, limitou-se a balbuciar: mas colega... mas caro colega... Enfim, uma vergonha. Portanto, ou retiras o que disseste no último post ou temos merda: escolhe os padrinhos e até, se quiseres, as armas, pode ser pistola, espinganda, pressão d'ar, florete (andei no Colégio Militar, cuidado com isso), uma moca, um garfo, uma faca de cozinha, o que preferires. É só marcar a hora e o local. Estou cheio de medo!!!
João Pedro

 

Isto tá com falta de fotografias


[Giovanna Mezzogiorno]

Rui

 

João Pedro George: espera também pelos explosivos

Agora que já nos insultámos ao telefone (com termos e uma violência que ninguém na blogosfera irá conhecer), posso enfim quebrar esta regra mínima de não me dirigir aos amigos pelos blogs (para, no fundo, não transformar isto num chat de intimidades) e dizer-te que estás à vontade para glosares essa magna obra que encontraste numa privilegiada estante da Barata. Encontrarás muitas frases ridículas (se quiseres, posso ajudar-te a isolá-las) e um sentimentalismo que já não se atura nas miseráveis letras deste país. Mas atenção: cedo, perceberás que o génio poderá um dia explodir no meio dessa suave porcaria. E, já que estamos no território da ameaça, faço-te uma também. Nas minhas andanças de metro, entre senhoras cercadas de sacos de plástico e homens em pulgas para ir ver o "Preço Certo em Euros", tenho lido o livro das crónicas do Pacheco que tu compilaste. Já isolei no meu bloquinho Castelo alguns ditames do Luizinho - e descansa que o teu prefácio não será esquecido. E, já sabes, se quiseres tomar um café, combinar um karaoke ou ouvir um conselho sobre o amor e a sinusite, não postes. Me liga, sim? Nuno

 

A ética foi modificada

Depois de uma noite bem passada na cama com ela, de manhã:
«Sabes, eu gosto muito de ti e não te queria magoar. Gosto de ti, mas não dessa maneira. Por isso, acho que não devíamos voltar a ir para a cama um com o outro. Porque te respeito como pessoa, repara.»
Passou uma semana e tudo lhe pareceu diferente a ele. E voltaram a ir para a cama. E ele voltou a professar na manhã seguinte a sua estrénua amizade. E fez isto repetidamente até o não poder fazer mais, não por uma questão de consciência ou de impotência (dois aspectos não raro intimamente relacionados), mas porque ela se mudou dali. Ela, que bem percebia tudo, nunca disse nada. Nunca se incomodou excessivamente, nem com a fragilidade dele – na qual descobria a sua força –, nem com a imagem dela na fotografia. Em vez disso, andava sempre com um cigarro de chocolate, o qual, entretanto, desembrulhava e lentamente chupava.
O que mais poderá espantar é que sempre que ele o dizia, era verdade porque o sentia. Nunca lhe mentiu. Aliás, normalmente até prometia: «a única promessa que te faço é ser sincero contigo.» E nem aí estava a mentir, pois cumpriu sempre. A questão não é essa. A questão é que ao fim de uma semana sem, a ética fica modificada. Rui

 

dá-me um toque

Caro João Pedro,

Nisto da blogosfera, sempre adoptei uma regra mínima. Se quero dizer coisas às pessoas com quem me dou, não escrevo um post. Telefono-lhes. Um abraço, Nuno

PS - O meu móvel está avariado desde ontem. Telefona-me,se quiseres, para o jornal.

 

Nuno Costa Santos: aviso por causa das coisas

Caro Nuno: acabei de comprar, na livraria Barata, o teu livro de contos Dez Regressos (serão contos?), editado pela Salamandra. Sem ainda o ter lido, um aspecto positivo: não foi muito caro, custou-me 8 euros. O que, só por si, já é uma vantagem. Se não gostar, não vou ficar muito irritado. O pior é com aqueles livros a 20 euros ou mais. Além do tempo que nos roubaram, ainda nos foram também, sem pingo de vergonha na cara, à carteira. Estou pensando escrever qualquer coisa sobre. Que é que achas? Gostava de saber quais as consequências. Se não gostar e vier para aqui dizer mal, como é que é? Já não me arranjas trabalho no jornal A Capital? Deixamos de beber copos juntos, até às tantas? A combinação de vermos em tua casa a cassete de vídeo com o programa do Artes & Letras sobre o Luiz Pacheco fica sem efeito? E se gostar e disser bem? Uma coisa te prometo, como aliás sempre fiz desde que comecei a escrever em jornais: leitura atenta e cuidadosa. Já não sei quem é que dizia, mas nestas coisas devemos saber distinguir a cantiga do cantor. Um gajo pode ser cabrão até à décima potência e escrever livros que se lêem de um fôlego. E vice-versa. Como é que é? Diz qualquer coisa, aqui, na esplanada.
Um abraço,
João Pedro

