ESPLANAR

JOÃO PEDRO GEORGE
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sexta-feira, outubro 29, 2004

 

Um desabafo e "Até quando, Possidónio Cachapa?"



Há mais de um ano, mais precisamente no nº 4 da revista Periférica (Inverno de 2003), publiquei um texto sobre António Mega Ferreira, Possidónio Cachapa e Inês Pedrosa. Ontem, por causa da capa com o António Lobo Antunes e de uma chamada para a página 44 – Possidónio Cachapa, “Autobiografia” – comprei o Jornal de Letras, Artes e Ideias. Pensei, perguntei-me: será que o jovem Cachapa já está a escrever a sua autobiografia? Será pré-publicação? Mas quantos anos tem o homem? Sessenta? Setenta? Que vida foi a dele? Que episódios, acontecimentos levam o jovem escritor (39 anos) a relatar-nos publicamente a sua vida? Dei o benefício da dúvida, gastei 2 euros e 60 cêntimos, o preço do jornal. Antes de continuar, e em clima de tanta barafunda por causa do Prof. Marcelo e da liberdade de expressão, vou contar-vos uma historieta sobre a relação imprensa/publicidade/(pequeno) poder económico.
Antes de colaborar na Periférica (à borla, não recebo cheta), trabalhava na revista Os meus livros (a sucessora da Livros, que pertencia ao Independente que, por sua vez, pertencia a Paes do Amaral), dirigida pela jornalista Tereza Coelho (onde me pagavam, quando calhava e depois de muitos telefonemas, chatices várias, mal e porcamente). Em conversa com a Tereza, discutindo os livros sobre os quais iria escrever, sugeriu-me e passou-me para a mão três livros de autores portugueses: Amor, de António Mega Ferreira, O Mar por Cima, de Possidónio Cachapa e Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa. Que fizesse um texto maior, duas páginas da revista, sobre. Acrescentando, quando já me ia embora: “é para dizeres mal...” E riu. Eu também ri, cúmplice: conheço-me, sei que tenho uma propensão congénita para o mal-dizer, além disso conhecia a escrita deles, à partida já não gostava, já tinha lido outras coisas, só um milagre me faria mudar de ideias, afinal as pessoas não mudam de escrita de um dia para o outro mas, quem sabe... E fui ler, sublinhei, voltei a reler páginas para atrás, para me certificar, para tentar perceber coisas que à primeira me tinham escapado. Ao fim de uma semana, mais coisa menos coisa, estava feito. E dizia mal, muito mal, pessimamente. Uma merda, para falar depressa e bem. Telefonei à Tereza: olhe que a coisa está forte, gostava que lesse, que se certificasse se há frases insultuosas e mal fundamentadas. Leu, riu-se, ri-me, tudo bem, não está insultuoso, está bem fundamentado, vamos em frente. Fui para casa feliz da vida. Quando voltei à Tereza, para entregar outro texto sobre um outro livro qualquer, perguntei: quando é que sai? Não sai, ou mudas o texto ou não sai. E mais disse: está insultuoso e mal fundamentado!!! Utilizas frases retiradas do contexto e isso não pode ser, não fundamenta opinião nenhuma (que tal citar os livros por inteiro?, respondi, tentando manter a calma, o sangue frio). Escuso-me a relatar quer o que senti, quer a minha reacção. Limitei-me a dizer que assim não, assim batia com a porta. Tudo bem, se é isso que queres, limitou-se a dizer-me. Sem mais cenas, sem pedidos para que reconsiderasse, que a porta estava sempre aberta para quando quisesse voltar (havia uma testemunha: José Prata, o braço direito da Tereza, logo desmentirá a minha versão, é certinho). Fui-me. Não me pagaram o texto, o trabalho, não fiquei com os livros (para oferecer a certos amigos que eu cá sei ou para vender nos alfarrabistas). Não me surpreendeu. A falta de profissionalismo e a incompetência da Tereza são do conhecimento geral: dá os mesmos livros a diferentes colaboradores para escreverem e no final há um dos textos que vai fora, fica na gaveta, porque a senhora se esqueceu, fez confusão, sem um pedido de desculpa, sem o legítimo pagamento; com outros textos, perde-os simplesmente ou diz que não os entregámos; corta textos, subtrai frases, acrescenta outras da sua lavra; troca as assinaturas dos textos dos colaboradores (a mim aconteceu-me). Assim, com grande descontracção, leveza e um encolher de ombros. Estas coisas demoram tempo a perceber, principalmente numa fase das nossas vidas em que escrevemos quase de graça, queremos é ver os nossos textos impressos, sentir essa vaidadezinha, a ilusão que nos lêem. Qual o valor do dinheiro perante isso? Quase nulo. E, no fim de contas, que interesse tem tudo isto? Quase nenhum. É apenas um exemplo de como o poder económico (pequeno, neste caso pequenino) fala mais alto. Um exemplo da pequena censura. A revista arriscar-se-ia a perder a publicidade das editoras do Mega, do Cachapa e da Pedrosa. No dia em que o meu texto deveria ter saído, lá estava a dita publicidade, ainda por cima a um dos livros referidos, o do Possidónio. Além disso, a Inês Pedrosa tinha elogiado, na sua crónica do Expresso, a revista da Tereza (que deve ter pensado: como poderei eu publicar um texto a dizer mal da Pedrosa depois de ela me elogiar publicamente?; eu até não gosto dos livros delas, mas tenho de ter cuidado, ninguém pode saber, o importante é, à boca grande, dar umas palmadinhas nas costas, fazer umas visitas, fazer exercícios de curvatura de espinha; e o Mega, o todo poderoso Mega, ele está em todo o lado, não posso arriscar-me, posso ficar sem a revista, podem mandar-me fechar a loja...). Pessoalmente, tudo isto não passa de um desabafo, depois de quase dois anos decorridos.
A parte do texto que escrevi sobre o Possidónio Cachapa (afinal foi ele quem desencadeou estas memórias, esta “autobiografiazinha”) dizia assim:

O Mar por Cima, de Possidónio Cachapa. Uma prosa encaracolada, com planos temporais alternados, não passando de jogos de arquitectura narrativa que até o leitor mais atento sente dificuldade em acompanhar. Não espanta por isso que haja uma confusão de personagens, quase fantasmas, que não têm qualquer espessura psicológica e se esquecem ao virar de cada capítulo. Conseguimos perceber, no entanto, que há a Manuella, de famílias bem, finalista de arquitectura, alvo de assédio sexual no trabalho. O Ruivo, um polícia com problemas mal resolvidos que se apaixona por Manuella. O Xuinga, um delinquente afro-descendente que assalta o Miguelito numa casa-de-banho pública (a cena prolonga-se por quase todo o livro). E pouco mais, além de uma parte da acção decorrer nos Açores, enquanto Manuella e Ruivo vivem na Lapa. Lá pelo meio, sem se perceber muito bem, há sexo, brutalidade policial, ganzas, calão, pedofilia e homossexualidade. Como dizia Jorge de Sena, “não passam de conservas de realidade no azeite dos lugares comuns”.
Mas vamos à escrita. Alguém sabe explicar o que é um “abismo preguiçoso” ou um “penhasco vulgar”? E as “masmorras do umbigo”? Repare-se em frases como: “o pé numa poça fria, estava um rapaz pequeno” (p. 45); “corpos lançados à lua, como que a subirem planetas à unha” (p. 58); “quando não se nasce com jeito de mãos, fica-se sempre em estado de emaravilhamento perante o manual criar dos outros (p. 81); só mais esta: “do mar, a terra parece que chega sempre mais depressa do que sim” (p. 213). E depois há foleirices como “curvas de antebraços que se amam”, “sorriso moldado entre maços de tabaco”, “fumadores que fumam o último trago”, parágrafos que começam com “eram oito, as horas, quando…”, imprecisões, como chamar batráquio à osga, quando se trata obviamente de um réptil (p. 88), afirmações enigmáticas como “a meia-idade é o limbo do sexo no coração dos filhos” (p. 95); “fechar com chaves a alegria porque imaginamos que os samurais são mais felizes” (p. 128).
As vírgulas são anárquicas, umas vezes entre o sujeito e o verbo, outras tornam a leitura dolorosamente soluçante. Enfim, uma escrita que não cataliza a acção, sem causalidade, onde as insinuações, as ambiguidades e as situações estão mal construídas, com a excepção do capítulo onde Manuella e Ruivo se conhecem. Não é fácil dizer bem.”