 

Quero publicar o meu livro na Bertrand

Querida Tereza Coelho: sei que foste convidada e aceitaste ser editora da Bertrand. Conhecendo-te, sabendo da tua competência e da tua paixão e sensibilidade para a mui nobre Literatura Portuguesa, não tenho dúvida nenhuma que vais exercer o cargo com toda a competência e dedicação. Sabes que sempre te admirei. Escreves maravilhosamente, atrevo-me mesmo a dizer que aquilo que tens escrito nos jornais “ainda é cedo para ser compreendido”. Tenho aliás a sensação de “que estás a escrever coisas maiores do que tu”. És “uma mulher que está à frente do seu tempo”. Agora um pedido, em nome da nossa velha amizade: tenho um livro para publicar, uma obra capaz de destronar o Código Da Vinci. Estás interessada em publicá-lo? Se estiveres, enviarei imediatamente, em correio azul e com aviso de recepção, o manuscrito.
Beijos,
João Pedro George

P.S. Já me esquecia: se por acaso te chegar aos ouvidos que publiquei aqui um texto onde falo de ti, não ligues, é tudo mentira. Invejas.
João Pedro

terça-feira, novembro 09, 2004

 

O biógrafo assassino

Marcelo Rebelo de Sousa é um conhecido historiador da social-democracia à portuguesa. Aliás, presumo que neste momento esteja a fazer uma revisão profunda do seu livro sobre a criação do partido de Francisco Sá Carneiro. Faço a minha aposta para o novíssimo título: “A Revolução e o Afundamento do PPD”. Sim, o professor volta a primar pela originalidade. No universo dos biógrafos, inaugurou, por estes dias, uma divertida categoria. Nuno

 

O Ilhas fez anos. Viva o Ilhas!

Junta gente de direita e de esquerda. É um espaço de crítica aberta como nunca se viu antes nos Açores (aliás, como outros blogs do arquipélago). Ah, e tenho lá bons amigos. Nuno

 

Arafat

É da minha vista ou a habitual compaixão que rodeia a necrologia já está a funcionar no caso do líder da OLP? As crónicas dos jornais, as peças televisivas, os comentários dos analistas, enfim, tudo aquilo que se tem dito e escrito nos Media acerca de Yasser Arafat, nos dias do seu fim, é, na melhor das hipóteses, cobarde na sua neutralidade, ou, na pior, um elogio fúnebre.
Não tenho opinião sobre o conflito israelo-palestiniano e creio, aliás, que nunca a virei a ter. Não há razões já nesta guerra – há muitos anos que ambas as partes as terão perdido. Mas Arafat foi um dos grandes terroristas do século XX e o momento em que o agraciaram com o Prémio Nobel da Paz, simultaneamente, uma das piadas do milénio.
Não me entendam mal: também detesto Sharon, mas não desbaratem os elogios às vidas que, de facto, os merecem.
Alexandre

segunda-feira, novembro 08, 2004

 

Máximas da Misoginia

Não há homens impotentes, há é mulheres incompetentes.

Não há mulheres feias, há é homens pouco bêbedos.

João Pedro

 

Que é feito de si, Professor Neca?