Este naco de crítica mereceu uma resposta do escritor: referia-se-me como “um sincero camponês que se assina pelo aristocrático nome de George” e “boy George” (esta gostei, teve piada, há que reconhecê-lo). A minha réplica, no blog da Periférica, terminava com: “para quem se assina pelo Possidónio nome de Cachapa, é preciso ter coragem e estômago de baleia. Há quem lhe chame completa ausência de boa educação e sugira a leitura quotidiana de manuais de urbanidade. Eu chamo-lhe apenas criancice.” A questão ficava arrumada. Ele não me gramava, eu não gramava a escrita dele, dificilmente voltaria a perder tempo a lê-lo. Mas não resisti, não resisto. O texto do JL intitula-se “Começar outra vez”. Aparentemente, não se trata de uma pré-publicação do novo livro, uma autobiografia, do autor de A Materna Doçura. Trata-se de uma crónica, na última página do jornal, onde antes escrevia o não menos inenarrável Jorge Listopad (venha o diabo e escolha). A crónica, desde logo, começa bem, outra vez: “Era Abril e se calhar chovia. O que em Évora não é mau, pois nem tudo era confortável nesse tempo”. E continua, mais à frente: “Cresci entre pradarias improvisadas, cheias de índios, e fornos de cal desactivados que faziam as vezes de gruta. E tinham eco. E tinham eco.” Aquele pradarias seria um jogo de fonética com “padarias”? Fornos de cal?, para cozer pão? Índios?, os padeiros? E aquela repetição – “E tinham eco. E tinham eco” – será o quê? Serve para quê? Logo a seguir, sem mais aquela, à laia de erudição patético-foleira, uma expressão latina: “in illo tempore, crianças caminhavam ao longo das estradas”. É extraordinário. Reparem, estas coisas publicam-se e sem que ninguém diga nada, faça um reparo, chame a atenção. Talvez o mal esteja em mim, masoquista me confesso: é que o Possidónio continua a abusar da minha paciência. Vejam-se só estas frases, expliquem-mas, s.f.f.: “Onde se prova que são prematuros os que morrem mais...” (a frase acaba aí mesmo, as reticências vêm no original). Mais e mais: “com os cabelos molhados de banhos em pedreiras imortais”, “foi aí que rebentou o 25 de Abril e a ordem das coisas se alterou. Podia andar-se pendurado dos braços dos adultos, que lavavam as ruas com gritos de «Fascismo Nunca Mais» ou de «A terra a quem a trabalha!»” Uma maravilha. Andar-se pendurado dos, lavar ruas com gritos. Mas Possidónio, apesar de tudo, revela alguma ciência, dois dedos de testa: “Também é aí que se aprende que se pode escrever com clareza sobre tudo, menos sobre nós, mistério maior do que se traz às costas”. Depois, em jeito de manifesto, lança-nos com isto à cara: “o fracasso das boas ideias [leia-se, as coisas que escreveu, os argumentos, as cenas de teatro e os sketches de televisão] mal explicadas a um país de surdos. A desilusão. A incapacidade de viver entre argolas e setas alaranjadas [atenção Santana!]”. Sobre A Materna Doçura: “a maioria dos leitores recebeu-o como ele tinha de ser recebido: como um documento sobre a busca do amor. Foram precisos vários anos e uma nova edição mais alargada para que o Sistema de Informações e Segurança do Sântano (SIS-S) o metesse no Índex dos livros «potencialmente criminosos», ao lado dos de Thomas Mann ou de André Gide”. É preciso ter lata, ser muito vaidoso. E aquele SIS-S é o quê? Que raio de subtileza é esta? Concretize, homem, tem medo do quê? Não estamos no Estado Novo, as ruas já foram lavadas com gritos... E que Índex é aquele? Percebem alguma coisa? Que autobiografia é esta? Que escritor é este? A gabarolice do Possidónio é de arrancar os cabelos. Ele, que tão indignado ficou com a minha crítica, vem depois armar-se no grande cívico, o alerta consciências, o escritor-sirene: “E as crónicas? Perguntei-me várias vezes, por que diabo as escrevia eu, se tanta gente preferia que me ficasse apenas pela invenção. E só me resta responder «por presunção»; pelo meu lado humano, o de quem está vivo e sonha com um país melhor. A ilusão de contribuir para o debate. Dizer o que se pensa num país em que se pensa no que NÃO se deve dizer, não é muito fácil (nem dá tanta alegria como possa parecer). Mas ainda assim é uma vontade que se instala. Como se fosse a minha vez de estragar as mãos a construir o parque infantil onde os meus filhos brincarão adultos”. Enternecedor, sem dúvida. Mas muito descaramento. Ele que não aceita críticas e goza com o meu nome, não discute sequer ideias, opiniões, limita-se a brincar com o nome que Deus e a minha família me deram. E cagança, muita cagança: “ilusão de contribuir para o debate”, “dizer o que se pensa”. Realmente é preciso ter muita coragem para falar de SIS-S e outras referências sibilinas, não concretizadas, não assumidas. É melhor parar por aqui, apenas uma última referência às fotografias que acompanham este texto miserável: Possidónio com as primas aos 6 anos, Possidónio aos 12 anos, Possidónio na actualidade. Piroso, convencido e, pior, desprovido de todo e qualquer sentido de auto-crítica. Basta! Até quando, Possidónio?

P.S. Peço desculpa pela desproporcionalidade deste texto. A verdade é que tudo isto me irrita e muito. E, bem vistas as coisas, tenho estado ausente deste blog.
João Pedro

quinta-feira, outubro 28, 2004

 

Interdito a menores de dezoito

Reparo agora que o bilhete para o concerto dos Marlango, em Madrid, dizia que o espectáculo nao era aconselhável a menores de dezoito anos. Pensando bem, parece-me plenamente justificado.
Filipe

terça-feira, outubro 26, 2004

 

Diferença horária

O título "Before Sunset" foi traduzido para português como "Antes do Anoitecer" e para espanhol como "Antes del Atardecer".
Filipe

domingo, outubro 24, 2004

 