O caso Marcelo arrasta-se e continua a ser comentado e dissecado um pouco por todos os quadrantes. Ontem, foi a vez de Álvaro Barreto fazer a sua leitura do sucedido, mas ainda não vi ninguém preocupar-se com Júlio Magalhães.
Imagino o pivot a ter um ataque de choro diante de José Eduardo Moniz, consequência da recaída de um trauma que só a convivência com Marcelo conseguira apaziguar: “Durante o ciclo, o Julinho tinha uma má relação com os professores e estava convencido de que tinha piores notas que os outros meninos porque estes lhes davam presentes”, confirmaria a mãe do jornalista. Assim, teria visto no Jornal Nacional uma oportunidade de refazer esse período da sua vida e ter, novamente, alguém a quem chamar “senhor professor” e oferecer presuntos e doces de ovos.
Goradas as negociações com o professor Bambo e com um professor de educação física da C+S de Odeceixe, Miguel Paes do Amaral poderia contactar o desaparecido professor Neca. Ao antigo treinador faria jeito, certamente, receber uns livrinhos de borla, até porque talvez ainda não tenha lido o de José Mourinho.
Alexandre

 

Jornal A Capital alvo de pressões governamentais

O esplanar foi informado, por fonte segura, que o jornal A Capital está a ser alvo de pressões do executivo de Pedro Santana Lopes. A secção Citações, uma das mais requisitadas pelos leitores do matutino, viu-se impedida de mencionar determinados excertos de uma entrevista concedida ontem, dia 7 de Novembro, pelo escritor J. G. Ballard à revista dominical do jornal Público. Os excertos da entrevista do autor de Noites de Cocaína ou Crash publicados “são muito mais danosos para a imagem do governo que outras que decidimos excluir”, afirmou o director do jornal, o jornalista Luís Osório, contestando assim a notícia de alegadas pressões políticas. Como exemplo, Luís Osório lembra o conteúdo de uma das citações de Ballard que foram escolhidas para integrar a referida secção: “somos violentos, fomos criados para a sobrevivência. Essa ideia iluminista de que os seres humanos se conduzem por altos motivos, tomam decisões racionais, é simplesmente mentira. Somos irracionais”. Todavia, fonte do mesmo jornal, que preferiu manter o anonimato, revelou ao blog Esplanar que não é bem assim, já que outras Citações do escritor inglês foram pura e simplesmente cortadas dessa secção. A título de exemplo, referiu uma das afirmações mais polémicas de Ballard e que, segundo a mesma fonte, terá entrado no cérebro de Santana Lopes como uma bala: “Olhe, eu nem sou capaz de lhe dizer o nome do primeiro-ministro português!” Nascido em 1930, em Xangai, James Graham Ballard é um dos autores mais controversos da literatura inglesa, versando os seus livros temas como a importância das psicopatias, da violência gratuita e da pornografia suicida para o bem-estar das sociedades ocidentais. Desta vez, no entanto, o escritor “foi longe de mais”, afirmou ao Esplanar uma fonte governamental não identificada. Quanto às pressões de que o jornal A Capital alegadamente teria sido alvo, a mesma fonte preferiu não fazer mais comentários, limitando-se a perguntar: “qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?”
João Pedro

 

A pedra de Lobo Antunes


Os títulos dos últimos livros de António Lobo Antunes são, no mínimo, desconcertantes. Mas este que está para sair, então, ultrapassa tudo: Eu Hei-de Amar uma Pedra. Como interpretar a afirmação? Primeiro aspecto: Lobo Antunes quer amar uma pedra. É a manifestação legítima de um desejo. Está no seu direito. Mas será uma pedra qualquer? Sinceramente não acredito. Não acredito que um escritor tão eminente como António Lobo Antunes se vá interessar pela primeira pedra que aparecer, tipo pedra da calçada ou um desses calhaus estúpidos em que tropeçamos, como qualquer adolescente apaixonado. Não, Lobo Antunes é mais o género de se apaixonar por uma pedra do rim. Essa sim é uma pedra que dá luta, capaz de subjugar e amansar um escritor de barba rija, irascível e fanfarrão como o autor de Os Cus de Judas. E como levá-la para a cama? Dizendo-lhe, com um sorriso lúbrico na cara: quero comer-te toda? Essa pagava eu para ver, Lobo Antunes a trincar uma pedra. Com títulos tão difíceis de mastigar como este, era o mínimo que o escritor podia fazer pelos seus leitores. Pronto. Não é tanto assim. Mas que tenho razão tenho.
João Pedro

sexta-feira, novembro 05, 2004

 