Os fins

Gosto das coisas que acabam, quando acabam. Tudo ganha uma silhueta especial se iluminado pela luz que encerra os espectáculos, mesmo o monstruoso. O fim de qualquer coisa significa sempre o seu cumprimento e nada me angustia mais que o inacabado. O final dos dias é doce, o terminar um trabalho reconfortante; colocar o último ponto num texto, dar o retoque que faltava a um quadro, a derradeira frase que se diz a alguém que parte, o último olhar lançado sobre uma paisagem que se deixa, para sempre, para trás. Todos os fins encerram a coisa inteira naquilo que teve de essencial porque, geralmente, tendemos a ser mais verdadeiros quando tudo desaba. E, no fim de contas, não está implicado no começar de cada coisa que ela acabe? E que, quando acabe, fique o espaço para que outra coisa qualquer comece? Que descanse em paz tudo o que nos morreu. Aprendemos a ser nós próprios no sobreviver-lhe.
Alexandre

 

«A Foreign Sound» ou «as características esquisitas desse monstro católico tropical»


[foto roubada daqui]

«O segundo manifesto, o Antropófago [o Manifesto Antropófago de Oswaldo de Andrade, 1928], desenvolve explicitamente a metáfora da devoração. Nós, brasileiros, não deveríamos imitar e sim devorar a informação nova, viesse donde viesse, ou, nas palavras de Haroldo de Campos, “assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais ineludíveis que dariam ao produto resultante um carácter autónomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua vez, num confronto internacional, como produto de exportação”. Oswaldo subvertia a ordem de importação perene – de formas e fórmulas gastas – (que afinal se manifestava mais como má seleção de referências do passado e das orientações para o futuro do que como medida da força criativa dos autores) e lançava o mito da antropofagia, trazendo para as relações culturais internacionais o ritual canibal. A cena da deglutição do padre d. Pêro Fernandes Sardinha pelos índios passa a ser a cena inaugural da cultura brasileira, o próprio fundamento da nacionalidade.
A ideia do canibalismo cultural servia-nos, aos tropicalistas, como uma luva. Estávamos “comendo” os Beatles e Jimi Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva. Claro que passamos a aplicá-la com largueza e intensidade, mas não sem cuidado, e eu procurei, a cada passo, repensar os termos em que a adotamos. Procurei também – e procuro agora – relê-la nos textos originais, tendo em conta as obras que ela foi concebida para defender, no contexto em que tal poesia ou tal poética surgiram. Nunca perdemos de vista, nem eu nem Gil, as diferenças entre a experiência modernista dos anos 20 e nossos embates televisivos e fonomecânicos dos anos 60. E, se Gil, com o passar dos anos, se retraiu na constatação de que as implicações “maiores” do movimento – e com isso Gil quer dizer suas correlações com o que se deu em teatro, cinema, literatura e artes plásticas – foram talvez fruto de uma superintelectualização, eu próprio desconfiei sempre do simplismo com que a ideia de antropofagia, por nós popularizada, tendeu a ser invocada. [...]
No entanto, há pertinência em notar na Tropicália (na esteira da Antropofagia) uma tendência para tornar o Brasil exótico tanto para os turistas quanto para brasileiros. Sem dúvida eu próprio até hoje rechaço o que me parecem tentativas ridículas de neutralizar as características esquisitas desse monstro católico tropical, feitas em nome da busca de migalhas de respeitabilidade internacional mediana. Claro que reconheço que reflexos de um turbante de bananas não seriam particularmente úteis à cabeça de um pesquisador de física nuclear ou de letras clássicas que tivesse nascido no Brasil. Apenas sei que este fato “Brasil” só pode libertar energias criativas que façam proliferar pesquisadores de tais disciplinas (ou inventores de disciplinas novas) se não se intimidar diante de si mesmo. E se puser seu gozo narcísico acima da depressão de submeter-se o mais sensatamente possível à ordem internacional»

[Caetano Veloso, A Verdade Tropical, São Paulo, Companhia das Letras, 2002 (1ª. ed. 1997), pp. 247-252].

Caetano Veloso, hoje, no Pavilhão Atlântico. Rui

sábado, outubro 23, 2004

 

Os beijos

Julgo que era Bukowsky quem o dizia em Mulheres: há mais intimidade nos beijos do que no sexo. E é verdade, talvez nem sempre, mas em muitos casos. Por isso, acho interessante que o cinema clássico se ficasse pelas grandes «kissing scenes», trabalhadas na luz, no enquadramento e no «close up» até à exaustão, em nome de um lugar na História que a maioria das grandes sequências de efeitos digitais contemporâneas não conseguirá igualar. Em geral, encerravam as películas, precediam os créditos finais e eram, tacitamente, o apogeu de todos os desejos que haviam feito correr, durante hora e meia, duas horas, o casal protagonista. O que também não deixa de ser interessante – afinal, citando, agora, Lou Reed, «it’s all down hill after the first kiss…»
Alexandre

 

Uma pechincha

Estava eu descansadinho no Jumbo das Amoreiras, a ver se ninguém me via de volta da bancada dos dvd’s em promoção, quando encontro aqui o João Pedro. Ambos de cestinho encarnado no braço. Tinha, justamente, metido na cesta um tal de «A Flor do Mal» («White Oleander»), que vou ver esta noite e do qual nunca ouvi falar. Olhando para a capa, as razões para tê-lo comprado parecem-me evidentes. Eu não posso ter feito uma má compra. O dvd custou 5,99 euros. São 5,99 euros por um filme com Alison Lohman, Robin Wright Penn, Michelle Pfeiffer e Renée Zellweger. Digo isto mesmo ao João Pedro, meio orgulhoso, e ele junta um argumento de peso, dizendo que isso dá um euro e meio por cada uma delas. Ora é bem visto. A Michelle Pfeiffer sai a um e meio, e sobretudo a fabulosa Sra. Sean Penn sai a um e meio, e ainda metem a Alison que eu não estou a ver bem quem é, mas que pelo que dá para ver dificilmente desapontará. Rui

sexta-feira, outubro 22, 2004

 

Os jornais por abrir

Tenho um prazer irracional em estar rodeado de jornais e revistas. O caso torna-se mais estranho quando me apercebo de que, para total desfruto da sensação, é necessário que os periódicos sejam novos, estejam por abrir, por ler. Talvez seja uma tara pela organização, mas pegar num jornal em que os cantos das folhas já apontam para todas as direcções possíveis da rosa dos ventos enerva-me. Em compensação, abrir o jornal ou a revista novinhos em folha (literalmente!) tem um sabor que só um psiquiatra dos bons poderá explicar. O cheiro do papel, a textura rugosa, o som do virar das páginas – o meu materialismo nunca me permitirá, portanto, a conversão às edições on-line. Da Newsweek aos classificados do Correio de Alguidares de Cima, vale tudo. É preciso é que venha por abrir.
Alexandre

 

Fui vê-la ontem


Filipe

quinta-feira, outubro 21, 2004

 