Before Sunset é um halterofilista inguche

Isto quando se parte para um filme com vontade de gostar dele, depois quando não se gosta é muito mais irritante. Ninguém gosta de sentir as suas expectativas defraudadas; o ferrete da fraude é pior que o do roubo.
Falta cinema, acho. Quando o principal recurso cinematográfico é o campo/contra-campo em close-up, ou o travelling em close-up, quando de propósito se dirige, por esse meio, a atenção do espectador para o texto e para as caras dos actores, é melhor que o texto seja cintilante e que a representação seja muito boa – porque é só isso que se tem. Ora não o são, nem um, nem outra.
A Julie Delpy, como é natural, perdeu aquela coisa adolescente, e não é por acaso que ele lhe pede para ela soltar o cabelo a ver se fica como antes. Não consegue, mas eu até prefiro assim. Não é por aí. Claro que se pede muito dela, e numa língua que não é a sua nativa, mas a Delpy está demasiado declamativa, apesar de (ou porventura por causa disso mesmo) ter melhorado o sotaque em relação ao outro filme (dizem-me). O Ethan Hawke está a envelhecer mal, parece rugoso e sem charme, dentes e boca feios (reparem numa certa ansiedade do Etahn - não do personagem - quando lhe pede uma passa e lhe crava um cigarro), irritante no morder sistematicamente o lábio inferior. Já é mau o ar embevecido, tipo aparvalhado, com a mais ínfima banalidade que ela emite. Mas é ainda pior o ar permanentemente postiço.
Estas pequenas irritações funcionam como uma mosca na lente da câmara na qual se está sempre a reparar. Ou seja, distraem o olhar do conteúdo para o meio, colocam o foco no processo do que estamos a ver e quebram a desejável suspensão do espectador no interior da história. Em suma, criam distância em relação ao espectador. E, quando se olha para o processo, começam a ver-se as costuras. O argumento é todo em esforço, sem souplesse, e previsível. Parece um halterofilista inguche. É como uma canção pop, só que má. É assim: tema (digamos, a fome no mundo), historieta ilustrativa (fui à Índia, etc.), remate moral ou não (normalmente, sim), festinha no braço, novo tema. Claro que era indispensável fazer conviver o pequeno casulo criado no primeiro filme com o mundo, sem matar a magia entre eles. Mas era mesmo preciso aquela cena no café? Na América não há mesmo cafés destes? É tão bonito que ela esteja a salvar o mundo, a fazer alguma coisa de concreto em vez de, em abstracto, teses de doutoramento em história ou mesmo, ainda que farisaicamente, a trabalhar no governo (os políticos não resolvem nada, esses chupistas). Ai é tão bonito.
E outra coisa: ou eles se encontravam e começavam logo a tocar-se e faziam amor e falavam depois, mas só depois (ter feito amor com alguém é uma espécie de porta ou de atalho para a outra pessoa, que fica sempre lá e que pode ser aberta em qualquer momento no futuro) ou então não se tocavam de todo, apenas no fim. Isso tinha alguma lógica. Agora, Jesse Wallace demora precisamente 1 minuto e 35 segundos a tocar no braço de Céline. E depois não pára, repetidamente, e mais uma vez e mais, e mais, e ela não quer até que começa a cantar. Ao fim de nove anos. E porque raio é que ela demora uma hora e tal de filme a perguntar-lhe o que era aquilo do anel no dedo dele? E porque é que ele, se lhe quer tocar, nunca lhe encosta a palma da mão aberta nas costas que a camisa, tão generosamente, prodigaliza?
A propósito: e a camisa do Ethan Hawke? Han? Maravilha. Merece este parágrafo.
O filme só arranca verdadeiramente na parte final da cena no barco, e durante toda a cena no carro a caminho de casa dela, esta sim francamente boa. Daí até ao final o filme é bom, embora ele continue a fazer aquelas trejeitos e sorrisos postiços. Contudo, e pensando melhor, não haverão muitas outras formas de, não indo embora, reagir àquela valsa. Eu estou com esta conversa, mas teria perdido igualmente o avião, não por causa da valsa, mas por vê-la imitar assim a Nina Simone. Rui

 