Espanhol para principiantes

Aprender espanhol será, provavelmente, das últimas prioridades dos portugueses. Aprendemos inglês, francês, alemão ou italiano. De vez em quando, lá aparece um Pacheco Pereira que aprendeu árabe ou chinês. Espanhol é que não. Não vale a pena. Lá no fundo, todos achamos que, com um bocado de improviso (leia-se «portunhol»), a coisa vai lá. É um raciocínio que pode sair bem caro.
Imaginemos que você está com sorte e consegue levar a Maricielo a jantar em Madrid. Um habitual desbloqueador de conversa é, já se sabe, o inevitável tema da naturalidade. Mesmo que a «chica» (rapariga) revele uma pronúncia estranha, nunca lhe pergunte: «eres basca?». Por todas as razões e mais algumas: é que «basca» significa «náusea», e a chica pode ficar a pensar que, ainda o jantar mal começou, e já lhe está a causar vómitos. Por outro lado, se você for de Braga, omita esse facto. Diga que é de Guimarães. De Braga é melhor não: se «bragas» significa «cuecas», «Braga» deve significar, com toda a probabilidade, «cueca». Há sítios melhores para se nascer, convenhamos.
Em seguida, já com a carta à sua frente, escolha tudo o que lhe apetecer, menos «langosta»: pode-lhe sair uma bela lagosta, sim senhor, mas também pode levar com um puré de «gafanhotos» (outro significado possível). Não esqueçamos que Napoleão também andou por Espanha. Uma coisa que também acontece muito neste tipo de jantares, dada a tensão que se gera, é deixar cair um talher no chão. Se deixar cair um garfo, não peça «otro garfio, por favor». «Garfio» significa «gancho», e a Marcielo vai ficar a pensar que você é sado-masoquista, o que, mesmo num país com o historial deste, é contraproducente.
Durante a conversa, é desejável que não se ponha com declarações de princípios. As espanholas, como todas as chicas, apreciam muito o sentido de humor. Mas se tiver mesmo de ser, utilize todas as expressões menos o costumeiro «no me viendo por un plato de lentillas». Se em português já soa ridículo, em espanhol ainda pior, já que «lentillas» significa «lentes de contacto» - uma coisa que dificilmente a impressionará. O mais provável, neste caso, é que a esteja a aborrecer. Aliás, se ela admitir que «tu eres aborrecido», não pense que está na hora de lançar aquela piada que trazia do hotel. Tarde de mais, meu amigo. «Aborrecer» quer dizer «odiar»; «aborrecido» em princípio significa «odioso». Ou seja: está na hora de pagar, deixar a chica em casa e voltar sozinho para o hotel.
Há sempre aqueles optimistas que, numa situação destas, ainda acreditam que vão dar a chamada «volta por cima» (dar la vuelta a la tortilla): «estuvo a tentar abonarte, querida». Bem. «A ver», como dizem os espanhóis. Em primeiro lugar, «querida» quer dizer «amante». A palavra indicada é, por estranho que pareça, a que mais se ouve no canal 18: isso mesmo, o pornográfico «cariño». Como se isto não bastasse, «abonar» não é «elogiar», mas sim «adubar» ou, pior, «estrumar». Isto não é, propriamente, «dar a volta por cima», é mais o que se chama dar a volta por baixo. Mas se depois disto tudo ela ainda lhe disser que «estás borracho», não fique contente a pensar que a Maricielo, afinal, é uma daquelas neuróticas contraditórias: mulheres assim só existem nas comédias românticas. Estamos perante uma «cena» («jantar», em espanhol) claramente dramática. Na verdade, a Marcielo acha, e se calhar com razão, que você está bêbado.
PS: Quando deixar a Maricielo em casa, nao convém que se despeça com um «noche buena». Seria como uma cereja em cima de um bolo estragado. Boa noite é «buenas noches». «Noche buena» utiliza-se apenas na noite de Natal e, como se vê por esta história, o Natal não é quando o homem quer. Filipe


quarta-feira, outubro 20, 2004

 

Santiago Bernabeu

Ontem entrei pela primeira vez no estádio Santiago Bernabeu (nome de uma antiga glória do madridismo-franquismo). Não encontrei propriamente o que esperava. Nao me refiro apenas à qualidade do jogo, que foi uma verdadeira merda: basta ver que o Figo saiu lesionado aos 20 minutos e foi considerado o melhor em campo pelos adeptos que estavam ao meu lado. Refiro-me também à qualidade do estádio. Apesar do preço dos bilhetes (40 euros os mais baratos), chove em todo o primeiro anel. O estádio dos galácticos, tal como a própria equipa, é uma estrela cadente. Como é que isto é possível? A explicação está no site do clube: "El 14 de diciembre de 1947, con un partido entre el Real Madrid y el club portugués Os Belenenses, se inauguró el Estadio Santiago Bernabéu, que en aquella fecha era considerado el mejor, el más moderno."
Filipe

 

ddr esplanar

É precisa muita, muita (auto)ironia para sequer pensar em ser feliz para sempre com alguém. A questão é até onde levar a ironia para que esta não mate tudo. Evitar cair no cinismo ou niilismo afectivo. Evitar o frio das coisas demasiado cerebrais. A resposta, parece-me, é a ternura e o riso. Exemplo? Os Magnetic Fields – ou o «Lost in Translation». Eu acho que os casais deveriam ser obrigados compulsivamente a ouvir estes discos todos os dias, como dose diária recomendada. Seria a melhor terapia possível e sempre poupavam nas consultas de aconselhamento psicológico (infelizmente, a Fnac anda a sonegar o «69 Love Songs» às massas carentes). Não acreditam na mézinha? Talvez acreditem quando o Stephin Merritt fizer a capa da «Xis», um dia destes, não muito distante. Enquanto isso não sucede, é vê-los hoje à noite na Aula Magna. Rui

terça-feira, outubro 19, 2004

 

O princípio do frio

Só a habituação dos anos e aquilo a que a convivência social obriga me fizeram começar a gostar do verão. Hoje, reconheço, há nos meses quentes um efeito de regeneração que as sociedades não podem dispensar. Mas, por dentro, continuo a ser uma criatura do inverno e da aceitação de uma certa aura de sacrifício que o passar do tempo ganha quando principia a estação das chuvas. Por estes dias, isso começa a acontecer. O frio ganha horas ao calor e muitos pequenos prazeres redobram a sua importância. O duche quente matinal, as múltiplas peças de roupa onde nos aconchegamos, o café que nos recoloca em funcionamento antes de ir trabalhar, o cigarro que se lhe segue. O chá, o chocolate quente, a poltrona ou o pequeno bar acolhedor, conforme os estilos de vida. Os whiskies nocturnos, os abraços que abrem e encerram encontros. Porque o frio está lá para que o calor seja preciso.
Alexandre

 

Quando o telefone toca

Os espanhóis, ao contrário dos portugueses, nao gostam de ter toques personalizados nos telemóveis. Nao lhes passa pela cabeça serem incomodados com o hino do Real Madrid ou com o último hit da Isabel Pantoja. O toque do telemóvel é o toque que a Nokia decidiu, e pronto. Igual para todos. Como princípio socialista parece-me bem. Só nao percebo porque é que quando um telemóvel toca todos acham que deve ser o seu.
Filipe

segunda-feira, outubro 18, 2004

 

E agora para algo completamente diferente...