O CANDIDATO DA VERDADE: AMPLITUDE MODELADA



Tenho o rádio de pilhas avariado. De todas as avarias que já me aconteceram esta é a mais insólita, bizarra e exótica. Deixei de poder ouvir estações em FM. Rádio, agora, só em AM. É outro mundo, uma espécie de terra crepuscular onde os sons, carregados de interferências, parecem vindos de um ponto desconhecido do universo. Como se vidas extra-terrestres estivessem a tentar comunicar connosco ou, mais assustador ainda, a falar entre si, numa língua desarticulada e impronunciável. Planeando invadir-nos, escravizar-nos. Razão tinha o Orson Welles e não percebo por que é que o David Lynch nunca se lembrou de filmar em AM. Fenómenos para-normais, estados hipnóticos, outras dimensões, está lá tudo.
Quando comecei a tomar consciência da situação em que me encontrava, a primeira coisa que fiz foi perguntar à minha ignorância: o que é que significa AM? É abreviatura de quê? Corri aos dicionários. O Cândido de Figueiredo limita-se a um lacónico “antes do meio-dia”. Não podia ser. Fui então ao da Academia das Ciências. Lá estava: Amplitude Modelada. Deve ser isto. O próximo passo foi aqui na internet. Introduzi as palavras correspondentes no Sapo, no Google e nada. Não havia resultados que me informassem, me explicassem o que era isso da Frequência Modelada. Fui parar a páginas ainda mais enigmáticas, que adensaram o mistério. Páginas onde se fala de espectros harmónicos, de sinais aleatórios em tempos contínuos, de reactância capacitiva em paralelo e outras palavras num jargão que só veio confirmar as minhas anteriores suspeitas: passa-se ali qualquer coisa, aquilo não é coisa boa. E logo agora, que acabei de sair do filme mais teoria conspiração do mundo, O Candidato da Verdade, onde há lavagens cerebrais, estados hipnóticos, humanos programados e controlados à distância, operações cirúrgicas que nos introduzem, com a ajuda de um blékandequer de grande precisão (até houve quem tivesse vomitado na sala e atingido os espectadores dos lugares da frente, nunca tinha assistido), pequenos dispositivos para controlar a nossa personalidade e as ligações sinápticas do nosso cérebro. Reparem, as frequências em AM vão do 531 ao 1602 e há estações que sintonizam no 666, faladas em línguas que misturam o marroquino, o castelhano e o português. Uma vozearia que não pode ser deste mundo. Devem achar que estou pírulas, gugu-dádá, a imaginar coisas que não existem, vindas do além. Não acreditam? E se eu vos disser que hoje, pelas 20h e 30m, Jorge Sampaio, Mota Amaral, Artur Maurício, presidente do Tribunal Constitucional, o Cardeal Patriarca de Lisboa, Jorge Palma, Nuno Guerreiro e outras personalidades vão começar copiar à mão a Bíblia, que em Vilamoura centenas de cientistas portugueses e estrangeiros discutem neste momento a fusão nuclear, que há ratinhos bebés a serem medicados com Prozac para ficarem mais deprimidos, que a União Europeia obriga os produtores de carne de bovino a removerem o crânio (incluindo o cérebro e os olhos), a coluna vertebral e a espinal medula dos animais, que Bryan Adams, Art Garfunkel, Tatum O’Neal, Sam Shepard e Bernard-Henry Levy fazem hoje anos, que as formigas argentinas...
João Pedro

 

Depois não venham dizer que não vos avisei...


Na página 63 dos classificados do Público de hoje vem este anúncio:

DEPUTADO

Ex-militante do PSD ofereço-me para qualquer partido de esquerda. Não sou como o Tino de Rans, sei falar e atacar. Cansado deste maldito desgoverno de 2 anos e meio. Aos jornalistas pergunto: Vamos reeditar o Jornal do Medo, Actualidades, Barricada do qual fui colaborador no tempo de Salazar? Estou pronto mesmo sujeito à A.A.C.S., PIDE, censura ou outros. Porquê ninguém respondeu? Já sei, podem telefonar para 966803594.

Depois eu é que estou maluco...

João Pedro


quinta-feira, novembro 04, 2004

 

Meta-postagem: singelo subsídio


Cronoterapia Bilingüe


Si un muchacho lee mis poemas
me siento joven por un rato

en cambio cuando es
una muchacha quien los lee
quisiera que el tictac
se convirtiera en un tactic
o mejor dicho en une tactique.