Para quem tem apregoado o luxo que é o direito à estabilidade, este foi um domingo em cheio. Nos Açores, o poder prosseguiu nas mãos de Carlos César; na Madeira, nas de João Jardim, no país futebolístico, nas de Pinto de Costa.
Os astros deviam estar numa conjugação manhosa qualquer...
Alexandre

 

Milan Kundera, A Valsa Do Adeus

Para qualquer um que aspire a ser escritor, esta é uma obra demolidora. Recordo-me de, acabado de o ler, pensar: “Eu nunca conseguirei escrever assim.” Isso não me aconteceu com Garcia Márquez ou Kafka ou Carver ou qualquer outro – com eles, vinha o empolgamento de querer escrever, de ser como eles, mesmo que nunca lá chegasse. A Valsa Do Adeus é quase vida, são as contradições do humano, ideias geniais a cada parágrafo, sem distinguir, moralmente, o belo do aterrador. E ensina-nos que só um comprimido que garanta a morte, quando no bolso de um homem, pode proporcionar a plenitude da existência.
Alexandre

domingo, outubro 17, 2004

 

Os Poetas – “entre nós e as palavras”

Não creio que a poesia exista para ser dita. A maioria dos recitais a que fui eram de um mau gosto constrangedor e parece-me que o verso, a metáfora, o soberbo cuidado com as palavras, tudo isso pede a intimidade da solidão, o silêncio da leitura. Mas este disco contraria a tese, talvez por serem os próprios poetas a cuidar do som dos seus poemas. Al Berto, Mário Cesariny, Franco Alexandre, Herberto Hélder e Luiza Neto Jorge, sobre música de Margarida Araújo, Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro. Comprei-o em 98, pouco depois de sair e, depois, perdi-o durante anos. Há um mês, lá reapareceu nas prateleiras da fnac (Auster diria que era o mesmo disco, o meu). A faixa 12, em que Hélder lê “[Minha Cabeça Estremece]” é o arrebatamento descido ao verbo e à melodia.
Alexandre

 

O correio

Convencional ou electrónico. Por muito individualistas ou independentes que nos achemos, a verdade é que abrir a caixa de correio do prédio ou do computador e nada por nós lá esperar não sabe bem. Posso passar um ano sem ver uma pessoa – ao receber uma carta dela, a linha do tempo é retomada onde havia parado. Com a perfeita noção de que os anos passam e que, a cada epístola trocada, estamos mais velhos.
Alexandre

sexta-feira, outubro 15, 2004

 

Las chicas Almodovar (8)


Carmen Maura

[por exemplo, Pepa, em "Mujeres al borde de un ataque de nervios"]

"Foi ela que me descobriu. Normalmente, é o realizador que descobre a actriz. No nosso caso, foi a actriz que descobriu o realizador, e que lhe mostrou, num ápice, o caminho a seguir. Carmen é uma actriz todo-o-terreno. Tem uma técnica muito depurada, um talento que consiste basicamente em que não se dê conta dele. Carmen é uma mistura de géneros em si mesma e domina-os a todos. Comédia, drama, terror, musical, revista, café-teatro, televisão... Uma virtuosa. Voltaremos." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004


Filipe/Rui

 

Pornografia

O homem teria à volta de cinquenta anos e tinha bom aspecto. Saíu à minha frente da pastelaria e virámos os dois à direita para descer a rua. Eu ia uns passos atrás dele. São poucos metros até ao cruzamento com a minha rua, onde tenho de virar à direita. Enquanto caminhava atrás dele reparei que tinha as costas do blusão todas sujas, sujas do que pareciam ser pegadas de pó. Ele parou no cruzamento à espera de atravessar e eu ia-me aproximando. Era muito estranho o facto de ele estar perfeitamente bem vestido, bem penteado, ter bom aspecto, sapatos limpos e cuidados, mas ter um blusão completamente sujo de um sujo ainda por cima esquisito. Era como se alguém tivesse estado repetidamente aos pulos em cima do blusão com botas das obras. O tipo não pode não ter reparado nisso, pensava. Estamos juntos no cruzamento, eu viro à direita e ele olha pela última vez para um lado e para o outro antes de atravessar. Olhou para a esquerda e depois para a direita. Aí, ficámos a olhar um para o outro por um segundo. Eu achei que se olhasse para a cara dele ia perceber. Nada, não cheguei a perceber o porquê. Fiquei embaraçado por sentir em mim o embaraço que ele não sentia. Fiquei embaraçado por ele, como quando via o «Perdoa-me». Estive quase para lhe dizer olhe, tem o blusão todo sujo atrás, mas, por pudor, não disse. Rui

quinta-feira, outubro 14, 2004

 

Las chicas Almodovar (7)


Victoria Abril

[por exemplo, Andrea Caracortada, em "Kika"]

"A guerreira. Noventa por cento das histórias que se contam (incluindo as minhas) são relatos de sobrevivência. O indivíduo lutando contra um destino fatal. Victoria é a lutadora por excelência. Os seus melhores trabalhos correspondem a personagens limite, envolvidas numa tensão quase insuportável. Mas ela suporta tudo. Chora com uma precisão impressionante, despe-se no plateau, abre o corpo e a alma para que o realizador possa introduzir a mão e extrair o que mais lhe convém. Também é boa na comédia negra, dura, como a vida. O seu nome não mente." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004
Filipe/Rui


 

O país está perigoso

Portugal 7, Rússia 1
Filipe

quarta-feira, outubro 13, 2004

 

A familiaridade entre estranhos

Só numa cidade grande se conquista, porque nas pequenas todos são primos ou, pelo menos, conhecidos. Escolho apenas uma figura para representar o sentimento: o senhor do meu quiosque. Eu não sei o nome dele e ele não sabe o meu, mas há anos que me vende os jornais e as revistas, que logo avisa quando chegam, caso haja atraso. Sabe o tabaco que fumo e o alternativo. Conhece o meu clube – que é o dele – dando conta de eu só pedir o desportivo nos dias seguintes às suas vitórias. Trata-me por “mano” e a primeira vez que me dirigiu a palavra, fê-lo assim: “E o nosso Benfica?” Julgo ser de origem indiana, está no Areeiro e faz-me sentir em Nova Iorque.
Alexandre

 

Las chicas Almodovar (6)


Marisa Paredes "Ninguém interpreta como ela o papel de grande diva, essa mistura de drama e fulgor, ridículo e soberba. O vermelho foi inventado para a Marisa, em todas as suas tonalidades. O vermelho de umas cortinas do palco ao abrirem-se. Chora bem, tem estilo, presença e voz. E algo mais. Tudo lhe fica bem. Do "Entre Tinieblas" até ao "Todo sobre mi madre", deu-me sempre imenso prazer trabalhar com ela." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004


[Becky del Páramo, em "Tacones Lejanos"]


Filipe/Rui

terça-feira, outubro 12, 2004

 

As time goes by...

Este fim-de-semana, estive no casamento do meu melhor amigo. Vendo-o diante do altar, ao lado da noiva, lembrei-me do dia em que começaram a namorar, oito anos atrás; de todos as vezes que jantámos juntos, que passeámos, que conversámos noites inteiras. E pareceu-me que, apesar de tudo, muita coisa aconteceu, entretanto, nas nossas vidas, muita coisa muito importante.
Até aqui, os sentimentos estavam a ser bons. Depois, o agrado começou a ser inquinado.
Olhei à volta. Onde estavam as miúdas giras que é suposto conhecermos nos casamentos? Onde estavam os outros solteiros com quem as teria de disputar durante o copo d' água? Não estavam - nem uns nem outros. Alguns jovens casais é certo, com bebés ao colo. Algumas raparigas novas, também, com cara de quem deve estar quase a acabar o ciclo. E rapazes que disputaram a liga da noiva, antes de voltarem a brincar com os carrinhos. Toda esta juventude rodeada de ternos avós e afectuosos tios.
No momento das fotografias, depois dos padrinhos, dos pais, da família da noiva, da família do noivo e todas as outras combinações de categorias possíveis, lá fui eu, sozinho, comprovar a minha presença na cerimónia ao lado dos noivos.
Momento estranho... Terei deixado passar qualquer coisa? Terei ficado congelado no tempo, sem dar por isso, enquanto todos os outros juntavam os trapinhos?
Deixa lá - pode ser que haja miúdas giras nos baptizados. Ou nas primeiras comunhões.
Alexandre

 

Luiz Pacheco, "Figuras, Figurantes e Figurões"


Se ainda não compraram, comprem. Custa 3,99 euros e vem com o Independente. É uma verdadeira pechincha! O texto que se segue, passe a publicidade, é da minha nota de apresentação ao livro. O importante, o importante, é lerem o Pacheco.


ÁGUIA SOLITÁRIA


Não pretendo vir para aqui enaltecer o Luiz Pacheco, as qualidades da escrita, a ductilidade e a desenvoltura do estilo (singular, superlativo), as técnicas do discurso, várias, a forma desassombrada como ri das conveniências, como expõe opiniões, espirituoso, mordente, com horror do medíocre e ódio ao aborrecido, a ironia lançada à queima-roupa contra a paz cínica em que vivia vive o nosso meio literário. Contra o elogio fácil, o elogio mútuo, o trabalho de lamber de botas.
É que o talento do escritor Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco salta aos olhos. Basta lê-lo. Bom será, bom seria, que o lêssemos.
A colaboração de Luiz Pacheco na imprensa é imensa, o que desmente a ideia de escritor preguiçoso. Na verdade, fartou-se de trabalhar (há ainda muitos inéditos, avulsos, diários e correspondência por publicar) para jornais e revistas de todo o tipo: O Globo, Afinidades, Pirâmide, O Volante, República, Seara Nova, Correio do Ribatejo, Jornal de Notícias, Diário Ilustrado, Jornal do Fundão, Gazeta das Caldas, Jornal de Letras e Artes, Notícia, O Século Ilustrado, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal, Diário Popular, A Voz do Povo, Página Um, O Ponto, A Merda, Gazeta de Palmela, O Setubalense, O Fiel Inimigo, Público, Já, Blitz, Revista Ler e Diário Económico – boa parte dessa colaboração está incluída em livros como Crítica de Circunstância, Literatura Comestível, Textos do Barro, Textos de Guerrilha, Memorando Mirabolando, Prazo de Validade, Isto de Estar Vivo e Raio de Luar.
O grosso das crónicas deste livro, nunca antes reunidas, provêm da revista angolana Notícia (em 1965-71), de Manoel Vinhas,[1] e do jornal Diário Económico (em 1995-96), então dirigido por Nicolau Santos. A estes textos juntei outros (6), entretanto incluídos em volume, por três razões: uns, porque clarificam o tipo de crítica que defendeu e praticou; outros, porque dão sequência a textos desta antologia; outros ainda – como as primeiríssimas referências críticas a O Que Diz Molero, de Dinis Macheco, e a Levantado do Chão, de José Saramago, reunidas em Textos de Guerrilha –, porque nos recordam o seu instinto para descobrir talentos literários, como aliás fizera antes, nos anos de 1950, com Herberto Helder ou Natália Correia na Contraponto. Finalmente, incluí um texto cómico, hilariante mesmo, sobre Vergílio Ferreira.
Luiz Pacheco mostra-nos, uma vez mais, por que é considerado um excelente conversador e um Mestre da língua portuguesa. Há aqui palavras fortes, com fibra, nervo, músculo. Detonações, faíscas. Mas também palavras meigas, factos emocionais, resíduos de sensações. Sobre este livro, termino com o próprio Pacheco: «festeja-se um escritor lendo-o muito e muitas vezes, dando-o a ler, editando-o em livrinhos baratos para a grande maioria e não em fascículos caros; serve-se uma obra aproximando-a de todos.»
[1] Manoel Vinhas foi um dos homens mais ricos de Portugal e um industrial esclarecido e arguto. Foi também um notável mecenas, tendo apoiado, para além de Luiz Pacheco, artistas plásticos e escritores, como Júlio Pomar, Fernando de Azevedo, Mário Cesariny de Vasconcelos, Artur do Cruzeiro Seixas, Aldina Costa, Raul Solnado (financiou a construção do teatro Villaret), o realizador António de Macedo ou ainda o cineasta francês Michel Déon. Com o 25 de Abril e a fuga do industrial para o Brasil, muitos desses que antes haviam beneficiado do seu apoio viraram-lhe as costas. Não assim Luiz Pacheco, que para além de lhe ter dedicado o livro Exercícios de Estilo, prefaciou-lhe o livro de memórias Profissão: Exilado, Lisboa, Meridiano, Maio de 1976 (prefácio esse incluído no 2º volume de Textos de Guerrilha, Lisboa, Ler editora, Junho de 1981, pp. 93-95). Manoel Vinhas apoiou Luiz Pacheco em momentos decisivos: pagou-lhe a renda de quartos, ofereceu-lhe uma máquina de escrever (produzida na sua fábrica MESSA), tirou outra do prego, pagou fianças do tribunal, como a decorrente do processo da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (org. de Natália Correia, Lisboa, Afrodite, 1965). Nessa revista, «reaccionária e colonialista», como Pacheco hoje lembra, colaboraram também Alexandre O’Neill, Natália Correia, Agostinho da Silva, Joaquim Benite, Acácio Barradas, Carlos Porto, Lauro António e Fernando Dacosta.
João Pedro

 

Caso Marcelo: Miguel Sousa Tavares responde ao comunicado de José Eduardo Moniz

Para quem não leu os arquivos do Esplanar, volto à carga.

Em Maio de 1991, numa entrevista à revista K, MST afirmou ao jornalista Pedro Rolo Duarte:

MST: “Não existe a RTP. Existe a TV do José Eduardo Moniz. Está ali para se servir e o preço que tem de pagar é servir o poder, seja o PS (que o meteu lá, não esqueçamos....), seja o PSD ou outro qualquer. Este tipo de gente serve todos os regimes. Mas ele não é eterno: não pode ir mais acima porque já está no topo da empresa, é quem manda mais. Portanto, a esta hora já deve andar a namorar as privadas. E ainda vamos assistir ao cúmulo da imoralidade – que é o José Eduardo Moniz, o homem de mão, o homem que moldou a RTP à sua semelhança, depois de minar a TV pública e liquidar a sua credibilidade, sair para outro canal e passar a concorrer com a própria RTP.”
K: “Está a chamar-lhe mafioso, maquiavélico?”
MST: “Não. É apenas um tipo esperto. (...) Com o Moniz, a informação andou 30 anos para trás.
(...)
K: “Como é que vê o seu futuro na Televisão, considerando os canais que aí vêm?” MST: “Vejo o futuro muito negro. Acho que não voltarei a trabalhar em televisão. Repare: a RTP será sempre um instrumento do poder – e eu ali serei sempre incómodo; quanto aos canais privados, entre os projectos que se perfilam... duvido que algum me queira; e vice-versa. Acho que a minha carreira televisiva acabou.”
João Pedro

 

Para quê usar de tanta educação

para destilar terceiras intenções?