[in Mario Benedetti, Inventario. Poesia 1950-1985, Madrid, Alfaguara, p. 123]
Rui

 

A ver se é desta

Ando há que tempos a ver se consigo escrever um post com mais de um parágrafo.
Já está.
Rui

 

Hoover Dam Reloaded


Rui

quarta-feira, novembro 03, 2004

 

ddr esplanar

Rui

 

Move On Up

Hush now child and don't you cry
Your folks might understand you by and by
Move on up towards your destination
You may find from time to time
Complications
Bite your lip and take a trip
Though there may be wet road ahead
You cannot slip
So move on up and peace you will find
Into the steeple of beautiful people
Where there's only one kind

So hush now child and don't you cry
Your folks might understand you by and by
Just move on up and keep on wishing
Remember your dreams are your only schemes
So keep on pushing

Take nothing less - not even second best
And do not obey - you must have your say
You can pass the test

Move on up!

[original The Jam, perdão, de Curtis Mayfield - dizem-me agora o Pedro Adão e Silva e o Nuno Costa Santos, cover Mark Eitzel, Music for Courage & Confidence, track #8]

When you see this, post a pop song in your blog

Rui

 

Eleições americanas: apesar de tudo, feliz!



Foi uma madrugada difícil. Adormeci no sofá, um sofá barato e desconfortável, responsável por torcicolos, hérnias, obesidade e outras adiposidades. Adormeci quase feliz, quase sereno, apesar dos incómodos. Algumas sondagens apontavam para a vitória de Kerry no Ohio. Nestes últimos tempos, silenciosamente (porque percebo pouco e gosto ainda menos da política pura e dura; mas atenção, sempre votei, as comissões eleitorais, a minha junta de freguesia, ninguém poderá impedir uma candidatura minha à Presidência da República), silenciosamente, dizia, desejava a vitória de John Kerry. Reparem, considero-me um rapaz de direita, a minha socialização primária (na família) foi feita à direita, a minha Avó (adoro-a, já vai nos 90), que viveu mais de quarenta anos em África e gosta do Salazar e do Cavaco Silva, diz sempre às refeições, antes de começarem: à mesa não se discute nem política nem religião. Claro que as discussões acabam invariavelmente por acontecer (os primos são os piores) embora, no final, quem acaba sempre por ter razão é a minha Avó, aliás, para quem não sabe, as Avós têm sempre razão. São discussões em que ninguém se entende, em que o tom de voz aumenta e exorbita, os primos zangam-se, o convívio fica estragado. Dizia portanto que a minha educação foi de direita, não me lembro de alguém ter votado à esquerda do PSD. A minha irmã é filiada no PP (embora não pague as quotas e não queira saber daquilo para nada, filiou-se por excentricidade, maluqueira, ela é assim e é assim que eu gosto dela, bem-haja!); a minha mãe e o meu padrasto (de direita e monárquico, pertence a uma associação Real qualquer coisa, embora muito distante, muito indiferente), sem terem filiação partidária, são claramente de direita, nem sequer conceberam a hipótese ver o filme do Michael Moore e isso deu discussão acesa à mesa de um restaurante chinês; o meu pai, que não vive em Lisboa mas em Viseu, é direita, direita, a África foi uma experiência para toda a vida... Ora eu cresci nesse ambiente, em cafés de bairros de retornados onde o ambiente era o do colonialismo português, falava-se de ruas e localidades africanas com muito mais frequência e à-vontade do que de ruas em Lisboa; são nomes, palavras, que projectam em mim uma ressonância quase mítica, ainda hoje, quando oiço falar na Ilha de Moçambique (onde o meu Avô paterno foi Administrador), no Bilene, em Porto Amélia, Niassa, Lourenço Marques, Polana, etc, fico em transe, apático, nostálgico. Porque aquelas conversas em cafés cheios de fumo e de copos de whisky, quando criança, fizeram com que incorporasse em mim memórias que não me pertenciam. Até a palavra “paludismo” me é tão próxima e familiar como se dele sofresse as maleitas e não a minha tia, que volta e meia fica de cama, com tremuras e suores ora frios ora quentes. Tudo muito reaccionário, com à-partes muito racistas e “ó tempo, volta para trás”. Diziam: África?, regressar a África?, nunca mais quero voltar, os pretos deram cabo daquilo tudo, quero morrer com a memória daqueles tempos intacta, como era naquele