Rui/Cazuza

 

Subir o Everest ao pé-coxinho

Até que percebeu. A razão porque apenas se colocava desafios impossíveis era o resgate do orgulho ferido, o bate-chapas de um amor-próprio amachucado. Agora, só (se) interessava se fosse para subir o Everest, mas ao pé-coxinho. Se fosse só para ir ali ao lado, à Serra da Estrela ou a Monsanto, de camioneta e farnel domingueiro, já por força não servia. Porquê fazer fácil quando se pode fazer difícil? O pai dele é que sabia. Enredou-se, portanto, numa forma particularmente destrutiva e inútil de redenção. Enfim: essas eram todas más razões para se estar com alguém, pensou. Mas daí, as pessoas permanecem juntas por tantas e tão más razões. Sprint e fundo, sprint e fundo; ao pé-coxinho. Rui

 

Las chicas Almodovar (5)


Penélope Cruz


[por exemplo, Isabel Plaza, em "Carne Trémula"]

"Quando a conheci, disse-me que tinha sonhado comigo e que noutra encarnação provavelmente teríamos sido grandes amigos. Eu não acredito em teorias da encarnação, mas acredito nela. É tão bonita que muita gente não acredita que seja tão boa actriz como realmente é. Silhueta incomparável, boca, pescoço, nariz e olhos. Faria com ela Il Gattopardo e Mamma Roma (no papel de Anna Magnani). É uma excelente companheira de viagem e uma permanente alegria para os olhos. A Penélope atravessa-se no meu caminho, como eu no seu." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004


["Carne Trémula", 1997]


Filipe/Rui

segunda-feira, outubro 11, 2004

 

I recognise myself in every stranger's eyes

Muitos parabéns, Eduardo, por um ano e uma semana do WDYR.
Rui

 

Y tu Mamá También

As razões porque estava a gostar imenso do filme não vêm agora ao caso. Não se trata de dizer bem, trata-se, ao invés, de dizer mal. Já é completamente inútil que a personagem de Luísa conheça qualquer tipo de futuro no enredo. Agora, que ela morra, é completamente irritante. E porquê? Porque dá a entender que todo o seu comportamento, aquilo que diz e faz a Jano (do qual se está a separar) e aquilo que diz e faz com os rapazes, não teria tido lugar se não soubesse que estava para morrer. De um momento para o outro, tudo isso que no filme era libertário ganha uma reverberação espessamente conservadora. Repare-se que Luísa, depois da noite a três, fica na praia e banha-se na água. Ecos imediatos de «Sinais de Fogo»: o mar lava tudo? Nem tudo, nem tudo...Ela estava maculada, ela banhou-se na água, ela pôde, enfim, morrer. E eles? Os rapazes, após consumarem o caso de amor homoerótico que dava tesão à sua amizade, depois de concluírem que são irmãos de leite porque foderam as respectivas namoradas várias vezes (mas será que foderam mesmo?) e um deles a mãe do outro também, não tomaram o tal banho de mar. Embaraçados, voltaram para casa a correr e, apropriadamente, nunca mais se deram. Porque não conseguiam encarar-se. Demasiado foi dito com abundância de pormenores sobre a forma como se traíram um ao outro, os beijos que trocaram enquanto ela lhes beijava as pilas foram demasiado bons para que se repitam, a noite que juntos passaram demasiado vívida para que possa ser recordada, o vómito de manhã demasiado pouco mau. Não há amizade entre homens que sobreviva a isto.
Já de Luísa, a mulher (agora também em caixa alta), para que se emancipe de uma relação malfazeja com Jano, e depois para que possa ser o olho do furacão da tempestade sensual com Tenoch e Júlio, se requer a morte. Luísa tem que pagar um preço, tem que redimir essa violação do equilíbrio cósmico. Primeiro, ritualmente, pelo banho lustral; depois, já pura, pela morte física. Eles têm que viver com as suas acções; ela não. Ela deveria viver; ela deveria viver com a consequência das suas acções para que a morte as não diminua e assim incorporá-las na sua biografia – como toda a gente, como eles – e seguir em frente, apenas. Isso faria dela mais e não menos humana.
O que eu acho mal é que, em Luísa, a emancipação tenha que vir embrulhada na expiação da culpa e na imperiosa necessidade de redenção e a custo da degenerescência física (ela morre de cancro). Afinal, a única coisa obscena no filme é a morte de Luísa, e o seu holocausto uma dupla infelicidade estética e ética. Rui

 

Las chicas Almodovar (4)


Rossy de Palma

[por exemplo, Rosa, em "Todo sobre mi madre"]

"A Rossy nasceu em plena movida, um período em que todos nos atrevíamos a tudo, com alegria e inconsciência. Deixou de servir bebidas para ser a estrela que filmava comigo. Não parece uma grande actriz, mas é. O seu físico resulta tão peculiar que, se não te esforças, pões tudo no valor da sua forte personalidade. Vi como deu os seus primeiros passos, e os segundos e os terceiros. Aprendeu e é insaciável. A sua inesgotável sede de experiências leva-a a fazer qualquer coisa em qualquer momento." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004.
Filipe/Rui

domingo, outubro 10, 2004

 

A equipa que arrumou as botas

Vendo a nova selecção em campo, não consigo evitar um sentimento estranho, uma falta de identificação que parece sugerir que não foram Rui Costa, Figo ou todos os outros quem, lentamente, se decidiu afastar, mas a própria Selecção Nacional que, depois de muitos anos ao serviço do País e dos nossos profissionais de futebol, entendeu que estava na altura de se retirar.
Certamente, escapou-me a leitura do comunicado que anunciava estas intenções. Nela, a Selecção recordou com saudade os momentos em que esteve com Eusébio no mundial de 66, com Chalana no europeu de 84, com Secretário, Paula e as suas amigas naquele hotel de Lisboa, enfim, todos os pontos altos de uma longa carreira, que compensaram ter de vestir sempre aqueles calçonitos verdes. E concluía, afirmando que pretendia, agora, dedicar-se mais à família e talvez abrir um restaurante. Os jogadores terão revelado a sua surpresa, mas considerado que a decisão cabia, exclusivamente, à própria e tinha, portanto, de ser respeitada. À boca pequena, ouviu-se dizer que, aqui e ali, a Selecção já vinha deixando indícios de querer deixar de jogar futebol.
Alexandre

sábado, outubro 09, 2004

 

Las chicas Almodovar (3)


Cecilia Roth



[Manuela, em "Todo sobre mi madre"]

"Percorremos um longo caminho desde a jovem hipermoderna e ninfomaníaca (trauma de infância) do "Laberinto de pasiones" até à mãe que sofre em "Todo sobre mi madre". E no plano pessoal também. Este ano celebramos as nossas bodas de prata. Cecília cresceu tanto e tão bem! Em breve nos voltaremos a encontrar. Com ela em frente e eu atrás da câmara. É a minha Romy Schneider, a minha Gena Rowland." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004
Filipe/Rui

 

Os Mata-Tordos

Estou ansioso por que chegue a Portugal a moda norte-americana das super-bandas formadas a partir da junção de elementos de grupos marcantes: os Audioslave a partir dos Soundgarden e Rage Against The Machine ou os Velvet Revolver, uma fusão dos Guns n’ Roses com os Stone Temple Pilots. Por cá, sonho com um Fernando Tordo, figura mítica do chamado nacional-cançonetismo, juntar-se a uns Mata-Ratos, banda que fez furor nos bas-fonds lusos dos idos 80.
O nosso panorama musical está a precisar de um abanão e não vejo quem mais apto do que eles para o fazer. Ambos marcaram gerações e ambos estão um bocado acabados, a receita utilizada nos Estados Unidos. E quanto a afinidades, desde que a sogra de Tordo também seja um boi, está tudo resolvido.
Alexandre

 

O verdadeiro ministério da defesa nacional

O apoio do governo de Durão Barroso à ofensiva americana no Iraque lançou, entre nós, o medo de nos tornarmos um alvo para as retaliações terroristas. Avizinhava-se, para mais, o Euro 2004 e os marginais árabes costumam ser dados a grandes aglomerados de inocentes. No entanto e felizmente, o Euro terminou, a guerra prosseguiu, assim como as ameaças de parte a parte, e nós fomos escapando ilesos.
Julgo, hoje, perceber o truque.
Correram a imprensa desses dias de delírio futebolístico as fotos de islâmicos não-identificados nos aeroportos e rondando estádios – sabemos que alguém andou por cá, como, aliás, dita o modus operandi dos grupos terroristas: um reconhecimento prévio do terreno. Mas, circulando por aí num carrito alugado que lhes permitia percorrer o País, os potenciais operacionais enfrentaram o último baluarte das nossas barreiras defensivas: o trânsito. Se escaparam com vida, os terroristas, diante do terrível ataque de uma esquadra constituída por dois tunnings, um camionista sonolento e um chefe de família que só queria impressionar os miúdos, ter-se-ão rendido, metido o rabinho entre as pernas e voltado para casa.
Vislumbrando, pela primeira vez, o verdadeiro terrorismo, perceberam, enfim, que, ao pé dos nossos condutores, Bin não passa de um menino de coro.
Alexandre

sexta-feira, outubro 08, 2004

 

Leonor Watling

é, dizem-me, vocalista de uma das melhores bandas espanholas do momento, os Marlango. E eu acredito. Eu vou ouvir; eu vou comprar; eu vou a Madrid para o efeito. Rui

 

Las chicas Almodovar (2)


Leonor Watling


[Alicia, em "Hable con ella"]

"A sobredotada insegura. Tem uma voz esplêndida, apesar de a ter condenado ao silêncio em 'Hable con ella' (filme em que todos falam menos ela), o que revela a sua bondade. Tem uma pele tão branca como o seu coração (Rossy [de Palma] também), e a luz adora as peles brancas. É muito sexy, embora não se tenha capacitado disso. Tem o corpo de uma mulher eterna, encaixa em qualquer época, em qualquer tipo. Adorável nas distâncias curtas. Como na foto, Leonor despertou do sono profundo do 'Hable' cheia de perguntas." Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004.
Filipe/Rui

 

Amor & etc.

Ela era especial. Ela fazia com que ele se lembrasse de piadas novas, que inventasse coisas novas para dizer, novas associações de ideias. Sim, porque as miúdas podem dividir-se em dois grupos: as que te levam a inventar piadas novas e aquelas com as quais usas as piadas e linhas de diálogo que inventaste para as primeiras. Ela era das primeiras. Se era amor? Não sabia; era pelo menos o «etc.» Ao menos isso era claro. Rui

quinta-feira, outubro 07, 2004

 

Las chicas Almodovar (1)

Rosario Flores


[Lydia, em "Hable con ella"]

«Ainda que se fale menos dela, Rosário tem um perfil tão contundente como o de Rossy [de Palma]. Rosário tem raça, mas precisa de acreditar mais no que faz e no que diz. O seu trabalho está cheio de verdade. É tão resistente como Victoria [April]. Podes fazer-lhe mil patifarias que ela vai sempre em frente. É impossível não recordar a sua mãe: Rosario parece-se cada vez mais com ela. Felizmente.» Pedro Almodovar em El Pais, 3 de Outubro de 2004.
Filipe/Rui

 

A leste nada de novo

Por que é que os espanhóis não entendem o português? Já todos nos interrogamos sobre isto, pelo menos uma vez na vida. Uma amiga minha, espanhola, desenvolveu uma interessante teoria, que talvez ajude a perceber o problema. Segundo ela, o domínio das línguas estrangeiras funciona de oeste para leste. Assim, nós compreendemos os espanhóis, os espanhóis compreendem os franceses, os franceses compreendem os italianos, e assim sucessivamente. Está tudo explicado. Foi, aliás, por isso que o Padre António Vieira se viu obrigado a dirigir o seu sermão aos peixes. Filipe


quarta-feira, outubro 06, 2004

 

Quem rirá melhor?

Noto, com agrado, que o Diário de Notícias está a tentar competir com o Público em matéria de humor: se o jornal do grupo SONAE há um ano que dá espaço ao riso no suplemento O Inimigo Público, a Lusomundo responde, agora, com argumentos de peso. Nomear Luís Delgado administrador de todo o grupo foi de morrer a rir. Mas, assim, a fasquia está alta: a próxima piada tem de ser mesmo muito boa.
Alexandre

 

Se vais falhar, ao menos falha com classe

Dada a sucessão de tropeções que tem feito da actuação do Governo qualquer coisa mais calamitosa que o losango de José Peseiro, compreendo, perfeitamente, a necessidade inicial de recrutar profissionais de imagem para tentar maquilhar cada pequena monstruosidade semanal.
Creio, aliás, que a manobra só tem pecado por escassez. Além da relações públicas da Lux contratada por Santana Lopes, Paulo Portas deveria ter pedido uma assessora da Família Cristã; nas Finanças, Bagão Félix ficava com um responsável de marketing do Benfica Ilustrado e António Barreto, segunda figura da hierarquia do elenco governativo, deveria ter em seu auxílio uma telefonista da Saúde e Vida. Já Maria João Bustorff, no ministério da Cultura, merecia bem um decorador de interiores da Lux-Casa e Telmo Correia, caso falhasse a aquisição do senhor responsável pelo grafismo dos folhetos do Pingo Doce, deveria sondar uma esteticista de Barcarena.
Poderiam dizer de Portugal que é pobre, mas feio, isso nunca.
Alexandre

terça-feira, outubro 05, 2004

 

notebook

Memória. A RTP deu início às emissões de um novo canal. Devo confessar que já as acompanho há algum tempo. Para mim, Canal Memória é qualquer um dos canais que estejam a passar imagens e sotaques da ilha de onde parti.

Descoberta. O melhor do congresso do PS foi ver Jaime a mandar umas bocas – sempre pausadas, é certo – a Alegre. Afinal, há vida emocional em Gama.

Crespo. Já se deve ter falado disto por aqui. Recomendo, no entanto, o divertido artigo da “Veja” de 29 de Setembro sobre a guerra entre alguns blogs conservadores americanos e Dan Rather (conhecido como o Mário Crespo da América).

Descendência.
O último post do meu amigo Nunes, algures em terras madrilenas, leva-me a pensar na desejável possibilidade de vir por aí um Filipe II. Nuno

segunda-feira, outubro 04, 2004

 

Eso és...

E se, num quarto de hotel em Madrid, a anterior hóspede lhe deixa uma cuequinha de fio dental debaixo da cama, com um bilhetinho ao lado...

sexta-feira, outubro 01, 2004

 

guess who's cummings

what’s his name?
cummings.
is he coming?
who is?
this guy you said was coming. what’s his name again?
e. e. cummings.
i know he’s coming, but what’s his name?
e...
yes...i'm with you...c’mon
i’m telling you: e...e...
are ye fucking with me?
no. listen to me. he’s name is e.e. cummings, allright?
but is he coming or what?
i’m pretty sure he’s coming.
with who?
with «he».
who’s «he» - another one of those fucking cummings?
no. «he»’s e.e.’s boyfriend. e.e.’s gay.
who’s gay?
come again?
who did you said was gay?
e.e. and «he», his boyfriend. both of them are gay.
ah, sure.
you read «yellow dog»?
the one by this martin fella, right?
yeah.
loved it. didn’t quite get it though those word games, you know.
like what?
like « ‘the comet is the come of heaven’. But maybe come here to unmake us.» i only wish he’d right in a better english.
Rui

 

Tens troco de vinte?

Rui



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