tempo. Sinto-me de direita, como quem nasce com uma doença genética. No entanto, por temperamento, estilo de vida, sinto-me mais próximo da esquerda. Claro que esta distinção direita/esquerda complica-se muito quando falamos da América, dos Estados Unidos. O Kerry não será de esquerda, só é de esquerda porque os Republicanos são de direita. Se o Kerry fosse Europeu, líder de um partido europeu, não tenho dúvidas de que pertenceria a um partido de direita ou do centro-direita, digo eu, que não percebo nada disto. Bom, mas, como dizia, adormeci descansado, deviam ser umas quatro da manhã, adormeci a assistir à directa do José Alberto de Carvalho e do Pedro Magalhães. Quando acordei, pouco antes das seis, o mundo tinha mudado, pior, não iria mudar. Bush era o mais que provável vencedor. A Florida já estava a encarnado e o Ohio era cada vez mais Bush. Senti-me desgraçadamente, desassossegado, encarquilhado, com o pescoço maltratado, os olhos pesadíssimos fustigados pela luz azulada e intermitente da pantalha televisiva e a sala às escuras. Pior, acordei enrodilhado no edredão, com os pés de fora, frios, gelados. Levantei-me para comer qualquer coisa, beber um sumo de laranja com cálcio produzido na América, marca Tropicana, a mesma que o Tony Soprano bebe (já repararam nele a abrir o frigorífico e a beber do pacote um sumo Tropicana?). Os restantes minutos televisivos serviram-me apenas para confirmar a vitória republicana. Desliguei e fui para a cama, tentar finalmente descansar e verdadeiramente dormir.
Agora, acordado e pequeno-almoçado, tento racionalizar relativizar as eleições americanas. Desde logo, e o menos importante, a vitória de Bush é óptima para o leitor dos jornais portugueses. É muito mais entusiasmante ler a maioria dos comentadores irritados, furibundos com a vitória republicana. Sempre preferi ver as pessoas irritadas, zangadas, exaltadas. Revelam-se mais, mostram mais claramente a sua natureza e o fundo de que são feitos. Assistir a um coro de opiniões auto-celebratórias e contentinhas é um espectáculo que me desgosta. Por isso, fico à espera, na expectativa. Quero ver o fel e a bílis dos intelectuais a correr em turbilhão. Depois, e este será o aspecto mais importante, a esquerda europeia só tem a ganhar com esta vitória. Sabendo-se que a maioria dos europeus desejava a vitória de Kerry é de supor que nas próximas eleições em países europeus os povos se queiram vingar de não terem podido votar nas eleições da metrópole mundial (actualmente, um português que vá a Washington sente provavelmente o mesmo que um indiano no século XIX sentia quando ia a Londres ou um moçambicano a Lisboa, estava na capital do Império, na metrópole). Prevejo por isso que, mais do que duas Américas (e os resultados finais nas eleições americanas mostram-nos que, no fim de contas, a América não estava assim tão dividida, Bush ganhou mais contra Kerry do que contra Al Gore), teremos uma América e uma Europa cada vez mais de costas voltadas, uma América de direita e uma Europa de esquerda, mesmo que nas razões de Estado da política internacional certas alianças se mantenham: a América continuará a ser o mal menor. E eu, pequeno e insignificante bípede perante tudo isto? Bom, eu continuarei, como sempre, a votar no Partido da Terra.

P.S. Não posso deixar de confessar e reconhecer que hoje é um dia feliz para mim. Acabei a pior tradução da minha vida (caríssimo Rui Branco, o Quentin Skinner está despachado, vamos comemorar?). É portanto um dia de contrastes, como aliás todos o são: feliz por causa da tradução, infeliz por causa do mundo. Como é a olhar para o umbigo que todos nascemos e morremos, a minha pequena felicidade é muito mais importante do que o mundo. É mesmo assim, não há volta a dar.
João Pedro

terça-feira, novembro 02, 2004

 

Hoover Dam

Se tivesse que escolher uma coisa americana, era a Hoover Dam que eu escolhia (tenho uma obsessão por grandes obras públicas, tipo Canal do Suez e a barragem das Três Gargantas na China.)


E por causa disto

Rui

 

ddr esplanar


Rui

 

Movida

Este fim de semana acho que percebi, finalmente, o que é a famosa "movida madrileña". É começar à hora dos ingleses e acabar à hora dos portugueses. Filipe



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